Joana sentiu o rosto queimar instantaneamente de pura vergonha. Ser confrontada de forma tão direta por um completo desconhecido sobre a miséria e a ruína de sua família era um golpe baixo e doloroso.
— Não vamos negar a realidade
admitiu a mãe, com a voz baixa e o olhar focado no chão.
— Estamos desesperados por uma saída. Mas como o senhor, um estrangeiro, soube dos nossos problemas internos?
— Temos exatamente o mesmo fornecedor de insumos, o Mourão. Ele sabe que eu estava interessado em expandir certos investimentos importantes e viu uma oportunidade de ouro de conectar os nossos interesses mútuos.
Pedro deu um passo à frente, a indignação começando a superar o medo.
— O quê? Como aquele homem ousa sair espalhando a nossa vida privada e as nossas dificuldades dessa maneira?
Pedro estava visivelmente revoltado.
— E que assunto tão importante é esse no qual o senhor está interessado em investir?
Óscar inclinou o corpo ligeiramente para a frente, cruzando os dedos longos sobre a mesa de madeira.
— Eu posso me tornar o sócio investidor que vocês tanto precisam. Posso oferecer o capital necessário imediatamente, não apenas para quitar cada uma das dívidas acumuladas com os fornecedores, mas também para reerguer este restaurante e transformá-lo em uma referência gastronômica na Europa. No entanto... em troca desse milagre financeiro, eu preciso de algo valioso de vocês.
Joana soltou uma risada amarga, balançando a cabeça negativamente.
— Sempre tem um preço alto ou algo em troca quando a esmola é demais. Logicamente. Diga logo de uma vez: o que um homem poderoso e rico como o senhor poderia querer de pessoas simples e falidas como nós?
— Eu investiguei absolutamente tudo sobre a rotina de vocês. Sei que têm uma filha jovem, linda e de excelente índole. Meu filho, Henrique, precisa urgentemente de uma esposa para assumir os negócios da família em Madri. Ele precisa de uma noiva que seja pura, educada e que venha de uma base sólida. Quero a mão de sua filha, Elise, em casamento.
O silêncio que se instalou no pequeno escritório foi cortante e absoluto. Pedro arregalou os olhos em estado de choque, enquanto Joana levou a mão trêmula à boca, sufocando um grito de horror que subia por sua garganta.
— O senhor está brincando com a nossa cara?
Pedro perguntou, a voz oscilando perigosamente devido à raiva crescente.
— O que é isso? Uma piada de mau gosto? Um filme antigo de época?
— O quê? Como o senhor ousa entrar na nossa propriedade para falar um absurdo desses!
explodiu Joana, as lágrimas de humilhação voltando a surgir.
— Pedro, mande este homem insolente embora daqui agora mesmo! Não temos nada para conversar!
— Estou sendo o mais franco, honesto e realista que consigo, senhores
disse Óscar, mantendo a calma imperturbável de quem controlava a situação.
— É um acordo de conveniência mútua que beneficiaria a todos os envolvidos. Vocês salvam o patrimônio e ela ganha um império.
— Eu não estou a entender a sua audácia
disse Pedro, levantando-se bruscamente da cadeira e encarando o espanhol.
— O senhor está a querer comprar a minha filha legítima? Ela não está à venda por preço nenhum, senhor! Elise não é uma mercadoria barata que se negocia em mesa de bar, ela é um ser humano, é a nossa única filha, é a nossa vida!
— Não me interpretem m*l, senhores
continuou Óscar, sem se abalar com os gritos ou com a postura defensiva dos pais.
— Não estou comprando a dignidade dela. Estou propondo uma aliança legítima entre famílias. Ela terá uma vida de rainha absoluta em Madri. Absolutamente nada faltará ao bem-estar dela. Eu sei muito bem o quanto ela se esforça diariamente, que dá aulas particulares exaustivas para ajudar no orçamento doméstico, que se sacrifica para manter as mensalidades da faculdade em dia. Pensem no futuro dela. Pensem na vida de luxo e segurança que ela poderia desfrutar longe das dívidas, dos cobradores e do trabalho braçal diário. Vou permanecer na cidade até amanhã. Preciso de uma resposta definitiva e rápida.
Joana já estava em prantos decorrentes do desespero. A ideia de que sua doce menina, que passava as noites em claro estudando receitas de gastronomia e planejando um futuro brilhante, estava sendo alvo de uma transação financeira fria era simplesmente insuportável para o seu coração de mãe.
— Saia daqui imediatamente!
gritou Joana, apontando o dedo trêmulo na direção da porta de saída.
— Nossa filha amada não tem preço! Suma do nosso restaurante e nunca mais volte!
— Por favor, controlem as emoções e pensem racionalmente no futuro dela
insistiu Óscar, levantando-se com extrema elegância e ajustando os botões do paletó.
Ele sabia perfeitamente que, apesar da fúria inicial, a semente da dúvida e do desespero havia sido plantada com sucesso.
— Saia!
repetiu Joana, soluçando alto.
Óscar caminhou lentamente até a mesa e deixou um cartão de visitas preto com letras douradas sobre os papéis de cobrança.
— Senhores, pensem com a cabeça voltada para a realidade, não apenas com o coração ferido. Vocês estão sem um centavo em caixa e, em muito breve, este lugar querido será fechado pelas autoridades judiciais. Pensem na faculdade dela, que será interrompida, no bem-estar dela a longo prazo. Eu conheço muito bem o perfil desses fornecedores locais, lido com homens cruéis como eles dia e noite. garanto que não terão a piedade ou a alternativa que eu estou oferecendo hoje. Aqui está o meu contato direto. Estarei hospedado no hotel de luxo da avenida principal até o final da semana aguardando a decisão de vocês.
Assim que Óscar cruzou a porta e saiu do estabelecimento, o escritório parecia ter ficado completamente sem oxigênio.
Joana bateu a porta com força, girando a chave para trancá-la por dentro, e desabou em um choro convulsivo nos braços do marido.
— Não vamos fazer isso, Pedro! De jeito nenhum! Nossa menina inocente não merece ser jogada nos leões dessa forma. Nós não podemos vender a nossa própria carne!
ela dizia entre soluços dolorosos.
Pedro desabou pesado na cadeira de madeira e enterrou o rosto calejado nas próprias mãos, sentindo o peso da derrota esmagar seus ombros.
— Meu Deus do céu... como eu vou conseguir olhar nos olhos da Elise hoje à noite? O que ela vai pensar de nós se ao menos souber que cogitamos uma loucura dessas para nos salvar?
— Nós não vamos cogitar, Pedro!
Joana tentava buscar uma firmeza que já não possuía.
— Vamos dar um jeito, como sempre demos. Vamos arrumar essa quantia de outra forma. Vamos vender o carro antigo, vamos entregar o que restar de valor, vamos pedir novos empréstimos nos bancos...