Narrado por Christopher Junqueira
No dia seguinte, acordei com a sensação de que o mundo estava mais pesado do que o normal.
O problema de enfrentar um dia r**m na escola é que o próximo sempre parece pior.
Me arrastei até o banheiro, tomei um banho rápido e desci as escadas já esperando que meu pai tivesse saído para o trabalho. Mas, para a minha surpresa, ele ainda estava na cozinha, tomando café com Anastácia.
— Bom dia, Pequeno Lobo — ele disse, casualmente.
Resmunguei alguma coisa e me servi de café.
Ele me observou por um tempo antes de falar:
— Vai querer que eu te leve hoje?
— Não precisa.
Ele assentiu devagar, mas não pareceu satisfeito.
Anastácia tentou aliviar o clima.
— Se quiser, eu posso te buscar depois.
— Valeu, mas acho que vou dar uma volta depois da aula.
Os dois trocaram olhares, mas não insistiram.
Depois de engolir o café, peguei minha mochila e saí antes que resolvessem ter uma daquelas conversas “de pai e filho” logo cedo.
A última coisa que eu precisava era mais peso na cabeça.
Quando cheguei na escola, segui direto para a sala e sentei no meu canto de sempre.
Fiquei ali, rabiscando no caderno, tentando ignorar tudo ao meu redor.
Mas não demorou muito até que a voz de Matheus cortasse o silêncio.
— E aí, Pequeno Lobo. Dormiu bem?
Fechei os olhos por um segundo, me segurando para não reagir.
Respira. Não dá bola.
Mas ele não parou.
— Tá estranho hoje. Seu papai te deu uma bronca?
Mais risadas.
Respirei fundo e continuei desenhando.
Só que Matheus nunca sabia a hora de parar.
— Ou será que ele nem liga? Afinal, demorou 13 anos pra lembrar que tem um filho.
Minha mão apertou o lápis com força.
— O que foi? — ele provocou. — Falei alguma mentira?
O lápis quebrou na minha mão.
Levantei os olhos para ele.
Dessa vez, não desviei.
Matheus sorriu, achando que tinha me vencido.
Só que eu não sentia medo.
Eu sentia raiva.
Levantei devagar.
— Repete o que você disse.
A sala ficou em silêncio.
Matheus arqueou uma sobrancelha, surpreso.
— O quê?
Dei um passo à frente.
— Eu disse pra você repetir.
Ele hesitou por um segundo.
Depois, riu.
— Calma, Junqueira. Tô só brincando.
— Não, não tá. Você tá querendo me provocar.
Ele deu de ombros.
— E o que você vai fazer?
Fiquei olhando para ele, meu coração batendo forte.
Eu podia socá-lo. Podia acabar com ele ali mesmo.
Mas então me lembrei da conversa com meu pai.
E, mais do que isso, me lembrei da expressão no rosto de Matheus.
Ele queria que eu reagisse. Queria que eu desse um motivo pra ele continuar.
Então, fiz a única coisa que ele não esperava.
Sorri.
— Sabe qual é a diferença entre a gente, Matheus?
Ele franziu o cenho.
— Eu sou um Junqueira. E você? Você não é ninguém.
As risadas pararam.
O sorriso dele sumiu.
E eu passei por ele, sentindo, pela primeira vez, que o peso do meu nome podia ser uma vantagem.
Depois da aula, fui direto para a pista de skate.
Precisei gastar a energia acumulada antes de voltar pra casa.
Peguei o skate e fui até a rampa, sentindo o vento bater no rosto enquanto descia.
Fazia tempo que eu não me sentia tão… leve.
Talvez porque, pela primeira vez, eu não me senti como uma vítima.
Talvez porque, finalmente, eu tivesse parado de fugir.
O fato é que, naquele dia, percebi algo importante:
Eu não precisava ser apenas o filho do Christian Junqueira.
Eu podia ser muito mais.
Fiquei na pista de skate até tarde, bem mais do que deveria.
As luzes dos postes já estavam acesas quando me sentei no meio-fio, suado e com os braços apoiados nos joelhos.
O vento frio da noite bateu contra meu rosto, me fazendo respirar fundo.
Aquele dia tinha sido estranho.
Eu não sabia o que tinha me dado coragem para enfrentar Matheus daquele jeito. Nunca fui o tipo de cara que gostava de confronto.
Mas alguma coisa mudou.
Talvez meu pai estivesse certo. Talvez eu não tivesse que enfrentar tudo sozinho.
O pensamento me fez mexer no celular.
Duas mensagens de Anastácia.
Anastácia: Onde você tá, Pequeno Lobo?
Anastácia: Tô começando a ficar preocupada.
Sorri de leve.
Ela sempre fazia isso.
Sempre preocupada, sempre tentando me entender.
E, por mais que eu odiasse admitir, eu gostava.
Quando finalmente cheguei em casa, Anastácia já estava na cozinha, mexendo em alguma coisa no fogão.
Ela se virou assim que ouviu a porta abrir.
— Finalmente, Christopher.
— Foi m*l — murmurei, jogando a mochila no sofá.
Ela cruzou os braços.
— Sabe que seu pai vai te matar se souber que você ficou até essa hora na rua, né?
— Por isso ele não precisa saber.
Ela suspirou, mas não insistiu.
Foi até o balcão e pegou um prato de comida.
— Fiz seu jantar.
— Você não precisava.
— Eu sei.
Ela colocou o prato na minha frente e se sentou ao meu lado.
Fiquei em silêncio por um tempo, comendo devagar.
E, como sempre acontecia quando ficávamos sozinhos, senti aquela sensação estranha.
Aquela coisa que eu nunca conseguia explicar.
Eu gostava dela. Gostava de verdade.
Gostava da maneira como se preocupava comigo.
Gostava da forma como fazia meu pai parecer menos assustador.
Gostava de como ela sempre me tratava como alguém que importava.
Mas eu tinha medo.
Medo de dizer algo errado.
Medo de chamá-la do jeito que eu queria.
Medo dela não gostar.
Engoli em seco e mexi no arroz com o garfo.
— Você e meu pai… pensam em ter filhos?
Ela me olhou, surpresa.
— Que pergunta foi essa do nada?
Dei de ombros.
— Só pensei nisso.
Ela ficou um tempo em silêncio.
— Eu não sei. Ainda é cedo pra gente decidir essas coisas.
Assenti.
Não queria admitir, mas a resposta me aliviou.
Porque, por mais que eu tentasse me convencer de que não me importava, a verdade era que… eu gostava de ser o único.
Gostava de ter ela por perto.
E odiaria que algo mudasse.
Anastácia sorriu e bagunçou meu cabelo.
— Por que essa cara de pensativo?
— Nada.
Ela me olhou com aquela expressão de quem sabe que estou mentindo.
Mas, para minha sorte, não insistiu.
Apenas ficou ali, comigo.
E, pela primeira vez, me senti à vontade com o silêncio.