Narrado por Christopher Junqueira
O dia na escola tinha sido o de sempre. Algumas matérias chatas, outras suportáveis. Nada fora do normal.
Mas quando cheguei em casa, algo estava diferente.
O cheiro de comida se espalhava pela cozinha, e eu ouvi risadas baixas antes mesmo de entrar. Franzi o cenho. Normalmente, a casa estava silenciosa quando meu pai chegava. Ele passava mais tempo no escritório do que aqui.
Joguei a mochila no sofá e fui até a cozinha.
A cena que encontrei foi... incomum.
Meu pai estava de avental-sim, avental-ajeitando hambúrgueres na chapa, enquanto Anastácia misturava um molho em uma tigela. Eles conversavam como se aquilo fosse completamente normal.
Eu deveria ter tirado uma foto.
- O que tá acontecendo aqui? - perguntei, cruzando os braços.
Os dois se viraram ao mesmo tempo. Anastácia sorriu.
- Estamos fazendo hambúrguer.
Meu olhar foi para Christian.
- "Estamos"?
Ele soltou um suspiro, mas não parecia irritado.
- Achei que podíamos jantar juntos.
A ideia de comer um hambúrguer feito pelo meu pai era tão absurda que quase ri.
- Isso parece perigoso.
Anastácia riu.
- Não se preocupe, estou supervisionando.
Eu ainda não sabia o que pensar daquilo. Meu pai não era o tipo de cara que tentava agradar os outros. Se ele estava fazendo isso, havia um motivo.
- Tá bom... - murmurei, pegando um refrigerante na geladeira. - Mas se for r**m, eu peço pizza.
- Confie no chefe aqui - meu pai respondeu, virando os hambúrgueres na chapa.
Foi estranho. Mas, por algum motivo, não foi r**m.
Quando nos sentamos à mesa, fiquei observando os dois.
Anastácia era sempre animada, tentando puxar assunto. Christian... bom, ele estava tentando.
- Então, como foi a escola? - ele perguntou.
Ergui uma sobrancelha.
- Você quer mesmo saber?
Ele me encarou, e por um momento achei que fosse desistir. Mas então respondeu:
- Sim.
Suspirei.
- Foi normal. Matemática foi chata. O professor de história resolveu passar um trabalho gigante. Ah, e quase derrubaram tinta em cima do meu caderno.
- Seu sketchbook? - meu pai perguntou, parecendo interessado.
- Sim - respondi, surpreso por ele lembrar.
Ele assentiu.
- Estragou?
- Não, eu fui rápido o bastante.
Ele pareceu satisfeito com isso.
Fiquei mexendo nas batatas fritas, tentando entender aquela conversa.
Depois do jantar, fui para o meu quarto, joguei minha mochila no chão e me joguei na cama. Peguei meu sketchbook novo e comecei a rabiscar sem muito objetivo, apenas para tentar distrair a mente.
Mas a cena do jantar continuava voltando para mim.
Meu pai cozinhando.
Meu pai perguntando sobre a minha escola.
Meu pai realmente ouvindo minha resposta.
Era bizarro.
Talvez, se fosse há alguns meses, eu tivesse simplesmente ignorado. Mas agora... eu não sabia o que pensar.
Suspirei e virei a página do sketchbook. Antes que percebesse, meus dedos começaram a desenhar um lobo outra vez. Pequeno, mas atento. Diferente do primeiro que fiz. Esse parecia... mais confiante.
Um barulho de batida na porta me fez parar.
- Christopher - a voz grave do meu pai veio do outro lado.
Demorei um segundo antes de responder.
- O que foi?
- Posso entrar?
Fiquei olhando para a porta. Ele nunca pedia permissão para nada. Isso já era novo.
- Tá.
Ele abriu a porta e entrou, com as mãos nos bolsos. Olhou ao redor do quarto, como se nunca tivesse prestado atenção antes. O olhar dele pousou em mim.—O que estava desenhando?
Hesitei por um instante antes de virar o caderno para ele.
Ele olhou o desenho do lobo por alguns segundos, sem dizer nada.
- Pequeno Lobo - murmurou.
- É... - murmurei de volta.
Ele se sentou na beira da cama, ainda analisando o desenho.
- Você é melhor nisso do que imagina.
Senti meu rosto esquentar um pouco e desviei o olhar.
- Sei lá.
Silêncio.
E então, ele respirou fundo.
- Eu queria ter feito as coisas de um jeito diferente, Christopher.
Meu peito apertou mais.
Não sabia se queria ter essa conversa.
- Mas não fez - murmurei.
Ele fechou os olhos por um instante e balançou a cabeça.
- Não. Não fiz.
O silêncio ficou pesado.
Eu poderia ter falado alguma coisa. Poderia ter dito que tudo bem, que ele podia compensar o tempo perdido.
Mas não era tão simples assim.
E acho que ele sabia disso.
Depois de um tempo, ele levantou.
- Só queria te agradecer por jantar com a gente hoje.
Olhei para ele, confuso.
- Agradecer?
Ele assentiu.
- Sei que não tem sido fácil. Só quero que saiba que estou tentando.
Engoli em seco.
- Tá.
Ele me olhou por mais um segundo e, sem dizer mais nada, saiu do quarto.
Eu fiquei ali, olhando para a porta fechada.
Meu pai estava tentando.