Capítulo 5

799 Words
Narrado por Christopher Junqueira O dia na escola tinha sido o de sempre. Algumas matérias chatas, outras suportáveis. Nada fora do normal. Mas quando cheguei em casa, algo estava diferente. O cheiro de comida se espalhava pela cozinha, e eu ouvi risadas baixas antes mesmo de entrar. Franzi o cenho. Normalmente, a casa estava silenciosa quando meu pai chegava. Ele passava mais tempo no escritório do que aqui. Joguei a mochila no sofá e fui até a cozinha. A cena que encontrei foi... incomum. Meu pai estava de avental-sim, avental-ajeitando hambúrgueres na chapa, enquanto Anastácia misturava um molho em uma tigela. Eles conversavam como se aquilo fosse completamente normal. Eu deveria ter tirado uma foto. - O que tá acontecendo aqui? - perguntei, cruzando os braços. Os dois se viraram ao mesmo tempo. Anastácia sorriu. - Estamos fazendo hambúrguer. Meu olhar foi para Christian. - "Estamos"? Ele soltou um suspiro, mas não parecia irritado. - Achei que podíamos jantar juntos. A ideia de comer um hambúrguer feito pelo meu pai era tão absurda que quase ri. - Isso parece perigoso. Anastácia riu. - Não se preocupe, estou supervisionando. Eu ainda não sabia o que pensar daquilo. Meu pai não era o tipo de cara que tentava agradar os outros. Se ele estava fazendo isso, havia um motivo. - Tá bom... - murmurei, pegando um refrigerante na geladeira. - Mas se for r**m, eu peço pizza. - Confie no chefe aqui - meu pai respondeu, virando os hambúrgueres na chapa. Foi estranho. Mas, por algum motivo, não foi r**m. Quando nos sentamos à mesa, fiquei observando os dois. Anastácia era sempre animada, tentando puxar assunto. Christian... bom, ele estava tentando. - Então, como foi a escola? - ele perguntou. Ergui uma sobrancelha. - Você quer mesmo saber? Ele me encarou, e por um momento achei que fosse desistir. Mas então respondeu: - Sim. Suspirei. - Foi normal. Matemática foi chata. O professor de história resolveu passar um trabalho gigante. Ah, e quase derrubaram tinta em cima do meu caderno. - Seu sketchbook? - meu pai perguntou, parecendo interessado. - Sim - respondi, surpreso por ele lembrar. Ele assentiu. - Estragou? - Não, eu fui rápido o bastante. Ele pareceu satisfeito com isso. Fiquei mexendo nas batatas fritas, tentando entender aquela conversa. Depois do jantar, fui para o meu quarto, joguei minha mochila no chão e me joguei na cama. Peguei meu sketchbook novo e comecei a rabiscar sem muito objetivo, apenas para tentar distrair a mente. Mas a cena do jantar continuava voltando para mim. Meu pai cozinhando. Meu pai perguntando sobre a minha escola. Meu pai realmente ouvindo minha resposta. Era bizarro. Talvez, se fosse há alguns meses, eu tivesse simplesmente ignorado. Mas agora... eu não sabia o que pensar. Suspirei e virei a página do sketchbook. Antes que percebesse, meus dedos começaram a desenhar um lobo outra vez. Pequeno, mas atento. Diferente do primeiro que fiz. Esse parecia... mais confiante. Um barulho de batida na porta me fez parar. - Christopher - a voz grave do meu pai veio do outro lado. Demorei um segundo antes de responder. - O que foi? - Posso entrar? Fiquei olhando para a porta. Ele nunca pedia permissão para nada. Isso já era novo. - Tá. Ele abriu a porta e entrou, com as mãos nos bolsos. Olhou ao redor do quarto, como se nunca tivesse prestado atenção antes. O olhar dele pousou em mim.—O que estava desenhando? Hesitei por um instante antes de virar o caderno para ele. Ele olhou o desenho do lobo por alguns segundos, sem dizer nada. - Pequeno Lobo - murmurou. - É... - murmurei de volta. Ele se sentou na beira da cama, ainda analisando o desenho. - Você é melhor nisso do que imagina. Senti meu rosto esquentar um pouco e desviei o olhar. - Sei lá. Silêncio. E então, ele respirou fundo. - Eu queria ter feito as coisas de um jeito diferente, Christopher. Meu peito apertou mais. Não sabia se queria ter essa conversa. - Mas não fez - murmurei. Ele fechou os olhos por um instante e balançou a cabeça. - Não. Não fiz. O silêncio ficou pesado. Eu poderia ter falado alguma coisa. Poderia ter dito que tudo bem, que ele podia compensar o tempo perdido. Mas não era tão simples assim. E acho que ele sabia disso. Depois de um tempo, ele levantou. - Só queria te agradecer por jantar com a gente hoje. Olhei para ele, confuso. - Agradecer? Ele assentiu. - Sei que não tem sido fácil. Só quero que saiba que estou tentando. Engoli em seco. - Tá. Ele me olhou por mais um segundo e, sem dizer mais nada, saiu do quarto. Eu fiquei ali, olhando para a porta fechada. Meu pai estava tentando.
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