Narrado por Christopher Junqueira
O dia começou bem. Melhor do que o normal, na verdade.
Depois de andar de skate na praça, meu pai me levou para tomar café na padaria antes da escola, eu sempre acordava muito cedo. Foi estranho, mas não r**m. Ele perguntou sobre algumas coisas e, pela primeira vez, não tentou bancar o empresário ocupado.
Não vou mentir, foi… legal.
Mas essa sensação durou pouco.
Assim que cheguei na escola, tudo voltou ao normal.
Ou melhor, voltou a ser uma merda.
Desde que comecei a estudar ali, as coisas nunca foram fáceis.
No início, todo mundo me via como “o garoto novo”. Depois, começaram a me ver como “o riquinho que morava com os avós”. E agora, eu era só o esquisito que andava de skate e desenhava.
Nada do que eu fizesse parecia suficiente.
E alguns caras faziam questão de deixar isso bem claro.
— Ei, Pequeno Lobo! — uma voz debochada soou atrás de mim enquanto eu guardava meu skate no armário.
Já sabia quem era antes mesmo de me virar.
Matheus e seu grupo de idiotas. E porque ele me chamou assim? É porque ele pegou meu caderno de desenho e viu o desenho do lobo e o nome como meu pai começou a me chamar.
Fechei o armário com força e tentei ignorar. Mas, como sempre, ele não ia deixar passar.
— Fiquei sabendo que agora seu papai tá tentando ser presente. Que bonitinho! — ele riu, os amigos o acompanhando.
Meus músculos ficaram tensos.
Não era a primeira vez que tiravam sarro de mim por causa do meu pai. E, pelo jeito, não seria a última.
— Não enche, Matheus — murmurei, pegando meu caderno e tentando sair dali.
Mas ele bloqueou o caminho.
— Qual é, só quero conversar. Ou vai correr pro seu papai empresário pra ele resolver seus problemas?
Os outros riram. Meu sangue ferveu.
— Sai da frente.
— Se não? — Ele empurrou meu caderno, fazendo cair no chão.
Minha paciência foi para o espaço.
— Vai se f***r, cara.
O sorriso dele sumiu.
Em um segundo, senti um empurrão forte no peito e bati contra o armário.
— Repete isso, riquinho — Matheus disse, os olhos cheios de raiva.
Engoli em seco, mas não abaixei a cabeça.
— Você me ouviu.
Ele cerrou os punhos, mas antes que fizesse algo, a voz de um professor ecoou pelo corredor.
— O que está acontecendo aqui?
Matheus deu um passo para trás e forçou um sorriso.
— Nada, professor. Só conversando com nosso amigo Christopher.
O professor nos lançou um olhar suspeito, mas não insistiu.
— Para a sala, agora.
Matheus me deu um último olhar e foi embora com os amigos.
Fiquei ali por alguns segundos, sentindo meu coração disparado.
Peguei meu caderno do chão e respirei fundo.
Mais um dia na escola.
Mais um dia lidando com esses idiotas.
E o pior? Eu não fazia ideia de como mudar isso.
Respirei fundo e segurei o caderno com força, tentando ignorar a vontade de socar alguma coisa.
O professor já tinha ido embora, o corredor esvaziou, e eu fiquei ali por alguns segundos, tentando fazer meu coração desacelerar.
Matheus sempre foi um babaca, mas ultimamente ele estava pior. Antes, eram só piadinhas estúpidas. Agora, os empurrões estavam ficando mais frequentes.
E o pior era que eu nunca revidava.
Não porque tinha medo dele. Mas porque sabia que, se fizesse alguma coisa, eu que acabaria ferrado.
Filho do Christian Junqueira envolvido em briga na escola. A diretora ligando pro meu pai. Matheus saindo como vítima e eu como o problema.
Já conseguia ver a merda que isso daria.
Então, como sempre, engoli a raiva e fui para a sala.
Na aula, fiquei quieto no meu canto, rabiscando no caderno enquanto o professor explicava alguma coisa que eu m*l prestava atenção.
Desenhar sempre foi minha válvula de escape. Quando pegava no lápis, o resto do mundo sumia um pouco.
Dessa vez, minha mão se mexia sozinha, e quando percebi, estava desenhando um lobo cercado por sombras. Pequeno, mas com os dentes à mostra.
Como se estivesse cansado de ser acuado.
— O que tá desenhando, Junqueira?
A voz veio do lado, e meu coração afundou.
Matheus de novo.
Ele estava sentado na carteira ao lado, com aquele maldito sorriso provocador.
— Nada — murmurei, fechando o caderno.
Mas ele foi mais rápido e puxou o caderno da minha mesa.
— Olha só… Um lobo bravo! Vai me morder, Pequeno Lobo?
A turma riu baixo.
Meu rosto esquentou de raiva.
— Devolve, Matheus.
Ele fingiu pensar.
— Não sei… talvez eu goste desse desenho. Posso ficar?
— Me devolve, p***a.
Dessa vez, minha voz saiu mais alta do que deveria, e o professor olhou na nossa direção.
— Algum problema aí, senhores?
Matheus sorriu.
— Nada, professor. O Junqueira só está um pouco nervoso.
Ele jogou meu caderno de volta na mesa e piscou para mim.
— Relaxa, Pequeno Lobo. Só estamos brincando.
Brincando.
Se aquilo era uma brincadeira, então eu odiava humor i****a.
A aula seguiu, mas eu não consegui mais desenhar.
A raiva e a humilhação ficaram ali, presas no meu peito, sufocando.
No intervalo, saí da sala o mais rápido possível e fui para o pátio. Peguei meu lanche e me sentei sozinho, no canto de sempre.
Na maioria dos dias, eu aproveitava esse tempo para desenhar ou ouvir música. Mas hoje, minha cabeça não parava.
Fiquei pensando no que meu pai faria no meu lugar.
Provavelmente quebraria a cara de Matheus sem pensar duas vezes..
Mas eu não era meu pai.
E mesmo que eu quisesse revidar, sabia que as coisas não eram tão simples assim.
Estava perdido nesses pensamentos quando alguém se sentou ao meu lado.
— O que houve hoje?
Levantei os olhos e vi Helena, uma das poucas pessoas na escola que eu considerava… legal.
Ela era baixinha, usava óculos de armação grossa e sempre tinha um livro na mão. Não era exatamente minha amiga, mas às vezes conversávamos.
— Nada — respondi, desviando o olhar.
— Parece que foi alguma coisa.
Suspirei.
— Matheus de novo.
Ela revirou os olhos.
— Ele é um babaca.
— Eu sei.
Ela ficou em silêncio por um momento antes de perguntar:
— Você já pensou em contar pra alguém?
Soltei uma risada seca.
— Tipo quem? Um professor? A diretora? Como se isso fosse mudar alguma coisa.
— Pode mudar.
— Ou pode piorar.
Ela mordeu o lábio, parecendo pensar.
— E seu pai?
Meu estômago se revirou.
— Ele tem coisas mais importantes pra se preocupar.
— Você tem certeza?
Olhei para ela, irritado.
— Qual é, Helena. Você conhece a fama dele. O que você acha que ele faria?
Ela ficou em silêncio.
E foi isso.
Mais um dia, mais uma vez em que eu engoli tudo sozinho.
(....)
Quando as aulas acabaram, eu só queria ir para casa e esquecer aquela merda toda.
Mas, claro, Matheus e seus amigos tinham outros planos.
— Ei, Pequeno Lobo!
Ignorei e continuei andando.
— Tá fugindo, riquinho?
Os passos atrás de mim aceleraram.
Antes que percebesse, senti um empurrão forte nas costas.
Tentei me equilibrar, mas acabei caindo de joelhos no chão.
As risadas vieram logo em seguida.
A raiva cresceu dentro de mim.
Levantei rápido, segurando os punhos com força.
— Qual é o seu problema, cara?
Matheus se aproximou, com aquele sorriso arrogante.
— Meu problema? Acho que não gosto da sua cara.
— Então para de olhar pra ela.
As risadas aumentaram.
Os olhos dele brilharam de raiva.
— E se eu não quiser? Vai chorar pro seu papai?
Algo dentro de mim estalou.
Antes que pudesse pensar, meus punhos se fecharam e, pela primeira vez, eu não recuei.
— Cala a boca, Matheus.
A surpresa passou pelo rosto dele por um segundo.
Depois, o sorriso voltou.
— Olha só, o Pequeno Lobo tá mostrando os dentes.
Os amigos dele riram, mas eu não.
Pela primeira vez, eu não me senti pequeno.
Talvez fosse o jeito que meu peito estava cheio de raiva.
Ou talvez fosse porque, pela primeira vez, eu não estava disposto a abaixar a cabeça.
Matheus percebeu isso.
Ele me olhou de cima a baixo, esperando que eu recuasse.
Mas eu não recuei.
Depois de alguns segundos, ele bufou e deu um passo para trás.
— Vamos, galera.
Eles se afastaram, e eu fiquei ali, meu coração martelando contra o peito.
E dessa vez, Matheus não conseguiu me quebrar. E eu me senti forte e aley acho que está na hora de parar de ser só o Pequeno Lobo.