Ela não abaixa o olhar.
Isso é, no mínimo… interessante.
A maioria das mulheres treme quando entra nesta sala. Algumas evitam respirar fundo demais, como se o próprio ar pudesse denunciá-las. Outras falam demais, tentando preencher o silêncio que não conseguem suportar. Há também as que se calam por completo, dominadas antes mesmo que eu precise dizer qualquer coisa.
Lívia não.
O medo está ali, consigo vê-lo com clareza. Na tensão rígida dos ombros. Na respiração curta, cuidadosamente controlada. No modo como os olhos percorrem o ambiente, avaliando rotas de fuga que não existem. Nas mãos entrelaçadas no colo, dedos apertados com força suficiente para denunciar o esforço que faz para não tremer.
Mas ela não se entrega ao medo.
Ainda.
Observo cada detalhe sem pressa, enquanto ela sustenta essa coragem frágil que insiste em manter de pé. O maxilar contraído. O queixo erguido alguns milímetros além do natural. A tentativa inútil de conservar controle sobre algo que já perdeu antes mesmo de atravessar aquela porta.
Ela é minha agora.
O pensamento surge simples, direto, definitivo.
E eu não gosto da forma como isso desperta algo dentro de mim.
Não deveria haver nada além de posse. Fria. Objetiva. Funcional. Foi assim que sempre funcionou. Desejo complica. Desejo cria brechas. Desejo enfraquece decisões que precisam permanecer sólidas.
Ela não era para ser desejada.
Era para ser apenas… minha.
Há uma diferença clara entre possuir e querer.
Uma linha que sempre respeitei.
Uma regra silenciosa que nunca tive dificuldade em seguir.
Até agora.
Desvio o olhar por um segundo, o suficiente para recuperar a neutralidade antes de falar. Emoções são luxos perigosos. E eu não sobrevivi tanto tempo permitindo luxos.
— O quarto é no último andar — digo, mantendo a voz estável, sem revelar nada do que passa pela minha cabeça.
Ignoro deliberadamente o desafio que ela lançou minutos atrás. A pergunta silenciosa escondida por trás da aparente obediência. Ela pode imaginar resistência dentro dessa mente inquieta… mas imaginação não muda realidade.
Na vida real, ela não vai me desafiar.
E, se um dia tentar…
haverá consequências.
— Minhas regras começam hoje — completo.
Vejo quando ela se levanta.
Devagar demais para ser natural. Rápido demais para ser calma.
Um movimento cuidadoso de quem pisa em terreno desconhecido.
Ela engole em seco. A respiração, que já estava pesada, se torna ainda mais difícil. O ar parece espesso ao redor dela, como se cada segundo dentro deste escritório tivesse peso próprio.
Mesmo assim, ela fala:
— E se eu quebrar alguma?
A voz treme.
Mas a cabeça não abaixa.
Interessante… de novo.
Dou apenas um passo à frente.
Um só.
O suficiente.
Invado o espaço dela sem tocar. Sinto o perfume doce que contrasta com a tensão no corpo. Algo leve demais para o mundo em que acabou de entrar.
— Não recomendo — respondo, baixo. Controlado. — Quebrar minhas regras… e ignorar minhas ordens… traz consequências. E você terá que lidar com cada uma delas.
Não há ameaça explícita.
Não é necessário.
Os olhos dela sobem até os meus.
Grandes. Intensos.
E vazios de súplica.
Não há pedido de misericórdia.
Não há rendição.
Há fogo.
Meu corpo reage antes que a razão tenha tempo de interferir.
Um impulso rápido, perigoso, irritantemente humano.
Seguro o queixo dela com dois dedos.
Firme.
Sem brutalidade.
Mas sem espaço para recusa.
Obrigo-a a me encarar.
A pele dela é quente sob meu toque. Delicada demais. Frágil demais. Tudo nela parece deslocado do tipo de mundo ao qual eu pertenço.
Não a beijo.
Ainda não.
Mas chego perto o bastante para sentir a respiração dela misturar-se à minha. Perto o suficiente para perceber que um único movimento mudaria tudo.
E é exatamente por isso que não faço.
Controle sempre foi minha maior arma.
Não pretendo perdê-la agora.
— Você foi entregue a mim, Lívia — murmuro, deixando as palavras saírem lentas. Pesadas. — E tudo o que é meu…
Deslizo o polegar pela linha do maxilar dela.
Devagar.
Sentindo cada milímetro de reação que ela tenta esconder.
— …eu protejo.
Eu controlo.
E eu não devolvo.
Uma pausa curta. Intencional.
— Eu não deixo escapar.
Solto-a de repente.
O afastamento é brusco o suficiente para quebrar qualquer ilusão de proximidade. Dou alguns passos para trás, criando distância antes que o impulso de diminuir essa distância volte a existir.
Ela permanece imóvel.
Os olhos fechados.
A respiração rápida demais.
Por um instante, parece ter esquecido como se move. Como se o próprio corpo não respondesse às ordens da mente.
Observo em silêncio.
Segundos passam.
Vejo quando os punhos dela se fecham com força, como se estivesse se agarrando ao pouco de controle que ainda possui. Então os olhos se abrem novamente.
Ela me encara.
Apenas um segundo.
Mas é o suficiente para confirmar algo que eu já suspeitava:
Essa mulher não vai quebrar fácil.
Logo depois, o olhar se afasta, percorrendo o escritório como se tentasse se localizar dentro de uma realidade que ainda não aceita. Sem dizer nada, ela caminha até a porta.
Cada passo é firme demais para alguém com medo.
Ou talvez seja exatamente o medo que a mantém firme.
Ela sai.
Sem olhar para trás.
O silêncio que fica é diferente do anterior.
Mais vazio.
Mais incômodo.
Solto o ar devagar, sem perceber que o estava prendendo.
Bom.
Ela precisa entender quem manda aqui.
Precisa aprender rápido.
Este não é um lugar para orgulho inútil.
Ainda assim…
Enquanto observo a porta fechada, uma certeza se forma com clareza desconfortável:
Lívia não será apenas um acordo.
Não será apenas uma assinatura.
Nem apenas uma obrigação herdada de dívidas que não são minhas.
Ela será um problema.
Um risco.
E riscos… eu sempre eliminei antes que crescessem.
Mas, pela primeira vez em muito tempo,
não tenho certeza se quero eliminar este.