Davi
Nossa noite foi bem proveitosa, já que conseguimos autorização do Abutre para começarmos o trabalho com aqueles computadores velhos e espero que em pouco tempo a gente consiga ganhar a confiança dele e assim sigamos com a nossa missão.
Mesmo tendo sucesso no nosso dia, ainda me sentia m*l. Eu estava em uma espécie de ressaca moral. Não queria ter beijado aquela mulher e muito menos queria ter me sentido tão atraído pela mulher do chefe como eu me senti.
De qualquer forma, ficar olhando para o teto dessa espelunca enquanto me afundo nesse colchão duro, não iria resolver nada, por isso, dei um jeito de me levantar e acordar o Raul. A gente tinha que estar cedo para começar o trabalho na Lan House.
Apesar do cansaço da noite anterior, antes das oito horas já estávamos prontos, à espera da filha do Abutre. Eu, em particular, estava muito animado. Essa missão poderia ser um divisor de águas na minha carreira e quem sabe até garantir a minha aposentadoria com muitas honras.
Não que eu quisesse parar. Eu precisava dessa vida agitada e perigosa que o serviço de inteligência da polícia me proporcionava, mas ser reconhecido era algo importante e aumentava ainda mais o meu status e de certa forma, inflava o meu ego, que confesso ser bastante exigente.
Porém, toda a minha animação acabou rápido demais. Já estávamos há mais de uma hora esperando a filha do Abutre e logo percebi que essa missão ia ser bastante tediosa, pois provavelmente eu iria ter que lidar com alguma patricinha de favela, que se acha importante demais e no fundo, pelo menos aqui na Favela da Nave, ela é, já que o pai dela pode fazer o que quiser aqui, pelo menos por enquanto.
Já estávamos cansados de esperar e até o Ronan parecia um pouco impaciente e com pena da gente e por isso, mandou a gente tomar um café enquanto esperávamos.
Depois de alguns minutos que estávamos tomando aquele café que foi a minha primeira grande surpresa do dia, já que aquela espelunca não parecia ter nada de bom, mas me serviu o melhor café e pão de queijo que eu já comi em toda a minha vida, me levando a um breve momento de satisfação, vi que o Ronan nos chamava para nos apresentar a nossa “patroa”.
Eu e o Raul fomos atrás do Ronan para enfim conhecer a garota que iria nos orientar e então eu tive a minha segunda surpresa do dia, mas infelizmente, não tão agradável como a primeira.
— Dona Alice, esses são os técnicos de informática. Eles estão aqui para fazerem o que você quiser. Vou deixar eles por sua conta. O seu pai já autorizou a presença deles, mas qualquer gracinha você me avisa que eu dou um jeito de resolver — disse o Ronan com certo tom ameaçador para mim e o Raul.
O Raul correu para se apresentar, com o melhor sorriso que tinha, sendo gentil e prestativo e eu fiquei em silêncio esperando toda a sua cordialidade acabar, mas quando chegou a minha vez de falar algo, tropecei nas minhas palavras.
— Achei que você era mulher do Abutre.
—E que diferença isso faz? —Perguntou a loirinha com certa irritação.
— É que ontem eu acho que... que fui um pouco rude.
—Não importa. Melhor ter sido rude do que bajulador. Não suporto isso.
— De qualquer forma, devo desculpas. Não foi uma boa forma de começarmos a nossa relação, aliás, nossa parceria.
— Tudo bem. Prazer, Alice — disse enquanto estendia a mão para um cumprimento.
Eu estendi a minha mão e a cumprimentei e logo ela mudou de assunto e começou a falar com entusiasmo dos seus planos para aquele lugar.
O olhar dela brilhava quando dizia que queria transformar aquele lugar em um ponto de referência de estudo, onde as crianças da comunidade poderiam ter acesso à informação, cultura e lazer e começou a falar igual a uma tagarela de tudo que ela planejava fazer ali.
Eu prestava atenção em tudo, mas de forma superficial. Eu não entendia o motivo de estar tão incomodado e constrangido na frente daquela mulher. Ela me atraía, mas isso era algo normal, já que era uma mulher muito bonita. Acho que deve ser o fato dela ser proibida para mim. De qualquer forma, vou me acostumar.
Eu percebi que se não começasse a tomar nota de tudo o que ela pedia eu ia ficar completamente perdido, já que ela queria colocar o mundo dentro de uma sala. Eu ia ter que analisar e filtrar.
O Raul estava separando os computadores quando o Ronan chegou nos chamando para o almoço. Eu estava sem fome e a Alice parecia estar empolgada demais para parar.
Ela pediu ao Ronan a chave do subsolo e nos liberou para o almoço. Aquela espelunca tinha uma espécie de porão grande e ela iria usar como espaço de atividades de esportes e oficinas lúdicas. Sinceramente eu queria ficar ao lado dela e ouvir tudo o que ela tinha para falar, mas sabia que não devia e por isso, acompanhei o Raul e o Ronan para o bar.
Enquanto a gente almoçava, um homem chegou e foi até a nossa mesa para falar com o Ronan.
— Me falaram que ela está aqui — disse o homem com tom sério.
— Carlos, não procura confusão para a sua vida. Você tem mulher e o Abutre...
— Eu e a Alice somos amigos, assim como o Abutre, que sempre confiou a Alice a mim — interrompeu o homem.
— Você sabe o que faz. A Alice está no porão. Depois não diga que eu não avisei.
O homem deixou o bar e foi em direção ao lugar que a minha nova patroa estava. Não sei se era o meu instinto de policial, mas algo me dizia que aquele homem não estava de boa intenção.
— Quem é ele? — Perguntei para o Ronan, que agora mostrava um semblante fechado.
— Ele é o ex-namorado da Alice, o único homem que teve coragem e conseguiu a autorização do Abutre para namorar a filha, mas eles terminaram porque ele queria fazer a filha do patrão de cachorra e ela é moça direita. Ele tem uma fiel, mas de uns tempos para cá fica andando atrás da patroa. Se ele fizer alguma merda, o Abutre me mata, já que a garota está na minha área.
— Eu já terminei o meu almoço. Quer que eu vá para lá? Não vou me meter, mas tenho que verificar algumas tomadas e parte elétrica no porão.
O Ronan abriu um discreto sorriso e assentiu. O Raul ainda estava almoçando e por isso eu fui sozinho.
Ser um policial me ensinou a entrar e sair dos lugares sem ser notado e assim eu fiz. Caminhei até a entrada do porão e desci as escadas sem que percebessem a minha presença.
Olhei rápido e a cena que eu vi me constrangeu. A Alice e o cara estavam se beijando, de uma forma bem explícita até. O cara estava com as mãos cravadas em um dos s***s dela e a outra comprimindo o corpo dela no seu. Apesar de não gostar da cena, já que minutos atrás estava desejando a loirinha, decidi que ia sair e deixar os dois, porém, fui alertado pelo gemido choroso de descontentamento dela.
— Droga, seu e******o! Me solta! Vou mandar o meu pai te matar.
— Cala a boca, v***a. Eu sei que você me quer. Você é minha e eu vou resolver o nosso problema agora. Já disse que não precisa ter medo.
— Eu não estou com medo e sim com nojo! Me solta agora mesmo porque senão eu vou gritar!
— Você sabe que ninguém pode te ouvir aqui e mesmo que ouçam, não vão ter peito para me enfrentar. Agora fica quieta e aproveite a oportunidade que eu estou te dando. Vou te fazer minha mulher.
O desespero e o lamento da garota foram ficando maiores e se eu tinha dúvidas se aquilo era apenas um desentendimento ou um charme dela, assim que ela começou a usar toda a sua força para se livrar daquelas carícias, entendi o que estava prestes a acontecer e mesmo que o meu disfarce fique em perigo e eu seja expulso do morro, não deixaria que aquilo continuasse por mais nenhum segundo.
— Voltei, Dona Alice. A senhora falou que era para a gente não demorar senão ia falar com o seu pai. O Raul já está chegando com o Ronan. Atrapalho? — Falei tentando disfarçar a minha intromissão.
O cara me olhou de cima a baixo e falou para a garota desesperada em sua frente:
— Eu volto em uma hora mais tranquila, minha gostosa. Não se preocupe que não vou deixar você passar vontade — beijando levemente o seu lábio em seguida.
Depois, ele olhou para mim e fez um gesto de silêncio, colocando o indicador na frente de sua boca e saiu.
A garota estava toda bagunçada, com botões de sua blusa abertos e a saia mais levantada do que devia, mostrando mais do que era para mostrar.
Eu queria consolá-la, mas não sem antes meter uma bala na cabeça daquele o****o. Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, ela tomou um pouco de ar e disse:
— Por favor, não conte nada do que você viu aqui para ninguém. Aliás, não aconteceu nada para ser contado.
— Desculpa, não queria ter incomodado, mas parecia que ele ia te obrigar a algo que não queria fazer — falei confuso, mas não menos irritado com a reação dela.
— Aquele maldito ia. Ele acha que por ter me namorado se tornou o meu dono. Eu estou com nojo de mim mesma por um dia ter gostado daquele i****a.
— Eu não quero me meter, mas você sabe que basta você pedir e o seu pai some com ele daqui, na verdade, do planeta.
— Eu sei e é por isso mesmo que eu não quero que diga nada. Você não me conhece, mas posso te garantir que eu nunca mais conseguiria dormir na vida se alguém morresse por minha causa, mesmo sendo um i****a como o Carlos. Além disso, ele é poderoso, não mais que o meu pai, mas com certeza é o único que tem forças para enfrentar ele.
— Então vai deixar que ele cumpra com a promessa dele? — disse incrédulo para a mulher que ainda nem havia se recuperado do ataque e estava defendendo o seu agressor.
— A culpa foi minha. Não devia ter ficado sozinha com ele. Sei das intenções dele, mas nunca imaginei que ele fosse chegar tão longe. Por favor, apenas te peço que não me deixe sozinha e não conte nada para ninguém. Vou falar com o meu pai que ele está me importunando, mas não quero sangue rolando por minha causa.
Ela começou a se ajeitar e a única coisa que pude fazer vendo aquela cena deplorável foi concordar, mas eu garanto, que enquanto eu estiver aqui no morro aquele i****a não tocará mais nela.