Você?

976 Words
Alice Quando cheguei em casa não perdi tempo e fui deitar. Eu precisava dormir um pouco e estar bem descansada, pois teria muito trabalho no outro dia com o início do meu projeto social. Eu não sou nenhuma princesa mimada que não sabe da realidade que vive. O meu pai é um homem maravilhoso, mas sei que todo o luxo e boa vida que eu tenho, mesmo morando em um local tão pobre como a Favela da Nave vem do tráfico. Para piorar a história, meu pai não é um simples traficante, mas sim o dono do morro, o homem mais perigoso e temido da região. Apesar de tudo, de ter uma casa extremamente luxuosa, pelo menos pelo lado de dentro, já que pelo lado de fora ela é bem discreta, de ter carros caros, roupas de marca e tudo mais que o dinheiro pode comprar, não me sinto feliz. Acredito que saber que isso tudo vai acabar em algum momento e que o preço dessa vida é em breve ver o meu pai preso ou morto, faz com que eu não me importe com o dinheiro e o glamour da vida do crime. Eu queria poder estudar e mudar o mundo, mas sei que é ingenuidade da minha parte, já que tenho que me proteger, pois se caio na mão de algum policial ou rival do meu pai, automaticamente coloco ele em perigo. Mas não quero ficar reclamando da vida. O meu pai tem feito o melhor que pode. Eu comecei a fazer uma faculdade de Letras à distância, o que me permite estudar. Eu tenho 21 anos e ao final do ano vou me formar e poderei fazer alguma coisa de útil e darei aula para as crianças da comunidade. Enquanto eu não me formo, tive a autorização do meu pai para reformar a antiga Lan House e transformá-la em um centro de estudos para as crianças. Os computadores de lá estão muito velhos, mas a gente contratou dois técnicos que vão coloca-los funcionando. Depois de uma boa reforma, tenho certeza que aquela espelunca vai se tornar um lugar digno para o início do meu sonho. Não quero fazer caridade, como se eu fosse superior e tivesse migalhas para oferecer para aquelas famílias. Na verdade, eu preciso recompensar de alguma forma, todo o m*l que o meu pai faz, pois sei que além de ser c***l com seus inimigos, já contribuiu para a ruína de muitos jovens que entraram no mundo das drogas. Enquanto estava perdida em meus pensamentos, escutei o barulho que a Helô fez ao chegar. Com toda a certeza ela iria querer conversar sobre a sua aventura amorosa e me questionar do porquê eu ter vindo embora sozinha, por isso, assim que ela abriu a porta, fingi que estava dormindo. Eu não queria falar sobre o Carlos, mas isso não me impediu de pensar nele a noite toda. Eu não sei ao certo se eu ainda o amo, mas ser rejeitada e ignorada mexeu muito com a minha autoestima. Eu era tão nova quando a gente começou a namorar e se ele tivesse ido devagar e não me pressionado tanto, tenho certeza que estaria com ele até hoje. Apesar de ter agido como um completo babaca, ainda consigo me lembrar dos bons momentos que passamos juntos e confesso que sinto falta de dar uns beijos. Ser filha do “chefe” não é fácil, já que não é qualquer um que se aventura em dar em cima de mim. Eu rolei na cama de um lado para o outro e quando a noite já não estava mais tão escura, dando sinais de que o dia se aproximava, consegui dormir. Às sete e meia o meu telefone tocou, mas eu ignorei e voltei a dormir. Apesar de ter marcado às oito horas com os técnicos de informática, precisava de mais cinco minutos e sei que esses minutinhos não iriam me atrapalhar. Quando abri os meus olhos, senti o calor do dia e tive a certeza de que eu dormi muito mais que cinco minutos. Olhei no telefone e vi que já era nove horas, dei um pulo da cama e corri para o chuveiro. Em quinze minutos eu já estava pronta e saindo de casa. Eu estava morrendo de vergonha, detestava me atrasar, ainda mais tanto tempo assim. Eu sei que não iriam brigar comigo, pois sou a filha do Abutre, mas não gosto de ser desrespeitosa com ninguém. Assim que cheguei na antiga Lan House, encontrei o Ronan me esperando. — Me desculpa. Eu perdi a hora e... —Não esquenta, patroa — disse o Ronan me interrompendo. Eu sabia que era perda de tempo ficar me explicando, pois ele não iria se importar, por isso, fui logo ao assunto e perguntei: — Onde estão os técnicos? Desistiram por causa da minha demora? O Ronan deu uma gargalhada, como se eu tivesse acabado de falar uma besteira e falou: — Eles não são loucos de desistirem de você. Nem se eles quisessem. Como a patroa demorou, por seus motivos, óbvio, mandei eles irem tomar um café lá no bar. Marca um dez aí que eu vou chamar eles. Enquanto o Ronan foi chamar os técnicos de informática que iriam dar uma vida ao lugar, comecei a imaginar como aquele lugar iria ficar lindo. Eu queria mostrar para aquelas crianças que havia muito mais além dos muros daquela favela, sim, muros. Com o tempo e com a desculpa de que era para proteger a mata e a natureza, nós fomos encurralados atrás de muros, nos separando da sociedade, como se os moradores daqui fossem animais perigosos. Os meus pensamentos são interrompidos com a chegada do Ronan. Ele estava acompanhado de dois homens e logo os apresentou como técnicos de informática. O problema era que não era a primeira vez que nos víamos.
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