A Calmaria - pt 1

1391 Words
Meu primeiro dia de serviço veio e se foi, e o segundo e o terceiro.Quando vi, já era sábado. O dia do luau E que dia foi esse!! Mas acho que estou colocando o carro na frente dos bois. Muita coisa aconteceu nesse ínterim. QUINTA;     O serviço de estoquista era exatamente o que o Léo havia me preparado. Eu chegava,batia ponto e rendia o estoquista da manhã. Subia pro segundo andar e começava a organizar e reorganizar as prateleiras.      No começo fiquei meio perdido, o lugar ocupava meio quarteirão! Cada prateleira tinha uns bons 12 metros de comprimento e pelo menos 4 de altura. No primeiro dia o estoquista da manhã, Félix,  dobrou e ficou até o fim do expediente me ensinando. O cara tinha uns 30 anos já, pai de família. Parecia um pedreiro, cabelo raspado, barba por fazer e m*l encarado, mas era só fachada, o cara era gente fina e me explicou direitinho como as coisas funcionavam ali. - Pedro,você é tipo Deus aqui entende?- eu ergui as sobrancelhas, estávamos empilhando umas caixas na prateleira mais alta, ele segurando a escada e eu. Cima dela- Tipo...a gente sabe de tudo que acontece nessa loja, os vendedores, as meninas do crédito, até o gerente, eles vem aqui quando precisam desabafar, contar algum segredo...ou fazer alguma doidera. Ele piscou pra mim sabido. - E a gente, eventualmente, descobre tudo!!Quando eles se acostumam com nossa presença aqui, parece que ficamos invisíveis. Já vi e ouvi cada coisa aqui que você nem faz ideia. - Tipo o que? Félix fechou a cara com uma negativa. - Um dos motivos deles não ligarem pra mim é por que sabem que não vou espalhar o que vi. - encerrou ele. - Pra ninguém. Descubra seus próprios podres e guarde pra você. (Pô, me atiçou a curiosidade e me deixou a ver navios.)      A loja tinha muitos funcionários.Se fosse contar todos os setores - vendas, caixa, limpeza, RH - dava mais de 50 pessoas. Uma parte do segundo andar abrigava o vestiário e a cozinha,de modo que acabei conhecendo quase todo mundo logo no primeiro dia. Existiam duas escadas que subiam pro segundo andar, uma em cada estremo dos fundos da loja,uma dava diretamente no estoque gigante, essa era frequentada pelos vendedores e o pessoal da limpeza, a outra "caía" direto na cozinha e atravessando uma porta no vestiário/banheiros. No fundo do vestiário tinha outra porta ligando a outra ponta do estoque. - Temos que ter duas saídas pro caso de um acidente ou incêndio né?- Félix havia me explicado.     O pessoal das vendas eu via direto lá no estoque, a maioria do povo era jovem, salvo algumas excessões de gente que tava lá "uma cota". Tinha gente lá com 15 anos de casa!      Uma dessas pessoas era a Marlúcia, uma mulher já com seus 40 e poucos anos. Nos demos bem de cara, logo no primeiro dia ela me afastou do Félix e me apresentou pra galera das vendas. Ela veio do nordeste há 13 anos e trabalhava lá desde sempre. Loira falsa e desbocada, me levou pro refeitório e me apresentou pra alguns colegas dela. - Gente de Deus!!- ela gritou entrando no refeitório me segurando pelo braço- o "Seu" Oswaldo atendeu minhas preces!!Olha o anjo que ele trouxe pra loja dele!! "Seu" Oswaldo Santinni era o dono da rede Harara,morava em São Paulo pelo que falaram, e quase nunca ia pra lá.     O pessoal era gente fina e logo me acolheu. Nada como a simpatia de um mineiro pra animar o ambiente. A Mari, a mina da facul que o Serginho tinha mencionado, também era muito gente fina. Baixinha, morena e até um pouco gostosa, era branquinha e espivetada. Ela era do caixa,de modo que só a conheci no fim do meu primeiro dia, quando fui pra cozinha beber uma água. O pessoal do caixa e do RH não ficava circulando pelos corredores do estoque,eles pegavam sempre a escada que já dava acesso à cozinha. SEXTA; No meu segundo dia eu me perdi no estoque. Entenda bem, o lugar parece um labirinto!! São prateleiras e mais prateleiras fazendo um Zig e Zag interminável. Entre cada prateleira existe um vão de 1 metro. Eu estava pegando atalhos pelos vãos quando me dei conta que não sabia mais onde estava. Ouvia de longe pessoas conversando, sai andando a esmo até o fim da prateleira. Na ponta de cada prateleira ficava sua numeração. ( Caraca! 23? ) Havia pulado 6 prateleiras usando esses atalhos confusos. Me obriguei a voltar pelo caminho mais longo e já estava virando a primeira "esquina" quando ouvi um: "psiuu!" por trás de mim. Me virei mas não havia ninguém. (??) Fiquei um tempo parado esperando algum movimento pelo corredor, mas nada, ao me virar pra frente me deparei com um garoto parado e sorrindo a menos de 2 passos de mim.Dei um passo pra trás e um grito involuntário. Ele era no mínimo estranho. Cabelo preto que ia até os ombros e muito bronzeado, devia ter a minha idade. Eu ainda não conhecia todos os funcionários, mas como ele estava segurando duas caixas de sapato em uma das mãos e vestia a camisa vermelha da loja, deduzi que ele era um dos vendedores. Eu ia cumprimenta lo, mas ele passou apressado por mim,me olhando de um jeito estranho. Deu um tapinha na minha b***a com a mão livre e disse: - Sonhando acordado aí Galego? Olhei pra trás surpreso mas ele já havia se perdido pelos corredores. Eu, fiquei onde estava por uns segundos e depois segui o caminho oposto ao dele. Galego... ( Vamos Galego,comece por essa regatinha) Me vi pensando no Léo. Salvo no no meu primeiro dia,que o vi de relance conversando com uma mina no caixa, eu não o havia visto mais. Ele não subiu no estoque nenhuma vez, não o vi no refeitório e nem no vestiário. Os caras costumavam dar um cochilo no vestiário na hora de almoço, e eu não havia visto ele lá também. *** Naquele mesmo dia encontrei a Mari e uns vendedores fazendo o o horário de almoço no refeitório. - Ei Pedro!!- ela me cumprimentou animada vindo na minha direção e me dando um beijo na bochecha- E aí? Se acostumando ainda ao nosso mundo? - Haha,um pouquinho sim,- admiti sem graça- Me perdi mais cedo no estoque. Ela riu com compreensão - Normal Pedro,eu no começo me perdia sempre.- ela segurou meu braço com delicadeza e apalpou meu bíceps - se bem que você vai saber se virar se ficar perdido por aí de novo. Ela riu mostrando q estava brincando( em partes) e eu ri junto. Era meio descarado o jeito que ela me olhava. Sempre que me via ela arrumava um jeito de me beijar ou me apalpar. Ela me deu outro beijo na bochecha e foi voltando para a mesa. - Qualquer coisa é só me chamar. - Ei...Mari?- me vi chamando ela,a pergunta na ponta da língua mas se recusando a sair.Ela me olhou curiosa e adorei uma postura indiferente.- Aquele cara que me entrevistou...Leonardo eu acho...ele não tá na loja hoje? Ela levantou uma sobrancelha sem entender. - O Léo? Tá sim,ele folga só nos domingos.Por que? - Por nada, é que eu não vi ele aqui em cima ainda. - Ah... - Ela sorriu entendendo,se aproximou de mim e segurou meu bíceps novamente,falando baixo - Ele almoça fora todo dia,faz 2 horas de almoço,acredita?E ele nunca sobe no estoque. (Como assim?) - Não?Mas e quando ele precisa pegar alguma mercadoria? -Ah...Mari deu uma risada conspiratória- os meninos dele sobem e pegam pra ele? - Meninos dele? Ela olhou ao redor preocupada. - Fala baixo Pedro!A gente não chama eles assim em voz alta! É o Pablo e o Davi. Os nomes não significavam nada pra mim.Ainda tinha muita gente na loja que eu não conhecia. - São 2 vendedores.Eles alternam quando o Léo precisa subir e fazem o serviço pra ele.- ela abaixou ainda mais a voz e confidenciou- falam que eles até passam vendas pro nome do Léo. - Mas...por quê? - Eu que vou saber? - ela me deu mais um beijo e finalizou- boca fechada hein? Concordei com ela meio sem reação e ela voltou pra mesa dela. (Quem diabos é você Leonardo?) Comecei a descobrir no dia seguinte.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD