- Por que não me disse que seu irmão era um gato? – Sia reclamou magoada – Put#a merd@! Eu tô com a calcinha molhada.
Eduarda se engasgou com a água, diante do comentário da amiga. As duas dividiam um quarto na república há pouco mais que três meses, mas já tinham muita liberdade uma com a outra.
Duda ficou surpresa porque ainda não tinha ouvido a garota falar daquela maneira de nenhum rapaz. Ela geralmente via defeito em todos. Ninguém parecia estar a altura de suas exigências.
Limpando a boca com um lenço de papel, Eduarda abriu a geladeira, se agachando diante dela em busca de verduras. Não tinha nada la dentro, apenas garrafas de água lacradas e algumas cervejas.
Fechando a geladeira, ela abriu os armários, tirando dele alguns enlatados e temperos. O semblante estava sério, mas Sia não parecia ter notado isso. Se tinha notado, então não se importou.
- Só me diz que ele não tem namorada. Se tiver, fod#a-se. Não me importo em ser a segunda, ou a terceira, contanto que eu consiga um espaço na cama dele.
- Sia – A voz da garota saiu em um tom explosivo – Lian não é assim.
- Não é assim como? Acha que só porque ele é seu irmão não fod#e garotas?
Eduarda não respondeu aquela pergunta. Apertando o pote de azeitonas, ela parecia uma criança descobrindo que cegonhas não transportavam bebês.
- Talvez seja melhor tomar cuidado com a língua - Eduarda exigiu ríspida e Sia por um momento se perguntou se a garota estava cogitando quebrar a cabeça dela com o pote de azeitonas.
- Nossa! Não sabia que era dessas irmãs ciumentas – A garota deu de ombros. Lian entrou na cozinha e Eduarda se voltou na direção do balcão, evitando fitar o rapaz. Um rubor desconfortável tingindo seu rosto.
Era óbvio que Lian tinha seus relacionamentos, mas pensar naquilo lhe causou enjoou e raiva. Ela preferia pensar que ele não precisava de s*x#o. Que não era um saco de esperma precisando esvaziar, como os idiot@s que conhecia.
"Não" - Definitivamente Lian era diferente. Ele não era como os babac@s da faculdade que faziam de tudo para levarem as garotas pra cama, para depois ficarem se vangloriando. Ela o conhecia o suficiente para não aceitar que Sia falasse dele como se fosse qualquer um.
Jamais conseguiria aceitar que Lian fosse capaz de usar uma garota apenas para se satisfazer, ou pior, para inflar seu ego, assim com Jacson fizera com ela.
- Tá tudo bem aqui? – Lian retirou o pote de azeitonas da mão dela.
Lembrar de Jacson foi algo tão desagradável que ela se viu engolindo o desejo de chorar. Ela duvidava que um dia fosse conseguir se perdoar e se recuperar daquele desastre. E pensar que ela o tinha comparado a Lian. A raiva que sentia era tamanha que seu corpo parecia doente. Doente do cretin#o que tinha tirado sua virgindad#e e contado para todos que uma boneca inflavel era mais divertida do que ela, só porque ela não se submeteu a fazer o que ele queria.
- Sim – A garota tentou recuperar o controle. Não queria que Sia visse o quanto estava abalada. Sua amiga era uma boa companheira de quarto, mas gostava de falar e ela detestava quando as pessoas falavam dela.
- Eu vou descer para comprar alguma coisa – Lian avisou antes de sair.
- Minha nossa senhora das calcinhas solitárias – A garota sussurrou se abanando – Ele é alto, sarado, lindo, gostoso e ainda é educado.
Eduarda empurrou para longe qualquer pensamento sobre Lian e outra garota, fechando a gaveta com mais força do que gostaria. Não podia condenar Sia por achar o irmão bonito. Isso era um fato incontestável e não era apenas bonito, ele possuia um charme difícil de descrever.
- Qual é o defeito dele?
- Nenhum.
- Ninguém é perfeito amiga – Sia garantiu – Algum defeito ele tem que ter. Não me diga que ele é gay?
- Não – Duda negou prontamente.
- Ah, eu tô achando que ele é sim. Os gays são muito cuidadosos com a aparência. Malham muito e são charmosos.
- Isso não tem nada a ver. Só está dizendo isso porque ele não ficou babando em cima de você – Eduarda protestou.
- Então qual o tipo dele?
- Eu não sei – A garota sentiu a irritação novamente montar em suas costas. Por ela, Lian não namoraria ninguém.
- É ele que você disse que é médico, não é mesmo? - Eduarda concordou com a cabeça desejando mudar de assunto - Então é isso. Ele com certeza passa o rodo no hospital.
- Lian não é esse tipo de pessoa. Não adianta eu tentar te explicar. Nao vai conseguir entender.
- Acorda Duda, mulher nenhuma quer respeito em cima da cama, ela quer pressão. Muita pressão - Um sorriso bobo brotou nos lábios da garota - E com certeza seu irmãozinho sabe fazer um bom trabalho na cama. Não preciso do CPF dele pra saber disso.
- Já chega desse assunto - Duda bateu a panela no balcão. Aquelas palavras tinham causado um efeito estranho na garota. Um aperto diferente entre as pernas. Uma excitaçã#o que a deixou desconfortável.
- Você tá com ciumes do seu irmão? - Aquela pergunta foi como uma chicotada em suas costas. Lian não era seu irmão de verdade, mas dizer isso a Sia parecia uma traição com ele.
- Fala sério. Deveria apoiar as amigas. Eu seria uma ótima cunhada - A garota choramingou.
- Você quer ser o que? - Eduarda pegou o pote de azetonas e enfiou a ponta da faca entre o pote e a tampa.
- É só uma brincadeira. Não precisa desse bico todo - Bufou Sia.
- Você não tinha me dito que era rica – Sia abriu a geladeira e pegando uma lata de cerveja, a abriu, em seguida deu um gole generoso e se sentou na cadeira – Agora tá explicado, porque é tão mimada.
- Eu não sou mimada – Duda colocou o macarrão na panela de água quente que começava a borbulhar – É você quem não arruma a própria cama.
- Não vamos lavar roupa suja agora, né – Sia olhou para a amiga com um sorriso relaxado – Vamos voltar a falar sobre o que interessa aqui, seu irmão gostoso. Convida ele pra sair com a gente hoje. Aposto que ele vai se divertir.
- Ele não gosta de festas - Eduarda bufou diante da insistência da garota.
- Ele não gosta de festas, ou você não quer que ele vá?
- Eu não quero que ele vá - A garota respondeu irritada.
- Vixi! Ele é assim também? ciumento?
- Bastante - Eduarda concordou satisfeita em colocar um ponto final naquele assunto.
- Caramba! – A garota pulou da cadeira com os olhos grudados no celular.
- O que foi?
- O Tomás ta aqui em Nova York. Eu tenho que ir. Eu te encontro lá na festa.
- Eu não sei se vou.
- Não ouse – Sia apontou o dedo no nariz da garota – Se faltar hoje, eu nunca mais olho na sua cara.
- Sia! – Eduarda pediu em um choramingo.
- Me fez passar o dia todo vigiando a entrada desse prédio. Não vou aceitar um bolo agora e vê se faz o favor de levar o gato do seu irmão. As meninas vão pirar.
- Eu tô sem roupas.
- Vai desse jeito. Eu vou dar um jeito de levar algo pra você vestir – Sia apontou o dedo novamente na direção da garota, em sinal de aviso e ao virar-se, esbarrou em Lian que entrava na cozinha com duas sacolas.
- Foi um prazer, Lian – Ela sorriu e ficando na ponta dos pés, deu um beijo em seu rosto – Vai ter uma festinha hoje. Vou estar te esperando lá – Ela falou e correu pra porta, antes que Eduarda a engolisse.
- Você gostou dela? – Eduarda perguntou assim que a porta se fechou.
- Oi? – Lian olhou para a garota sem entender o sentido da pergunta.
- Ela gostou de você.
Lian não precisou fazer muito esforço para ver o desconforto e a ansiedade de Eduarda ao dizer aquilo. Ele colocou as duas sacolas na pia. Não podia culpa-la. Eduarda era jovem demais para saber camuflar suas emoções e ele experiente demais para não as notar.
Ele desligou o fogo e a garota quase deu um pulo.
- Minha nossa! Será que cozinhou muito?
- Espera – Ele pediu calmo, retirando do armário o escorredor de massa, em seguida provou o macarrão – Está ótimo – Garantiu e ela suspirou aliviada.
- Estou feliz que estamos cozinhando juntos – Ela sorriu pegando o tomate e a faca. Ma#l tinha começado a cortar a verdura e soltou um gemido, ferindo de leve o canto do dedo.
- Drog@! – Bufou inconformada, olhando para a pequena poça de sangue que se formava sobre o corte.
- Deixa eu ver – Lia pediu e ela se virou para ele, para dizer que não era nada.
Ele a ergueu pela cintura, a sentando sobre o balcão de mármore, como costumava fazer quando ela ainda era uma garotinha.
- Não foi nada – Ela garantiu levando o dedo machucado a boca dele, esperando que ele estancasse o pequeno sangramento com a boca, como costumava fazer.
Lian capturou o dedo dela com os lábios, sentindo o gosto metálico de seu sangue e a resposta foi imediata. Seu corpo respondeu de um jeito que não deveria. Mas já era tarde, o dedo dela já estava em sua boca, então ele apenas o chupou, como costumava fazer quando ela era menina.
Naquela época não existia nenhuma malícia e ele queria que continuasse assim, contudo seu corpo se recusava a aceitar a aproximação dela da forma que ele queria.
Ele olhou para ela. Eduarda estava longe de ser uma menina. A boca delicada estava entreaberta, enquanto ela parecia não estar respirando. Sentir a pele dela em sua boca foi abrasador. Foi tão gostoso que fingir indiferença exigiu algum esforço. Aquela não era a primeira vez em que cruzavam a linha do aceitável e isso era algo que o preocupava.
Quando ela tinha completado quinze anos, tinha roubado um selinho dos lábios dele e sorriu de sua cara dizendo que nenhum garoto roubaria mais o seu primeiro beijo, pois ela tinha dado a ele. Na época, ele não a repreendeu, mas assustou-se com a brincadeira.