Capítulo III

1189 Words
Lian chegou a Nova York no voo das cinco da tarde. A primeira coisa que lhe veio a cabeça foi Eduarda, ele tinha prometido a ela que iria vê-la, mas não conseguia ver uma forma de cumprir essa promessa. Estava atarefado, com muitos problemas, ou talvez só estivesse tentando encontrar uma forma de evita-la. Não a queria perto. Não mais. Ele agora representava um perigo para quem quer que estivesse perto. Quem se envolve na máfia sabe que está sempre com a cabeça sob a mira de uma arma e era por isso que ele saíra da casa dos pais e evitava ver Eduarda. Essa, nem de longe era a vida que tinha planejado pra ele, mas com a morte de seu avô Zimmermann, alguém precisaria ocupar o lugar dele como capo da máfia de Nova York e sua avó, a segunda na linha de sucessão, tinha sido bem clara quando disse que não aceitaria um Müller nesse lugar. Sua avó já tinha eliminado Adam, seu primo. Não dava para brincar com ela e não podia permitir que seus primos descobrissem que ela estava por trás de tudo. Haviam segredos de família que para o bem de todos deveriam morrer enterrados, ou sua própria família se autodestruiria. Ken era o filho mais velho de seu avô. Supostamente deveria ter sido ele a assumir a cadeira de capo e talvez até tivesse sido preparado para isso. O primo era um típico político que sabia como lavar dinheiro, mas lavar dinheiro era bem diferente de estar no topo da máfia. Ken tinha esposa e um casal de filho e quando o momento de assumir a responsabilidade chegou, recusou-se terminantemente a se envolver com o assunto. Brian e Rodolfo, ambos também tinham famílias, filhos... Só tinha restado ele. Ele era o único largado que nem mesmo namorada tinha. É claro, enfiado dentro do hospital, no ritmo em que levava a vida, nunca teve nem cabeça para assumir compromissos. Como sempre, as coisas tinham sobrado pra ele. Justo pra ele que abominava aquele tipo de vida. Lian chegou a entrada do prédio luxuoso de seu apartamento em Manhattan, acompanhado por três seguranças. A verdade era que já tinha se acostumado com aquilo e quando entrava em qualquer lugar, sem que ele próprio percebesse, se pegava observando tudo a sua volta, procurando silenciosamente por algo ou alguém suspeito. - Lian – O corpo dele enrijeceu. Conhecia aquela voz. Voltando-se na direção da recepção, ele viu Eduarda e ela pula em seus braços, atracando suas pernas em seus quadris, como uma criança levada e travessa. Ela apertou os braços em torno do pescoço dele e deu um beijo em seu rosto, com um sorriso grande e preenchido – Desta vez, você não vai escapar de mim – Ela disse determinada. Os seguranças dele a conheciam e logo se afastaram quando ele fez sinal. Olhando para o lado, Lian viu uma garota da mesma faixa etária de Eduarda, de pé ao lado deles. A garota usava calça jeans ajustada ao corpo, uma blusa azul colada ao corpo, brincos e estava maquiada. Era sem dúvidas uma moça bonita. - Ah, ela é a Sia, minha colega de apartamento. - Certo. Será que você pode descer para eu cumprimentar sua amiga? – Ele perguntou com os braços ainda firmes na cintura dela, mas Eduarda apenas balançou a cabeça em negativa, o abraçando com mais força. - Olá. Lian – Ele apertou a mão da moça com Eduarda ainda grudada em sua cintura. A amiga de Eduarda deu um sorriso tímido e voltou a se afastar. - Vai me fazer caminhar assim pelo prédio? – Ele perguntou novamente a fitando com o semblante sério e ela voltou a sorrir travessa. - Você está de castigo – Ela disse e ele tratou de seguir para o elevador. Eduarda era impulsiva e jovem demais. Ela estava prestes a completar dezoito anos e ainda se comportava como uma adolescente. Para seu azar, entrou no elevador com duas idosas que o olharam com cara de reprovação. A amiga de Eduarda apertou os lábios segurando um riso. - Fecha os olhos – Ela cochichou no meu ouvido dele, mas Lian apenas ignorou o pedido, a situação já estava constrangedora demais. Abrindo a porta do apartamento, ela pulou do colo dele, correndo para dentro, desaparecendo em direção a cozinha. - Fique à vontade – Ele disse a garota que sustentava seu olhar contra o dele, de um jeito atrevido e demorado. Lian sabia exatamente o que aquele olhar significava. Já tinha trinta e quatro anos, mas as garotas daquela idade, costumavam fazer algumas loucuras para chamar sua atenção. Sempre fora assim, desde que estava na faculdade. Para fins de conversa, ele fingiu não notar. Isso costumava funcionar. Então seguiu para o quarto. Ele nunca tinha saído com uma amiga de Eduarda e jamais faria isso. Por que? Ele não sabia exatamente, também nunca tinha parado para pensar naquilo, mas definitivamente era algo que não faria. Eduarda era como uma irmã, mas esse não era o motivo, pois quando sua irmã de sangue era viva, ele costumava sair com as amigas dela e não via qualquer problema nisso. Na época era bem divertido e até ficava ansioso para que ela trouxesse amigas novas, mas com Eduarda as coisas não funcionam da mesma maneira. Ela era muito apegada e não sabia como absorveria a situação, nem tinha interesse em descobrir. Entrando no quarto, ele olhou para o relógio em meu pulso. Tenha o restante da tarde livre, supostamente para descansar. Abrindo os botões da camisa e folgando os punhos, ele retirou o relógio e o cinto. Haviam sido quase dez horas de voo e agora que via a cama, sentia o corpo reclamar. Eduarda entrou no quarto, se jogando em cima da cama. - Eu estou muito magoada com você – Ela falou em um falso tom de mágoa, talvez verdadeiro, ele não sabia exatamente. Ela certamente estava aborrecida, mas não era boa em repreende-lo. - Como sabia que eu chegava hoje? - Eu não sabia. Fiquei vindo todos os dias, só para ter certeza de que não estava me enganando. - Eu não minto pra você, anjo – Falou seguindo para o banheiro, deixando a porta aberta para conseguir ouvi-la melhor. - Não mente, mas omite e também não se importa comigo – Ela reclamou, mas parecia eufórica demais para estar ressentida – Mas eu não me importo. Não me importo que não se importe. Não vai conseguir se livrar de mim, nunca, nem quando casar. Se um dia você casar. - Acha que eu não vou casar? – Perguntou avaliando a cicatrização de seu ferimento recente. - Talvez, mas se continuar viajando de um lado para o outro, como um vendedor ambulante, acho que vai ser bem complicado. Ela sai do quarto, da mesma forma inesperada que entrou. Lian fechando a porta do banheiro, seguiu para o banho e quando saiu de toalha, foi até a porta para ver o que ela estava fazendo. Pelo cheiro, parecia que estava inventando algo na cozinha. Até onde ele lembrava, ela só sabia preparar macarrão ao molho branco.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD