O despertador tocou três horas depois. Abrindo os olhos, ele piscou algumas vezes, enquanto o aparelho insistia em continuar apitando. Ele não o desligou, nunca o fazia, não até ter certeza de que estava realmente acordado. Aquele era um hábito de quando ainda era médico, mas que ainda preservava.
Perdido na escuridão do quarto, ele demorou se situar, mas assim que sentiu o ombro latejar e a boca doer, suas memórias foram voltando, como uma enxurrada de entulhos indesejados.
Desligando o aparelho, ele forçou o corpo para fora da cama. Estava vivo, não podia reclamar. Acendendo a luz ele não gastou mais que dez minutos para ficar pronto, mesmo com as restrições causadas pelo ombro ferido.
Deixando o quarto, se deparou com o maldito frio russo. Não era inverno, mas já era início do outono e para ele, um novaiorquino, qualquer temperatura abaixo de dez graus significava inverno e ele detestava frio.
Seus homens já aguardavam com os carros ligados, estavam em três carros e nove homens. Um número pequeno para sobreviver a uma tocaia e um número grande para passar despercebido.
- Eles estão esperando que eu vá atrás de Nikolai em busca de seu jato particular, ou que eu tente passar disfarçado por um dos aeroportos, mas faremos diferente. Vamos nos separar - Lian passou seu comando, dividindo os carros.
- Saia – Ele ordenou a Valério, seu braço direito – Eu vou dirigindo – Não havia gentileza em seu tom. Já fazia um tempo que a tinha aprendido que gentileza não era algo muito apreciado naquele ramo.
Valério não discutiu. Abrindo a porta, esvaziou o banco de motorista e seguiu para o de passageiro. Lian não lhe deu explicações, ou puxou assunto, apenas ligou a BMW preta, colocando o carro em movimento.
Assim como ele tinha ordenado, cada carro seguiu uma rota diferente, todos rumo as fronteiras terrestres da Rússia com a Finlândia.
- Você está bem? – Valério Perguntou após acender o seu cigarro e dar uma tragada profunda, relaxando os ombros.
- Não morremos ontem. Isso deve significar que estamos com sorte – Lian respondeu abrindo os vidros para que a fumaça do cigarro não se acumulasse dentro do carro.
- Tá muito frio porr@ - Reclamou seu parceiro se encolhendo.
- Você pode apagar o cigarro – sugeriu e Valério fez uma careta, mas não se desfez do cigarro.
Puxando o volante do carro, Lian tirou o carro da rota sugerida pelo GPS.
- O que está fazendo?
- Relaxa. É melhor pararmos para comprar alguma coisa. O trajeto até a fronteira leva algumas horas – Lian respondeu e pouco tempo depois parou em frente a uma mercearia.
- Traz uma carteira pra mim – O homem pediu mostrando seu maço de cigarro vazio. Lian deu uma conferida no local, avaliando o movimento, em seguida deixou o carro.
Valério observou o amigo entrar na mercearia e quando a porta se fechou, ele seguiu para a lateral do prédio isolado e tirando o celular do bolso decidiu ligar em vez de digitar uma mensagem, por causa do frio que ameaçava congelar suas mãos.
- Atende seu merd@ – Xingou ao perceber que o telefone já ia para o terceiro toque.
- Eu tô com ele. Está indo para a fronteira com a Finlândia. Fiquem atentos, os carros estão todos separados.
- Qual a placa? – A voz do outro lado perguntou e Valério sentiu o cano da carma em sua cabeça. Lian tomou o celular de sua mão, o desligando.
- Eu só cai naquela emboscada porque decidi acreditar em sua lealdade – Falou sentindo a raiva anestesiar seus músculos – Quem te pagou?
- Lian – Valério fez menção de virar, mas calou-se ao sentir seu corpo ser empurrado contra a construção – Eu tenho família – Falou desesperado. Raquel está grávida. Ela não vai suportar isso.
- Quem está por trás disso? – Lian insistiu empurrando a cabeça dele com o cano da arma. Tinha muita gente atrás de sua cabeça, mas precisava ter certeza de quem se tratava.
- Paper. Ele quer tomar o controle da cadeira de Nova Iorque. Eu sinto muito… - As palavras morreram ao estalido abafado da pistola Bersa BP9CC, ajustada com um silenciador.
Aquele não era um mundo onde se podia perdoar um traidor. Não existiam segundas chances. Se Lian não o matasse, o outro lado o faria. Fitando o corpo caído a sua frente, ele não conseguiu sentir remorso. Já tinha um tempo que seu coração se tornara uma pedra de gelo. Jogando a carteira de cigarro sobre o corpo, ele retornou para o carro e seguiu seu caminho.
O dia ainda não tinha amanhecido e naquele frio, Lian duvidou que o corpo de Valério fosse encontrado com facilidade, apesar do local inusitado.
Pegando o celular ele transferiu quinhentos mil dólares para a conta de Valério. Não seria muito, mas seria o suficiente para que Raquel não passasse necessidade até reorganizar sua vida.
Desde quando quinhentos mil valia a vida de uma pessoa? – Perguntou-se indignado. Raquel jamais aceitaria aquele dinheiro se soubesse a custo de que o estava recebendo, mas ela jamais saberia. Jamais saberia no que o marido realmente trabalhava. Aquela era a vida dos mafiosos. Morriam sem explicação, em lugares inesperados.