Jeniffer sentia os saltos brancos afundando no gramado a cada passo que dava. Virou o rosto e olhou para Enzo, que olhava fixamente para frente com o cenho levemente franzido.
- Podemos dizer a verdade... - Jeniffer fala sentindo um estranho frio na espinha.
- Não importa o que dissermos... - Ele sorri amplamente para ela. - Vão fazer de você minha noiva. - Segura o riso. - Minha família vive por uma boa fofoca, um bom romance... então vamos caprichar nos detalhes. - Ele pisca, e o coração de Jeniffer se acelera no peito.
Sentia que cometia um erro, mas de tantos que poderia ter cometido, ter aceitado se casar com Ricardo tinha sido o maior deles. Por sorte o pegara cometendo aquela loucura no dia de seu casamento. Assim evitou transtornos futuros, ainda maiores. Então, quem está na chuva, é para se molhar.
- Ok... - Suspirou ao ver uma moça jovem, aparentando ter sua idade correndo em sua direção.
A moça arregalou os olhos e encarou Enzo. - Você casou! Sem nos convidar? - Logo atrás vinha uma mulher mais velha e um senhor de idade avançada.
- Enzo, como pode fazer isso com sua família? Casar-se escondido! - A mulher que parecia ser a mãe dele falava, desviando dele e envolvendo Jeniffer em um abraço. - Bem vinda a família, filha...
- Prazer, sou Jeniffer. - Tento dizer, mas quando dou por mim estou cercada por familiares, que não consigo contar. Vejo Enzo tentando explicar, que sou modelo, vestido de prova, interjeições desconfiadas e gritos de euforia.
Por fim conseguimos chegar a uma grande área coberta com duas mesas de madeira, enormes, com bancos para sentar.
- Carol pode encontrar uma roupa para emprestar para Jenif...
- Claro... venha Jeni, eu trouxe uma muda de roupa para mim, que posso te emprestar.
Jeniffer é arrastada para dentro da grande casa, estilo de campo, com apenas um andar, comprida cheias de portas e quartos, com partes de madeira e outras em alvenaria.
- Aqui está! - Carol lhe entrega um cropped lilás, e um short jeans. Jeniffer não crê no que vê. A roupa era de adolescente. A garota parecia maior que ela, como cabia naquilo?
- Obrigada... ahn será que pode me ajudar? - Jeniffer pergunta sem jeito. - Estou com espartilho... - A garota a sua frente sorri e sai correndo do quarto.
Jeniffer suspira e começa a tirar seus sapatos, seus pés estão vermelhos pelo esforço de caminhar no gramado e nas britas do local, sente-se aliviada só de tirá-los. A porta do quarto se abre violentamente e ela se assusta. Carol traz Enzo pela mão e praticamente o joga para dentro do quarto.
- Ajude sua noiva, ela pediu ajuda... - Carol sai e pisca com um olho só para ela, deixando-a boquiaberta.
- Mas... o que ?
- Tudo bem... não tente entender, eu já desisti. - Enzo balança a cabeça. - No que precisa de ajuda?
Jeniffer fica o encarando por alguns segundos então decide-se. - Bem... os botões de trás do vestido... - Vira-se de costa engolindo seco.
Enzo repara que a garota a sua frente está mais baixa, percebe os sapatos altos jogados de lado, caminha até ela, virada de costas e tranca a respiração. Os cabelos sedosos estavam para o lado, dando-lhe espaço para desabotoar o enorme vestido.
Sua manhã tinha sido tranquila, acordara cedo, tomara um bom café da manhã, perdera tempo a mais do que de costume no banho, ligara para seu amigo Pedro e combinara um happy hour na próxima sexta. Saíra em cima da hora propositalmente, pois sabia que nos encontros de família, ele era o alvo de especulações, sobre quando arrumaria uma namorada e blábláblá... ele não pretendia arrumar uma namorada tão cedo. Já fora feito de b***a o suficiente. Estava em um momento de aproveitar a vida, curtir as festas, os bares, as variadas companhias.
E agora se via desabotoando o vestido de uma noiva. Uma noiva de verdade, que se escondera em seu carro fugindo do seu próprio casamento. E como se não fosse o bastante, agora era sua noiva. De mentirinha, mas sua noiva. Ergueu as mãos e começou pelo botão mais de cima.
Os botões pareciam pequenas pérolas, envoltas por um fino cordão de cetim. Vagarosamente foi libertando-os, e com isso ganhava uma visão de tirar o fôlego. As costas de Jeniffer. Praguejou mentalmente, sentindo sua ereção despontar.
Mas que inferno! Era só a pele das costas! O que havia com ele?
Seguiu até chegar no último, que se encontrava na altura dos quadris. Dando-lhe uma breve visão da calcinha de renda.
- Obrigada! - Jeniffer se afastou, nesse momento, um pouco ofegante. Sentira cada toque dos dedos quentes de Enzo em sua pele, conteve os arrepios, e engolira seco ao sentir a respiração dele em suas costas. - Daqui eu consigo sozinha. - Virou-se e encontrou-o fixado nela. - Enzo...
- Ah.. ok, se precisar é só chamar. - Ele dá um sorriso forçado e sai do quarto.
Enzo vai direto para o banheiro. Molha as mãos, os pulsos e o rosto. Suspira enquanto encara-se no espelho. - Cuidado Enzo! - Alerta a si mesmo. - Você sabe o que acontece quando entrega o coração... - Alonga o pescoço, estalando-o e sai do banheiro rumo a área externa, com sua família. Família essa que aguarda ansiosa por cada detalhe do romance entre ele e Jeniffer.
Rodeados de pessoas, Jeniffer admira a desenvoltura de Enzo, apesar de fazer caretas e suspirar, responde a todos e gargalha ao ouvir alguns absurdos.
Enzo tentava se concentrar na família e não no perfume adocicado que vinha do seu lado, nem na marca de biquíni a mostra pelo cropped que Carol havia emprestado a Jeniffer. Estava sentindo que perderia as forças e a agarraria, dando mais munição para sua família louca.
- Pessoal a carne está pronta! - Seu avô e pai, levavam duas bandejas repletas de carnes para a mesa.
- Vou pegar a salada de maionese... - Carol gritara.
- Eu pego o arroz. - Sua mãe se prontificara.
- Eu pego as saladas verdes. - Enzo levanta-se para poder respirar um momento, sem ser enfeitiçado pelo perfume da noiva em fuga. Segura o riso de seu próprio pensamento.
Mas para seu azar, ou sorte, Jeniffer se ergue e o acompanha. - Não ficarei sozinha com eles... - Ela cochicha próximo a seu ouvido e ele não consegue segurar a risada, nem o arrepio .
- Eu te entendo, completamente. - Ele diz se aproximando, para que somente ela possa ouvir.
Jeniffer se segura para não sair correndo dali. Nunca havia sentido-se tão bem recebida em um lugar. A família de Enzo era por vezes inconveniente e metida, mas eram simpáticos e amorosos, era nítido, que só queriam o bem dele. Sentiu-se até culpada por mentir assim para eles.
O almoço foi tranquilo, com pouca conversa, a comida estava maravilhosa e Jeniffer, estava morta de fome, e nem havia se dado conta. Não havia comido na noite anterior, pelo nervosismo, e de manhã também não tinha comido nada, apenas uma xícara de chá de camomila.
Ao final, as crianças corriam brincando, os mais velhos descansavam nas cadeiras de balanço e o restante, revezava, cuidando das crianças e descansando, enquanto conversavam.
Uma menina de cerca de 7 anos chamou Jeniffer.
- Amiga, você me ajuda a subir naquela árvore?
Jeniffer encarou a bela garotinha, que tinha os olhos inocentes arregalados e esperançosos. - Claro que sim... vamos lá.
Enzo observa "sua noiva" com aquele short curto e o cropped deixando a mostra parte de sua barriga. Ela não era magra como as modelos que costuma procurar para sair, nem tinha gominhos no abdômen, ela era acinturada, com uma barriga que formava dobrinhas ao sentar. Mas por Deus, sua boca salivava por morder cada pedacinho dela. As pernas bronzeadas e grossas, uma b***a redonda e saltada, que o estava tirando a sanidade.
Viu-a apoiar um pé na árvore e o outro manter no chão, segurando a Manu. Manu era filha de um primo seu, muito seu amigo, sempre juntos aprontaram várias na infância. Agora casado, com dois filhos, não se viam mais com frequência, mas ficara a boa camaradagem de sempre.
- Posso ver em seus olhos, que ela é a mulher da sua vida. - Enzo congela ao ouvir a voz de seu pai. Ele fora quem mais sofreu quando soube do golpe que o filho havia recebido.
Olha nos olhos de seu pai e vê o brilho de esperança, pela primeira vez naquele dia, sentiu-se um monstro, pela mentira.
- Que isso, pai? - Força um sorriso. - Lembra-se que nada é para sempre, hoje estamos bem. - Diz voltando seu olhar para Jeniffer, que ria animada com as crianças.
- Não meu filho... - Ele dá um tapinha nas costas de Enzo. - Eu sinto, nela e em você...
Enzo não responde, mas agora sabe, que seu pai está tão empolgado, que está vendo coisas onde ele, de fato, sabe que não tem.
A noite começa a cair, e Jeniffer suspira, pensando que logo terá de voltar para sua casa e enfrentar seu pai.
- Que tal dormirem aqui? - Carol fala animada. - Eu e Claudio vamos dormir aqui também... a mãe e o pai, também... amanhã ainda é domingo, podemos aproveitar o dia.
- Tenho que levar Jeniffer para casa. - Enzo responde tentando se esquivar. Já estava exausto daquele dia. Mentir e fingir era cansativo. Ainda que conseguiram se esquivar o suficiente para não se beijarem na frente de todos. Mas só o fato de ter que abraçá-la pela cintura, já fora tortura o suficiente. Queria um banho, e quem sabe chamar alguém para t*****r, porque seu p*u, doía de tanto desejo.
- Podemos ficar... - Ele ouve Jeniffer sussurrar em seu ouvido. Ele a encara incrédulo. A mulher perdera o resto de juízo que tinha?
- Viu, Enzo, ela quer ficar... - Sua mãe intercedeu.
- Pensei que tivesse compromisso amanhã, amor... - Enzo falou manhoso para Jeniffer, quem sabe ela percebesse que ele estava no limite e precisava ir embora.
Jeniffer encarou Enzo com olhos suplicantes, se ela pudesse adiar o momento do reencontro com seu pai e Ricardo, ela o faria. Vendo que ele esperava dela uma resposta, chegou o mais próximo que pode e sussurrou.
- Não quero ter que voltar... não ainda. - Engoliu as lágrimas que estavam querendo se formar.
Enzo sentiu seu coração falhar uma batida, vendo os olhos cheios d'água de Jeniffer. Pensou em si o dia inteiro, em como ele queria que sua família ficasse feliz, como ele queria parar de ser incomodado por não ter uma namorada, em como ele não aguentava de t***o por ela, que esqueceu-se que ela acabara de sair da igreja, com seu ex-futuro marido a traindo. A abraçou em um gesto de conforto e ela retribui, escondendo o rosto em seu peito.
- Vamos ficar. - Respondeu a sua irmã e beijou o alto da cabeça de Jeniffer. Sabia como era ser traído.
Falou o mais baixo que pode para somente ela escutar. - Vou com você, falar com seu pai, se você quiser.
Jeniffer sabia que era adulta e precisava enfrentar seus medos, e conflitos, mas seu pai era muito manipulador, e por mais que fosse adulta, sentia-se presa as vontades dele. - Vou querer. - Deixou escapar em um suspiro.