Tom
— Devíamos ter saído a uma hora atrás! — Disse Isac enquanto entrávamos no Uber.
— Eu sei que estamos atrasados, mas a culpa não é minha se você demorou a vida naquele banheiro. Eu avisei para pegar leve na comida apimentada, mas você nunca me escuta. — Eu não conseguia conter a risada apoiado na porta.
— Não tem graça. — O loiro revirou os olhos colocando o cinto assim como eu.
Eu e Isac viemos ao Brasil como última parada do tour do filme . Depois de tanto viajar pelo mundo finalmente voltaríamos para Londres onde ficaríamos tranquilos até a première. Não posso negar que esse país sempre terá um lugar especial no meu coração devido à forma acolhedora com que os fãs nos recebem, mas ainda sim, não há lugar como o lar.
— Espero que de tempo. — Disse Isac arrancando-se dos meus devaneios.
— Claro que vai dar tempo, vamos ter que correr um pouco, mas vai dar tempo, tem que dar, ou só voltamos amanhã. — Eu tentava parecer calmo por fora, por mais que estivesse preocupado já que dois desesperados não ajudariam em nada.
Assim que o Uber parou o motorista nos disse para subir as escadas e seguir reto em direção ao aeroporto, com uma certa dificuldade, mas disse. Das outras vezes que viemos para o Brasil não passamos por esse lugar, aparentemente havia uma conexão com uma estação de trem.
Aquele lugar era enorme, seria fácil se perder e com o tempo contra nós subimos as escadas rolantes correndo segurando as malas.
— Olha, sem pressão, mas temos pouco mais de duas horas para chegar até o terminal, despachar as malas e pegar o voo então acelera aí! — Isac praticamente gritou correndo na frente.
— Sem pressão. — Respondi rindo sentindo a minha respiração um pouco pesada, mas não o suficiente para me incomodar.
Logo estávamos correndo como dois doidos por uma espécie de passarela com as laterais de vidro, se nossa pressa não fosse tamanha seria uma bela vista. Enquanto corria para alcançá-lo, me distrai por uma fração de segundos e senti algo chocar-se fortemente contra o meu corpo desequilibrando-me.
— Merda! — Esbravejei tentando continuar em pé, mas derrubando minha mala.
Aquele impacto realmente havia me deixado levemente atordoado, balançando um pouco a cabeça olhei para frente vendo uma garota caída no chão, ela parecia tão atordoada quanto, o que faz sentido pela força com que ela deve ter me acertado. Fui em sua direção ajoelhando-me ao seu lado.
— Moça! Ei! Você está bem? Pode me entender? — Perguntei olhando em seus olhos pretos que se abriam e fechavam.
Ela não me respondeu, apenas fechou os olhos virando a cabeça para o lado perdendo totalmente a consciência. Dei leves batidinhas em seu rosto tentando acordá-la, mas era inútil e não passava uma única alma viva naquela passarela para ajudar.
— Merda...
Eu não podia deixá-la ali, não tenho certeza se eu estava errado ou ela, só sei que colidimos como jogadores de futebol americano! Olhando envolta pude ver Isac voltando correndo em minha direção ainda com sua mala.
— Mas que p***a aconteceu? — Perguntou intercalando entre olhar para mim e para a garota no chão, totalmente assustado.
— Nós meio que nos trombamos e ela caiu e bateu a cabeça...
Me curvei um pouco colocando seu braço envolta do meu pescoço ao mesmo tempo que apoiava suas costas com uma mão segurando suas pernas com a outra. Quando me pus de pé senti seu rosto contra o meu peito, cada vez que sua respiração quente atingia meu corpo um leve arrepio percorria a minha espinha.
— O que vai fazer?
— Procurar uma enfermaria, não posso deixá-la aqui! Olha, pega as malas e vai até o terminal, qualquer coisa eu pego o próximo voo, mas espero te encontrar lá antes. — Respondi ajeitando a moça de cabelos longos e castanhos em meus braços.
— Ok, vai lá herói! — Disse dando um riso nasal enquanto pegava a minha mala voltando a correr em direção ao terminal.
Ela até que era um pouco mais pesada do que parecia ser, talvez fosse pela bolsa em suas costas que eu não faço ideia se ajudou ou piorou a situação. Enquanto caminhava olhei para todos os lados até encontrar um segurança que veio em minha direção falando algo em português.
— Preciso de um médico. — Disse o mais lento que pude na tentativa de fazê-lo me entender, mas pareceu em vão.
— Doutor? — Foi a única palavra que entendi.
— Sim! Ela precisa de ajuda.
O segurança apenas assentiu tão confuso quanto eu com aquela conversa, mas sinalizou para que eu o seguisse por um corredor até parar em frente à uma porta com uma cruz verde desenhada ao lado de algumas palavras. Assim que entramos pude ver uma mulher vestida de branco com um estetoscópio envolta do pescoço, depois de falar algo com o segurança veio em minha direção.
— Eu falo inglês. — Respirei totalmente aliviado por saber que alguém me entenderia naquele lugar. — Pode colocá-la na maca.
— Acho que ela bateu a cabeça quando caiu, eu estava correndo, acho que ela também e nós meio que colidimos. — Disse enquanto a deitava com o maior cuidado do mundo.
— Você se surpreenderia em saber quantas vezes já ouvi essa história. — Com um riso nasal ela aproximou-se da mulher na maca a examinando rapidamente. — Ela parece bem, deve ter sofrido apenas uma concussão leve... Sua amiga deve acordar em alguns minutos.
— Ah não, eu não a conheço, foi meio que um acidente... — Por algum motivo senti minhas bochechas aquecerem-se levemente.
— Não existem acidentes... — Disse olhando-me com um sorriso amigável.
Olhando para o relógio na parede percebi que ainda conseguiria pegar o voo se eu corresse, mas para isso teria de ir naquele exato momento... Desviei meu olhar para a moça na maca, ela não parecia ser mais velha que eu, talvez tivesse a minha idade, havia um pouco de olheiras abaixo dos olhos e pela mochila pesada julgo ser uma estudante, talvez universitária... Seja quem for ela estava sozinha... Não queria deixá-la ali sozinha, queria ter a certeza de que ela estava bem, se era mesmo um concussão simples.
— Você precisa estar em outro lugar? — Perguntou a mulher de branco arranjando-me de meus devaneios.
— Na verdade sim, meu voo para Londres sai em pouco tempo...
— Pode ir sem medo, cuidaremos dela
— Tem uma caneta? — Perguntei agindo totalmente por impulso enquanto procurava por um papel no bolso até encontrar a nota fiscal do almoço.
Ela me olhou com o cenho franzido, mas tirou uma caneta do bolso de seu jaleco. A peguei escrevendo meu número no verso da nota tomando o cuidado de colocar todas as informações necessárias no número.
— Pode entregar para ela quando ela acordar, por favor? — Pedi dobrando a nota é lhe entregando junto com a caneta.
— Posso sim, claro.
— Muito obrigado! — Disse abrindo o meu sorriso mais sincero.
Olhando uma última vez para a moça na maca sai da salinha olhando envolta na tentativa de localizar, não demorei a encontrar meu caminho voltando a correr para conseguir pegar o voo a tempo.
Quando cheguei ao terminal, Isac já havia despachado as malas e estava na fila para o embarque. Tenho quase certeza que nunca corri tanto em toda a minha vida, parei apoiando uma mão em seu ombro ofegante.
— Acho que vou vomitar meus pulmões... — Disse tentando puxar o ar.
— Como a garota está?
— Bem, a enfermeira disse que foi uma concussão.
— Como que você conseguiu causar uma concussão nela? — Perguntou me olhando com o cenho franzido.
— Não foi culpa minha! Eu tava correndo e acho que ela também é nós meio que nos esbarramos bruscamente, a verdade é que ela me acertou como um jogador de futebol americano! — Respondi fazendo ambos rirem.
— O que ela disse quando acordou e viu você?
— Ela ainda estava desacordada quando sai.
— Sério? Depois de carregar ela até a enfermaria achei que ficaria até ela acordar. — Disse enquanto embarcávamos e sentávamos e nossos acentos.
— Eu queria, mas também não queria perder o voo. Eu deixei meu número, acha que ela vai me ligar ou mandar mensagem?
— Depende, você deixou seu nome no número?
— Não, acha que eu devia ter deixado? — O olhei levemente assustado por não ter pensado nisso antes na hora.
— Acho que você fez bem, vai que ela é uma fã doida e divulga seu número?!
Apenas dei de ombros, ele não estava totalmente errado, eu não a conhecia, até onde eu sei ele podia estar certo...
~Quebra De Tempo~
Depois de longas horas de voo finalmente chegamos a Kingston, o clima estava nublado com uma gélida brisa soprando, uma típica tarde britânica. A coisa que eu mais queria no mundo era chegar em casa e dormir, mesmo sabendo que seria uma péssima ideia já que meu cansaço era fruto de um voo exaustivo e fuso horário.
Eu e o Isac nos mudamos para um apartamento no centro, além de ficar mais perto de todos os trabalhos que surgiam, achamos que com a vida adulta batendo à porta a independência viria junto, mas sempre visitamos nossas famílias e vice-versa versa.
Quando chegamos ao apartamento simplesmente largamos as malas na sala e nos jogamos no sofá exaustos. Como puro instinto peguei meu celular do bolso, havia diversas notificações no i********: e Twitter como sempre, mas não havia nenhuma mensagem ou ligação. Conferi se havia rede e bateria, aparentemente estava tudo ok.
— Esperando alguma coisa? — Perguntou Isac me olhando de forma sugestiva.
— Não, deveria? — A essa altura eu não sabia quem estava sendo mais sínico.
— Sei... Cerveja? — Isac levantou do sofá indo em direção a cozinha.
— Não, eu realmente preciso dormir! Acho que só acordo em três dias. — Disse fazendo ambos rirem.
Me levantei indo até o meu quarto no piloto automático. Fechei a porta já arrancando os tênis dos meus pés e jogando minha camiseta no chão, abri o meu cinto tirando a calça ficando apenas de cueca e meia jogando-me na cama em seguida.
Quando senti que estava começando a pegar no sono ouvi o som familiar de uma mensagem chegando ao meu celular. Ainda com os olhos fechados tateei a cama até encontrá-lo olhando a tela.
+55(11)98041-5630
Hey! Eu sei que meio que não nos conhecemos, mas eu sou a garota que você ajudou na estação.
Desculpa ter meio que te atropelado e realmente muito obrigado por ter me ajudado...
Não pude evitar um riso nasal ao ler aquela mensagem, ao menos agora eu tinha certeza de que ela estava bem... Bloqueei o celular o largando na cama com a tela voltada para baixo, agora eu poderia dormir, e esquecer toda essa história...
Achei errado... O Isac podia estar certo, ela podia ser uma fã e divulgar o meu número tornando as coisas um tanto mais difíceis... Ou não... Peguei meu celular novamente o desbloqueando abrindo direto na mensagem começando a digitar, depois de muito apagar e reescrever a mesma mensagem finalmente a enviei.
+55(11)98041-5630
Hey! Eu sei que meio que não nos conhecemos, mas eu sou a garota que você ajudou na estação.
Desculpa ter meio que te atropelado e realmente muito obrigado por ter me ajudado...
Hey, voce está bem? Foi uma pancada feia.
Eu tinha plena consciência que poderia me arrepender dessa decisão, mas ainda sim, não me sentia m*l por tê-la tomado... Antes de tentar dormir novamente salvei seu número com "Garota Da Estação" e guardei o celular sobre o criado-mudo. Talvez eu descobrisse o seu nome...