Malu
Minha cabeça estava doendo tanto que chegava a latejar, a única coisa que eu queria era passar o dia todo na cama com um copo d'água e uma cartela de analgésicos.
"Espera... Não lembro de ter chegado em casa!" — Pensei sentindo uma onda de choque expandir-se por todo o meu corpo.
Eu podia sentir uma forte luz contra o meu rosto o que só me deixava mais nervosa. Será que fui sequestrada? Será que roubaram meus rins? Talvez fígado? Deus... Tenho que parar de assistir CSI... A última coisa que conseguia me lembrar era de estar correndo pela passarela da estação...
"Uma hora você vai ter que abrir os olhos Malu!" — Gritava meu subconsciente.
Respirando fundo arrisquei uma espiada. Tive de piscar algumas vezes para me acostumar com a claridade daquele lugar, assim que conseguir ver mais do que borrões percebi que estava deitada em uma maca no que parecia ser um quartinho com paredes brancas e piso claro. Como que por instinto passei a mão nas costas.
— Os rins estão aqui... — Sussurrei depois de não sentir nenhuma cicatriz.
Antes que eu pudesse ficar em pé uma mulher vestindo roupa branca entrou quase levando um susto tão grande quanto o meu.
— Santo Deus! — Disse colocando uma mão no peito. — Você acordou, como se sente? — Perguntou vindo em minha direção começando a examinar os meus olhos.
— Com dor de cabeça, mas bem... O que aconteceu? Onde eu to? Estou com todos os meus órgãos? Não deu tempo de conferir mais do que os rins. — Respondi obtendo uma risada como resposta.
— Calma, uma pergunta de cada vez. Aparentemente você estava correndo e acabou esbarrando com um rapaz, caiu, bateu a cabeça e acabou desmaiando. Ele a trouxe até a enfermaria da estação.
— Típico... Não posso ver uma vergonha que já to passando...— Sussurrei passando a mão na parte de trás da minha cabeça.
— Você teve uma leve concussão, talvez sinta dor de cabeça ou enjoo, mas é normal. Bom, você já pode ir pra casa. — Disse dando-me um sorriso gentil.
— Obrigado... Que horas são? — Perguntei descendo da maca e pegando minha mochila que estava sobre uma cadeira.
— 00:30a.m
Merda... Eu não havia perdido só um ônibus, havia perdido TODOS os ônibus! Além de ter passado uma vergonha gigantesca na frente de um estranho que eu se quer me lembro do rosto... Às vezes eu tenho certeza que sou o foco de azar do mundo porque não é possível!
— Obrigado... — Agradeci indo até a porta.
— Espera! — Impediu-me vindo até mim. — O rapaz que te trouxe deixou isso.
Ela começou a procurar por algo até tirar o que parecia ser uma nota fiscal do bolso do seu jaleco branco o entregando a mim. Com meu cenho franzido o peguei, quando olhei a parte de trás havia um número de telefone.
— O rapaz que te trouxe aqui pediu para te entregar quando você acordasse. Ele parecia preocupado, mas aparentemente estava atrasado para pegar um voo.
— Ah, obrigado. — Agradeci sorrindo sem graça e saindo da enfermaria.
Guardei a nota fiscal no meu bolso sem dar muita atenção até porque ainda me sentia um pouco perdida. Enquanto caminhava para fora da estação peguei meu celular para poder chamar um Uber já que não havia mais nenhuma alma penada no terminal, quanto mais um ônibus.
Assim que desbloqueei a tela senti meu coração até pular uma batida ao ver o tanto de ligações tanto da Marília, quanto do meu pai e da Nathy e até mesmo do Rafael. Depois de pedir o Uber liguei para Marília, tenho certeza de que se eu demorasse mais 10 minutos ela ligaria para a polícia.
— Aí meu Deus Maria Lúcia! Onde você está? — Ela só faltava gritar do outro lado da linha. — Ninguém sabia de você! Eu ligue para a Nathalie e o Rafael, mas ninguém sabia de você!
— Calma, eu to viva... Você não vai acreditar no que aconteceu. Eu posso, meio que, ter caído e batido a cabeça depois de esbarrar em alguém. Acabei de sair da enfermaria da estação.
— Meu Deus... Você está bem? Como vai vir pra casa?
— Estou, só a minha dignidade que não tá muito bem. — Respondi fazendo ambas soltarem um riso nasal. — E eu pedi um Uber que na verdade já deve estar chegando.
— Pode deixar que eu pago quando você chegar aqui querida, mande mensagem para a Nathalie e o Rafael, eles ficaram preocupados com você, principalmente o Rafael, ligava a cada dois minutos!
— Isso tá mais para perseguição do que preocupação... — Disse revirando os olhos.
— Aconteceu alguma coisa? — Pelo timbre de sua voz pude perceber a preocupação.
— Não, nada demais. Preciso desligar meu Uber chegou, te vejo em 10 minutos. — Disse desligando antes mesmo que ela pudesse me responder.
Marília era a minha madrasta, ao contrário da má fama que as histórias infantis costumam atribuir as madrastas, ela era incrível e realmente se preocupava comigo como se fosse a minha mãe até porque nos conhecemos quando eu tinha 12 anos.
Todo o caminho eu pensei sobre o que aconteceu naquela passarela, tentava lembrar algo de útil, mas vinham sempre as mesmas coisas, eu estava correndo para não perder o ônibus e esbarrei com força em alguém. Mas o rosto desse alguém... Não consigo lembrar, nem ao menos a sua voz vinha a minha mente de forma clara.
Com esse pensamento peguei a nota fiscal do bolso do meu casaco olhando para o número mais uma vez, o ddd era estranho, com certeza não era do Brasil o que me deixa aliviada de não estar louca por ter ouvido algo em inglês. Mas ao mesmo tempo curiosa, não fazia ideia de que país o ddd 44 pertencia, sem dúvida alguma eu pesquisaria isso quando chegasse ao meu quarto.
— Tenha uma boa noite. — Agradeci pagando ao Uber pela corrida, me recuso a fazer a Marília pagar.
Parei em frente ao meu portão respirando fundo algumas vezes na tentativa de preparar meu psicológico para os esporros que eu iria receber e as explicações que teria de dar. Podia ver pelas frestas do portão a janela da sala fechada por cortinas translúcidas onde eu conseguia ver apenas a fraca luz da tv.
— Relaxa que você não está devendo Malu! — Disse a mim mesma abrindo o portão e entrando.
— Graças a Deus você está bem! — Marília se levantou do sofá num pulo ao me ver. — Está tudo bem?
— To eu to bem... — Respondi com dificuldade por estar sendo apertada em um abraço. — Foi só o universo me mostrando o meu lugar no mundo.
— O seu pai ainda não chegou do trabalho querida, mas seu jantar acabou ficando no micro-ondas.
— Valeu, mas não to com fome... Você devia comer já que está comendo por dois agora. — Disse acariciando sua enorme barriga de segundo trimestre. — Como se sente?
— Gorda e cansada. — Respondeu fazendo ambas rirem.
— Eu vou tomar um banho e dormir, tem algum analgésico?
— No armário da cozinha querida... — Disse voltando a sentar no sofá — Boa noite.
~Quebra De Tempo~
Como era a minha folga e as sextas eu não ia a faculdade pude ficar o dia quase inteiro na cama virando repolho. Apenas depois de um almoço reforçado eu consegui fazer um esfocinho para não ficar deitada assistindo e ficar sentada assistindo.
— Malu... — Meu pai bateu na porta colocando apenas parte do corpo para dentro do quarto.
— Oi pai. — Tirei o notebook do meu colo sentando-me voltada para ele.
— Querida... — Ele entrou e sentou-se ao meu lado. — Você sabe que logo teremos mais um m****o na família né? O seu irmão Erick. Eu e a Marília estávamos conversando e chegamos à conclusão de que vamos ter que começar a montar um quarto para ele.
— Tá me expulsando do meu próprio quarto? — O olhei com o cenho franzido.
— Não! Não querida não é isso. Mas queremos que você escolha se quer ficar com esse quarto ou o de cima.
— Mas o de cima está cheio de tralhas.
— Vamos jogar algumas coisas foras, já está mais do que na hora de reformarmos aquele lugar.
— Tá... Eu fico com aquele e o bebê com o meu, mas não joga tudo fora... Tem coisas...
— Da sua mãe, eu sei... — Ele me abraçou permitindo que eu deitasse a cabeça em seu ombro. — Você pode escolher as coisas que quer ficar, mas faça isso até o fim de semana que vem, vamos sair para comprar as tintas.
— Posso escolher qualquer uma? — Perguntei o olhando com uma sobrancelha arqueada.
— Posso pensar no seu caso. — Respondeu bagunçando meu cabelo e se levantando da cama. — Sugiro que comece logo.
— Vou ligar para a Nathy vir me ajudar, ela já deve estar um pouco melhor.
Meu pai apenas assentiu e saiu do meu quarto, ou antigo quarto. Não conversávamos muito, não tínhamos tempo já que ele trabalhava como policial m*l o via em casa... Fechando meu notebook peguei meu celular ligando para a Nathy torcendo para que ela pudesse vir me ajudar.
Depois de muito insistir finalmente consegui convencê-la a vir. Realmente eu não entrava naquele quarto a muito tempo já que ele acabou virando uma espécie de porão e vivia trancado.
— Meu Deus Malu, eu não acredito que eu saí da minha cama quente e confortável para entrar em um quarto que vai me fazer morrer de espirrar! — Reclamou enquanto eu abria a porta. — Por que eu faço isso comigo?!
— Porque me ama. — Respondi sorrindo de forma irônica.
Assim que abri a porta percebi que talvez ela tivesse razão. Havia muitas caixas empoeiradas e lençóis cobrindo alguns móveis, devido ao breu daquele quarto parecia que estávamos em um filme de terror.
— To fora! — Disse dando um paço para trás, mas eu a segurei pelo braço.
— Para de ser chorona! É só pó! — Entrei no quarto abrindo a janela para que entrasse um pouco de ar.
— Maria Lucia Trindade, você vai pagar meu tratamento! — Esbravejou me fazendo revirar os olhos e rir.
À medida que como tirando todas as caixas pude rever diversas relíquias como fotos e roupas antigas, enquanto Nathy levava uma das caixas com algumas peças de vidro quebradas para a garagem puxei o lençol que um dia deve ter sido branco levantando uma grande quantidade de poeira. Mas assim que ela baixou me deparei com o antigo piano de madeira escura da mamãe.
Senti meus olhos lacrimejarem levemente, mas não tinha certeza se eram pelas lembranças ou pela poeira. Me aproximei sentando-me no banquinho e passando meus dedos pelas teclam empoeiradas, eu não lembrava que ele estava aqui...
— Ainda lembra como toca? — Perguntou Nathy da porta.
— Um pouco... — Respondi de forma baixa limpando minhas bochechas com as costas das mãos.
Nathy aproximou-se de mim sentando ao meu lado tentando tirar o pó das teclas.
— Vocês tocavam tão bem, como consegue decorar as notas, mas não as teorias da personalidade? — Perguntou, mas apenas deu de ombros como resposta. — Não vai jogar ele fora, vai?
— Não...
— Você não se culpa mais, não é?
— Você não vai acreditar no que aconteceu comigo! — Disse levantando para mudar de assunto. — Eu esbarrei em um cara na estação, cai e desmaiei!
— Eu não acredito que isso aconteceu com você! — Disse Nathy não se aguentando de rir.
— Não tem graça! — Revirei os olhos prendendo meu cabelo a um r**o de cavalo.
— Parece o começo de uma piada.
— Mico total... — Neguei com a cabeça. — Ele me deixou o número dele e...
— Meu Deus! Você ligou? Mandou mensagem? Fez algo da sua vida mulher? — Perguntou levantando e me sacudindo.
— Calma, não eu ainda nem vi de onde é o ddd e...
Antes que eu pudesse terminar de falar Nathy saiu correndo para fora daquele quarto, a segui já tendo uma vaga noção de para onde ela iria.
— Cadê? Cadê esse número?! — Perguntou me fazendo rir pela euforia dele.
— Aqui... Fui até a minha cama pegando o número que estava dentro da minha jaqueta e entregando a ela.
— Hmm... — A morena começou a examinar o número. — Acho que ddd 44 é da Inglaterra, lembra que discávamos ele pra ligar para aquela sua prima que fez intercâmbio?! Olha é uma nota fiscal, vamos ver o que o seu britânico pediu...
— Quer parar de dar uma de doida?! — Disse tirando a nota da mão.
— Tá, mas o que tá esperando pra mandar ao menos uma mensagem para o boy britânico?
— Quem disse que ele quer que eu mande mensagem pra ele?
— Acho que o fato dele ter deixado o NÚMERO DELE pra você comprove isso! — Disse cruzando os braços. — Olha, querendo ou não você deve um pedido de desculpas por ter atropelado essa pessoa e um enorme obrigado por ter te ajudado e não deixado no chão igual uma lagartixa com câimbra!
— Obrigada pela analogia. — Coloquei a mão no peito fingindo estar ofendida.
— Mas você sabe que eu tenho razão...
Eu odiava admitir, mas ela realmente tinha razão... Depois de muito pensar no assunto digitei seu número o salvando como "O Herói" enquanto Nathy me observava atentamente.
A parte difícil já foi agora faltava a parte mais difícil ainda: O que dizer! Eu podia dizer Hi! Ou Hello! ou até mesmo Hey! e isso só pra começar! Eu podia deixar tudo como está e simplesmente seguir a minha vida como se nada tivesse acontecido até porque eu não tenho certeza se quero falar com a pessoa que presenciou o maior mico que eu já paguei em toda minha vida, mas ao mesmo tempo parte de mim sabia que isso não era certo...
— Malu, se você conseguiu atropelar esse cara você consegue pedir desculpas pra ele! Simples! Peça desculpas e depois o ignore pelo resto da sua vida sem culpa! — Sussurrei a mim mesma fazendo Nathy rir.
Respirei fundo mais uma vez começando a digitar um pedido de desculpas e agradecimento ao mesmo tempo.
O Herói
Hey! Eu sei que meio que não nos conhecemos, mas eu sou a garota que você ajudou na estação.
Desculpa ter meio que te atropelado e realmente muito obrigado por ter me ajudado...
"Agora você pode seguir sua vida como se nada tivesse acontecido!" — Pensei soltando o celular sobre a cama.
— Pronto, podemos voltar a arrumar as coisas do quarto ou você quer falar sobre mais algum aspecto da minha vida? — Perguntei a olhando sarcasticamente.
— Claro... Depois de eu ler a mensagem! — Respondeu praticamente pulando na cama para pegar meu celular.