Cidade Maravilhosa

1892 Words
O dia seguiu da pior maneira possível. Minha cabeça latejava durante a maior parte do tempo, eu me entupia de analgésicos e depois ficava zonza e parecia flutuar em uma nuvem de estuação. Nenhuma das duas sensações era minimamente agradável. Não havia posição confortável para ficar, não conseguia passar muito tempo deitada, nem sentada no sofá. O som da televisão feria os meus ouvidos e minha boca continuava seca não importando quanta água eu bebesse. m*l podia me lembrar daquele vinho sem vomitar. Cinco comprimidos e duas doses de digestivos mais tarde, percebi que não aguentaria passar mais tempo dentro de casa olhando para as paredes e pensando nas dívidas não pagas. Estava acostumada a gastar a maioria do meu tempo no trabalho e agora sentia um vazio sem tamanho. Decidi sair pra dar uma volta, o ar puro com certeza me ajudaria a curar a ressaca. Fui até meu closet em busca de algo mais esportivo do que os típicos terninhos sociais que usava para trabalhar, só então me dei conta de que o meu guarda-roupas era formado de basicamente duas categorias: roupas de trabalhar e roupas de dormir (que se resumiam em camisas velhas de trabalhar). A constatação me fez ver, mais uma vez, os anos desperdiçados da minha vida. Eu simplesmente não tinha uma vida social. Não havia ali nenhum vestido sequer, nenhuma calça de moletom e muito menos uma camiseta e um par de tênis. Inferno! Como é que uma pessoa se deixava chegar àquele ponto? Sim, eu sabia muito bem a resposta. Trabalhando igual a uma condenada, abrindo mão de festas que não fossem confraternizações de trabalho, abandonando os amigos e esquecendo de que havia um setor chamado “vida amorosa”. Calcei os sapatos com os saltos de cinco centímetros, os mais baixos que encontrei, a calça social mais larga e a camisa mais solta, em busca de conforto. Não era exatamente um traje apropriado para um participante do Iron Woman, mas para uma caminhada, teria que servir. Nem uma bolsa de alça comprida o suficiente para trespassar no corpo eu encontrei. Então, saí carregando uma bolsa modelo Hobo, prática, compacta e que cabia muito mais coisas do que parecia. Não que eu fosse precisar de muitas tralhas para dar uma caminhada, mas... ...só por garantia, decidi levar, além das chaves do apartamento, a carteira e os óculos de sol, um frasco de protetor solar (fator de proteção 50, o sol era o amigo número um das rugas), um protetor solar labial (o sol era o inimigo numero um dos lábios), meus óculos de grau (poderia ser útil, nem que fosse para ler alguma placa indicativa), uma garrafa de água mineral, melhor do que isso, a minha xícara térmica com água mineral estupidamente gelada (o sol era o inimigo número um da hidratação). Revi todos os itens. Estava pronta para minha primeira aventura pela cidade. Me senti uma turista estranha em meio a multidão que se aglomerava na praia de Copacabana. Natural de Curitiba, eu me mudara para o Rio de Janeiro depois que me formara em Engenharia Civil, justamente para assumir o cargo na construtora do Dr. Victor Hugo, que era um amigo chegado de um amigo de um irmão de um conhecido do meu pai, para quem ele devia um grande favor. O favor foi cobrado e eu empossada no cargo de coordenadora de equipe, sem mesmo ter que passar pelas etapas normais para crescer dentro da empresa. Sim, eu fui favorecida, mas não me envergonho. Às vezes, principalmente quando se é recém-formado e não se tem experiência profissional nenhuma, é preciso dançar conforme a música. Nunca tirei um tempo para conhecer a cidade, nem mesmo os famosos pontos turísticos. Primeiro: nunca tive vontade nenhuma de zanzar por aí atrás de atrativos turísticos; Segundo: meu objetivo sempre foi me dedicar cem por cento ao trabalho e passear seria uma grande perda de preciosos momentos em que eu poderia estar calculando vigas e delegando tarefas; Terceiro: o Rio de Janeiro nunca me chamou muito a atenção. Talvez aquele fosse o último lugar que eu tenha tido vontade de conhecer um dia. Muito menos quis morar ali. Foi tudo força das circunstâncias, destino, acaso, ou o sinônimo que você achar melhor. Definitivamente não era o meu sonho. Até passei um tempo bem chateada por ter sido enviada pra cá. Nos primeiros meses, por falta de recursos (o salário de um engenheiro em experiência era muito menor do que o de um engenheiro coordenador), fui obrigada a morar em um quartinho alugado para estudantes, que era na verdade a dependência de empregada da casa de uma pessoa de classe média que com a crise não podia mais pagar por tais serviços e o alugava como complemento de renda da família, e que ainda por cima, eu tinha que dividir com uma garota que m*l tinha saído dos cueiros e não pensava em outra coisa além de balada e maquiagem. Seu nome era Silvia. Era uma loira espetacular (tingida, não loira natural, mesmo assim espetacular) que viera de uma cidadezinha no interior de Minas Gerais com o sonho de ser atriz/modelo/cantora, nessa ordem. Dividimos o quarto durante quatro meses, nenhuma de nós tinha estado antes no Rio. Para mim tudo ali era novo, mas vinda de uma capital, algumas coisas me eram bem familiares, como por exemplo, a distância entre os lugares, tudo era realmente longe no Rio de Janeiro, atravessar a cidade era praticamente uma viagem, o trânsito agressivo, a quantidade de turistas nas ruas, claro, aqui era bem maior do que em Curitiba, mas ainda assim... Para Silvia, que nascera em Varginha, a famosa cidade do ET, com um pouquinho mais de cem mil habitantes, e que nunca saíra de lá, a cidade grande era uma tremenda loucura. Não foram poucas as vezes em que Silvia me convidou para dar um rolê pela cidade, conhecer um pouco daquilo que ela afirmava ser “o paraíso na Terra”. Claro que eu recusei todas. A Silvia não era o tipo de pessoa com quem eu costumava me relacionar, porque eu só me relacionava com colegas de estudo e agora com colegas de trabalho, baladas não eram exatamente o tipo de ambiente que eu gostava de frequentar, nunca na minha vida, havia colocado meus saltos num antro desses, e eu preferia ocupar minhas horas livres com uma boa leitura, em geral, com livros técnicos e manuais de sistemas construtivos. Todos os dias quando deixávamos o cubículo, eu a caminho da construtora e Silvia rumando para testes e mais testes e trabalhos de figurante em novelas, desejávamos sorte uma para a outra. Eu realmente desejava que Silvia se tornasse uma atriz famosa, ou modelo, ou cantora (nessa ordem), mas confesso que senti uma pontinha de orgulho quando acabou meu período de experiência, meu salário cresceu e eu pude em fim financiar o apartamento no prédio onde eu dizia para Silvia todas as manhãs que queria morar. Ela, infelizmente até onde eu saiba, não conseguiu nada de bom em meses. Pois bem, essa época já era, e havia chegado o momento de eu conhecer a tão famosa cidade do Rio de Janeiro e ver se era mesmo isso tudo o que falavam. Senti um pouco de medo em deixar a zona de conforto das duas quadras que eu percorria diariamente de casa até a firma, o meu único território conquistado desde que viera parar ali. Desejei que a Silvia estivesse comigo, seria legal ter companhia durante a caminhada. Mesmo que fosse apenas para matar tempo e conversar bobagens. Eu não tinha nem guardado os seus contatos, senão, quem sabe poderia tentar. Fiz uma anotação mental para procurar Silvia no f*******: mais tarde. Deixei pra lá os pensamentos nostálgicos e a sensação r**m de saber que eu não tinha uma única amiga, e segui em frente, me concentrando em um passo de cada vez. Levei minha bolsa no ombro, a mão agarrada na lateral da alça, temendo ser assaltada. Eu ouvia falar horrores sobre a violência naquela cidade e não queria ser mais uma vítima a engrossar o livro das estatísticas. Também tomei o cuidado de não chegar muito perto de ninguém e sempre olhar para os lados evitando contato muito próximo com algum transeunte apressado (me disseram que os responsáveis pelos assaltos relâmpago agiam no meio das ruas, passando correndo pelas vítimas e levando as carteiras, bolsas, celulares e o que mais conseguissem). Sempre fui uma pessoa prática e metódica em tudo o que fazia. Com a minha nova rotina fitness, que resolvi adotar enquanto percorria a quarta quadra além-apartamento, território até então desconhecido e pronto para ser explorado, não seria diferente. Programei meu celular para contar os passos que dava e por precaução, mantive o GPS ligado e gravando a rota para o caso de me perder. Tentei enfiar na minha cabeça o pensamento fixo de que a minha demissão era um sinal divino para que eu melhorasse meus hábitos, aumentasse a minha resistência física e perdesse alguns quilos e isso certamente aconteceria, pois eu não tinha ideia de como iria me sustentar dali por diante. Era isso o que eu precisava: mudança de vida, novos hábitos, novas perspectivas. O que bem poderia começar pensando qual seria meu próximo curso na faculdade, porque engenheira eu sabia que nunca voltaria a ser. Era triste, uma nova faculdade me custaria mais quatro ou cinco anos de vida, além de um dinheiro que eu não tinha e que meu pai com certeza absoluta se recusaria a pagar. Talvez eu colocasse uma mochila nas costas e viajasse o mundo em busca de aventuras. Ok, eu não era exatamente uma aventureira e não me daria bem em albergues cheios de hippies e adolescentes, com quartos e banheiros coletivos. Que droga! Quanto mais eu fantasiava alternativas, mais elas pareciam surreais e inacessíveis. Estava oito quarteirões distante do meu apartamento quando decidi voltar. Meus pés doíam com os sapatos de solas duras finíssimas que me faziam sentir cada imperfeição ou pedrinha em que pisava, e salto. Minhas pernas também começavam a dar sinais de cansaço e eu já bebera toda a água gelada da minha xícara térmica. Andei pouco, mas já era um começo. Precisava providenciar roupas e principalmente calçados adequados se não quisesse acabar enchendo os pés de cicatrizes, as bolhas que haviam se formado nos meus calcanhares e polegares já começavam a estourar, eu sentia a dor e a ardência onde a pele se desprendera. Eca! Não via a hora de chegar em casa e colocar os pés de molho em uma bacia de água morna. Bacia, porque a banheira da suíte máster, como eu me acostumara a chamar o meu quarto, a partir de então seria um artigo de luxo e os sais de banho precisariam ser economizados para ocasiões especiais. A que ponto deprimente da vida eu chegara? Não queria ser consumida pela decepção e pelo fracasso, mas sentia que estava caindo cada vez mais em poço sem fundo de onde eu talvez nunca mais conseguisse sair. Não! Eu não me deixaria deprimir, não eu que sempre fora tão determinada e perseguira meus objetivos. Não eu que conquistara meus sonhos com tanto afinco, que suportara e vencera todas as dificuldades que encontrei pelo caminho. Não! Tinha que haver uma saída para aquilo e eu estava disposta a encontra-la.
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