Terminei de secar a garrafa de vinho, coisa que não era do meu feitio, portanto, estava embriagada como um gambá. Meus instintos me diziam que eu fizera uma coisa péssima, terrível, meu organismo que não via bebidas alcoólicas desde o primeiro ano de faculdade, a época em que tudo era festa, já começava a sofrer com as tonturas exageradas que me causavam enjoo. O lado bom é que com a mente turva eu podia pensar que nada de r**m tinha acontecido, que tudo não passara de um pesadelo, que as coisas iam melhorar, entre outras mentiras bonitas que os bêbados inventam pra fugir da dor.
Agarrei-me a borda da mesa e tentei levantar. O mundo rodopiou e caí de volta com a minha b***a magra na cadeira. Doeu.
— Masssss que drrrrrogaaa — balbuciei no idioma dos bebuns. Respirei fundo pra ver se o m*l-estar se amenizava, reuni toda a minha coragem e força de vontade para tentar chegar ao banheiro sem vomitar pelo chão todo no caminho, e eu precisava de muita. Ai, pensar que se acontecesse eu teria que limpar tudo aumentava minhas náuseas.
— Ummmm... ddddoiiissss... trrrrrêsss... e jjjjáááá! — em um impulso fiquei de pé e esperei que o mundo se acomodasse. Não foi fácil manter o equilíbrio, mas enfim os giros diminuíram e senti que poderia dar alguns passos.
— Vvvamossss lááá, garooootaaa! Voccccccê conssssegue! — incentivei-me.
Movi o pé direito bem devagar, as duas mãos ainda agarradas ao fino tampo da mesa, tentando encontrar um ponto de equilíbrio. Encostei-o no chão, esticando o braço para não perder o apoio. Senti gotas de suor brotando na minha testa e fui invadida por um calor inesperado, que foi subindo pelo meu corpo, junto com as ânsias. Achei que não aguentaria dar mais nenhum passo, apertei bem os olhos e quando tornei a abri-los uma coisa muito estranha aconteceu.
O tapete da sala, eu tinha certeza, estava se movendo em minha direção. E mais, o cinza felpudo de suas fibras foi se desfocando, ficando cada vez mais turvo e disforme até se tornar completamente n***o. Ao mesmo tempo, todos os músculos do meu corpo relaxaram e não pude mais sentir o chão sob os meus pés. Coisa estranha!
De repente eu não estava mais na sala da minha casa, mas sim em um salão enorme, todo branco de teto alto e apoiado em pilotis dourados. Das janelas amplas esvoaçavam finas cortinas de voil beges e douradas. Pelo chão se esparramavam almofadas de cetim e brocado, ricamente bordadas com fios de ouro.
Do lado norte, o vento que soprava agitando as cortinas deixava entrever o que parecia ser um bosque e mais adiante um mar de areia amarelo queimado. Não sei de que forma, mas eu sabia exatamente onde eu estava: em um palácio no meio de um oásis no Egito!
Minhas roupas também não eram mais as mesmas. Eu estava envolta em uma infinidade de tecidos vermelhos e brancos, presos a joias pesadas com múltiplas pedras preciosas encrustadas e longas correntes douradas que a percorriam por toda parte. Eu não podia me ver, mas sabia que usava uma maquiagem carregada. Minhas mãos e os pés descalços estavam cobertos com finos desenhos de ramos e flores do que eu deduzi ser tatuagens de hena. Era um trabalho belíssimo.
Uma música alegre e diferente de qualquer coisa que eu já ouvira, preenchia o ambiente. O salão ao meu redor estava cheio de mulheres de todas as idades, os olhos delineados e os rostos bem maquiados lhe davam um ar místico de contos de fadas, ou das mil e uma noites. Todas elas estavam vestidas de maneira semelhante a mim, com longos véus e muitas joias. Dançavam e rodopiavam ao meu redor, sempre sorridentes. Era tudo lindo de se ver. Bizarro, mas de um jeito bom.
Uma mulher que parecia ser a mais velha, aproximou-se, segurou as minhas mãos e me ajudou a levantar da almofada de cetim dourada onde eu estivera sentada. Disse algo em um idioma estranho que eu não compreendi, depois cobriu meu rosto com um lenço azul celeste que combinava com a cor castanho azulada dos meus olhos. Chacoalhou a mão, me fazendo um sinal, ao qual eu a segui. Todas as outras riram alto, deram estranhos gritinhos de alegria e puseram-se a nos seguir.
Atravessamos longos corredores adornados com esculturas e pinturas, além de aparadores portando imensos jarros de flores, até chegar a uma enorme porta dupla que se escancarava para uma área aberta, onde uma tenda branca e dourada toda enfeitada com rosas Jericó (que nem eram rosas de verdade, mas exalavam um perfume até melhor) fora erguida num descampado cercado por um bosque de louro-rosa, tamareiras e ciprestes de tassili.
Fui conduzida para a tenda onde uma cadeira que mais parecia um trono me esperava. As demais mulheres permaneceram ao meu redor dançando e festejando. No outro extremo da tenda havia outra cadeira ricamente ornamentada. Ninguém se sentou ali e então eu percebi que estava reservada a alguém especial. Aquele era o lugar do meu noivo. Que emoção! Depois de tantos anos eu finalmente ia desencalhar.
Não demorou, uma onda de pânico submergiu quando me dei conta de que eu nem mesmo sabia quem era o noivo. Podia muito bem ser um velhote careca e desdentado, do tipo “magnata do petróleo” (e tinha petróleo no Egito?). Talvez algum jovenzinho rico que me comprara como esposa na internet, ou quem sabe alguém que já era casado com três mulheres e decidira ter uma quarta esposa estrangeira? Bom, se fosse isso, que ele pelo menos não fosse feio como o bicho da goiaba, tantos defeitos juntos não daria pra aturar.
Eu não me lembrava de ter aceitado, nem mesmo de conhecer o homem com quem passaria o resto dos meus dias. Eu nunca tinha viajado para o Egito e sequer sabia como tinha vindo parar ali. Inclusive, eu não via nenhum homem, em nenhum lugar, olhei bem para todos os lados para me certificar. Será que eu seria abandonada no altar? Não, não, sequer havia um altar naquela estranha cerimonia, só uma espécie de tablado onde possivelmente alguma banda se apresentaria.
Tentei levantar, pretendia ir embora daquele lugar o quanto antes, mas fui impedida pelas mulheres que se aglomeraram a minha volta. Assustei-me quando ouvi um som ressoante de tambores que se aproximavam. Talvez aquilo não fosse um casamento, mas sim uma execução. Senti-me sufocando. Precisava achar um jeito de driblar as minhas guardiãs e fugir daquele lugar.
O barulho chegava cada vez mais próximo e havia algo mais: vozes. Concentrei-me e consegui distinguir vozes masculinas que pareciam cantar no mesmo ritmo das batidas do tambor. Meu coração batucava seguindo o compasso cadenciado da canção. Então ele surgiu...
Rodeado por outros homens, vestindo um Kandoora branco de colarinho sob um Bisht n***o com dourado, a cabeça coberta por um Ghtrah também branco envolto por um Igal de duas voltas n***o, que fazia as vezes de coroa e lhe dava um aspecto de realeza, estava o homem mais lindo que eu vira em toda a minha vida. O rosto perfeitamente simétrico e os olhos da cor da areia do deserto harmonizavam perfeitamente com a barba bem desenhada. Era alto e o corpo, notava-se esguio, embora um perfeito mistério debaixo de tantas camadas de pano. Na minha mente eu conseguia imaginá-lo por inteiro, tão perfeito quanto aquela face esculpida por Allah.
Ele encarou-me, depois sentou-se na cadeira, de frente para mim. Quis ir até lá, tocá-lo, falar com ele ou apenas apreciar tamanha beleza mais de perto. Fui impedida por uma das mulheres que imediatamente e não com muita delicadeza me colocou de volta ao meu lugar. Todos os homens se mantiveram na metade de lá da tenda, as mulheres no lado de cá. Cada qual dançava na sua metade, sem formarem casais, sem ousarem invadir o território do sexo alheio. Era uma festa bem curiosa e eu estava aliviada em constatar que não era o ritual da minha execução.
Permaneci quieta por um bom tempo, observando aquele deus grego, ou melhor, aquele deus egípcio, e correspondendo ao sorriso perfeito que ele me lançava. Era impossível não sorrir diante da visão de um ser como aquele. Então a música subitamente cessou e as atenções de todos se voltaram para as portas da casa de onde dois anciãos, carregando um grande lenço de tecido e um livro. Pondo-se no centro de um círculo que se formara em torno da tenda composto de metade feminina e metade masculina, metades que não se mesclavam, começaram a ler o grande livro em um idioma esquisito. Não entendi palavra.
Terminada a leitura, o livro foi fechado e a música recomeçou. Assustei-me quando minha cadeira foi levantada, tentei protestar, mas ninguém pareceu me ouvir, temi despencar lá de cima, então agarrei-me nos braços da cadeira com todas as minhas forças. Fui carregada até aquele tablado esquisito, na extremidade da tenda. A cadeira em que o deus egípcio se sentava também foi levada e posta ao meu lado. Os anciãos munidos do que eu pensei ser um lençol aproximaram-se nos encarando. Não pareciam nada amigáveis. Me encolhi enquanto eles estendiam o tecido sobre a cabeça do homem, cobrindo-o por inteiro. Um pecado esconder tamanha beleza.
Depois viraram-se na minha direção. Seus rostos enfeitados por sorrisos sinistros, olhos estreitos, pareciam lobos prontos a me devorar. Quando o primeiro estendeu parte daquele pano sobre mim, eu entendi que suas verdadeiras intenções eram me matar sufocada. Isso mesmo, sua engenheirazinha incompetente, disse um deles, embora seus lábios não se mexessem no que foi tipo uma mensagem telepática, como se adivinhasse meus pensamentos. Fiquei apavorada! Como é que aquele homem que eu nunca vira antes na minha vida sabia dos meus problemas? Sei de tudo, e quem não sabe? Sua reputação está arruinada, desde o Brasil até o Egito. Sua carreira já era! Não me diga que você pensou que o Dr. Victor Hugo deixaria tudo por isso mesmo? O que você fez foi muito, muito grave! Prepare-se para as consequências!
Agora, tudo fazia sentido. O Dr. Victor Hugo me enviara para o Egito para morrer, ele contratara aqueles homens horríveis (exceto pelo que se sentava ao meu lado, que de horrível não tinha é nada) para acabar com a minha vida. Eu estava perdida, jamais conseguiria escapar. A multidão de mulheres e homens que nos cercavam me impediria de qualquer tentativa.
O velho continuou se aproximando enquanto dizia aquelas coisas terríveis. Eu me esforcei para levantar, mas meu corpo não respondia. Tentei erguer as mãos, talvez se eu o atingisse ele me largasse, talvez se eu corresse o máximo que pudesse, conseguisse alcançar a saída e ir embora em segurança. Nem tive tempo de concluir aquela ideia, outra muito mais desanimadora surgiu: se eu estava mesmo no Egito, como é que (diabos!) eu chegaria ao Brasil? Não, não tinha como correr para casa.
Senti as mãos enrugadas e frias me tocarem de relance o rosto pouco antes de ser envolvida pelas fibras espinhentas do lençol, que me pareceu ser de linho, nunca conheci tecido que pinicasse mais do que o linho. O ar começou a faltar nos meus pulmões. O tecido fora enrolado em torno da minha cabeça, me impedindo de respirar. Apertei as pálpebras. Quis gritar, mas só gemidos sem sentido saíram da minha garganta. Num último recurso desesperado, abri a boca e inspirei com força o pouco ar que consegui, usei todas as minhas forças para mover meus membros e...
...abri os olhos. Levantei um pouco a cabeça do chão e finalmente respirei. Maldito tapete onde eu desmaiara na noite passada, quase morri sufocada em suas felpas. Sorvi o ar da mesma forma que alguém vindo de um deserto, quase morto de sede, seca um copo d’água. A ficha ainda não caíra. Rolei para o lado em busca dos capangas do Dr. Victor Hugo ou daquele deus egípcio maravilhoso que se sentara ao meu lado havia pouco.
O mundo ainda rodopiava, com menos violência que antes, mas enjoativamente. Senti duas fortes pontadas na nuca, antes de me convencer de que tudo não passara de um sonho. Ninguém tentara me matar. Não havia nenhum velhote me cobrindo com um lençol de linho. Nenhum deus egípcio sentara-se ao meu lado, nem sorrira para mim.
*****************************************************************
A rosa de Jericó:
Havia, nos antigos desertos de Alexandria do Egito e nos afluentes do Mar Vermelho, uma planta muito curiosa e que também se chama “rosa”: é a rosa-de-jericó.
Totalmente diferenciada da rosa que conhecemos, essa planta tem uma propriedade muito curiosa. Durante longos períodos de tempo, essa planta, que vive em regiões desertas, cresce e se reproduz até o ambiente ficar desfavorável a ela. Então, as flores e folhas secas caem, as raízes se soltam e os galhos secos se encolhem, formando uma “bola” e permitindo que o vento a leve para onde quiser.
As rosas-de-jericó podem ser transportadas quilômetros e quilômetros pelos ventos, vivendo secas, sem uma única gota de água, durante muito tempo – até encontrarem um lugar úmido. Achando umidade, elas afundam raízes na terra e se abrem, voltando a verdejar!
A rosa-de-jericó é encontrada no Oriente Médio e na América Central. É possível comprar uma “bola seca” e depois, ajeitando-a num recipiente com um pouco de água, vê-la florescer na sua casa.
Contam as “Lendas do Céu e da Terra”:
A rosa-de-jericó é também denominada flor-da-ressurreição, pois, segundo afirmam alguns observadores curiosos, apresenta essa flor a propriedade singular de murchar para, depois, tornar a florescer. A sua origem está ligada à história do cristianismo por uma interessante lenda citada por vários autores:
Ao fugir de Belém com o Menino Jesus, a fim de livrá-lo da c***l matança ordenada pelo rei Herodes, a Sagrada Família viu-se forçada a atravessar as planícies de Jericó. Quando a Virgem desceu descuidada do burrinho que montava, surgiu, a seus pés, uma florzinha mimosa e delicada.
Maria sorriu para a pequenina flor, pois compreendeu que ela brotava, radiante, do seio da terra para saudar o Menino Jesus.
Durante a permanência de Cristo na terra, as rosas-de-jericó continuaram a florir e a embelezar os campos, mas quando o Salvador expirou na cruz todas elas secaram e morreram.
Três dias depois – reza a mesma lenda – quando Cristo ressuscitou, as rosas-de-jericó voltaram a florescer e a irradiar suave perfume.
Fonte: h***:://pt.aleteia.org/2016/02/17/cultura-crista-voce-conhece-a-exotica-rosa-de-jerico-e-sua-lenda/