— Vovô, acorda! Já amanheceu! — Emili gritou, pulando com toda a energia na cama. Nona tentava, em vão, segurá-la pelo braço.
— Menina, não pule na cama! É perigoso, você pode cair! — a governanta alertou, aflita.
— Nossa, que dor... — Nico resmungou ao se levantar, sentindo as juntas estalarem. — Não acredito que peguei no sono aqui mesmo.
— Bom dia, senhor — Nona saudou, organizando os travesseiros.
— Vovô, o senhor dormiu sentado!
— Dormi sim, pequena. Vem cá — Nico estendeu os braços e Emili pulou em seu colo. Ele fez o sinal da cruz na testa da neta, dando-lhe a bênção. — Que seu dia seja maravilhoso, pequena. Agora o vovô precisa ir; tenho uma reunião importante logo cedo.
— Obrigada, vovô! — Emili repetiu o gesto de Nico na cabeça dele e depositou um beijo carinhoso em sua testa. — Tenha um ótimo dia, e não esqueça o que me prometeu!
— Não vou esquecer, minha pequena. Agora vá se aprontar para a escola.
Nico a colocou cuidadosamente na cama e ela correu para o colo da Nona, seguindo em direção ao banheiro para começar a rotina. Nico saiu dali e foi para o seu próprio quarto. O banho quente ajudou a relaxar os músculos rígidos pela noite m*l dormida na poltrona. No closet, ele selecionou um terno de três peças impecável, aplicou seu perfume amadeirado favorito e ajustou o relógio de luxo no pulso. Apesar da idade, Nico era um homem extremamente conservado e imponente.
Ao sair do quarto, deu de cara com a neta já fardada.
— Nossa, vovô, como você está bonito! — Emili exclamou, cruzando os bracinhos e encostando o ombro na parede, imitando uma pose adulta.
— Você também está muito lindinha, pequena. Vamos descer para tomar café?
— Sim, mas hoje vou descer andando. Não quero amarrotar minha roupa — ela explicou com toda a sua seriedade infantil.
— Sim, senhora — Nico sorriu.
Eles desceram as escadas e foram para a sala de jantar, onde o restante da família já aguardava.
— Bom dia a todos — Nico anunciou, ocupando a cabeceira da mesa enquanto Nona ajudava Emili a se acomodar.
Os empregados começaram a servir o desjejum, respeitando a dieta específica de cada m****o da família.
— Papai, ficou sabendo que vai ter um mega evento na cidade amanhã? — Carmem perguntou, logo após tomar um gole de seu café.
— Fiquei sabendo, sim.
— E... eu posso ir?
— Não. Não quero vocês em eventos qualquer. Não quero nossa família saindo em jornais de fofoca ou difamando o meu sobrenome.
— Mas, papai, nós nunca mancharíamos o seu sobrenome! — Carmem protestou.
— Já disse que não, Carmem. Com licença, preciso ir. — Nico limpou os cantos da boca com o guardanapo de linho, levantou-se e depositou um beijo no topo da cabeça de Emili antes de sair a passos largos.
— Vamos, Emili? Se não, você vai chegar atrasada — Nona avisou, consultando o relógio de pulso.
— Vamos, Nona! — A menina desceu da cadeira. — Tchau, mamãe! Tchau, papai!
Ela deu um beijo em cada um e correu para o carro. Assim que chegaram à escola, Emili desceu e correu em direção à professora.
— TCHAU, NONA! — gritou a plenos pulmões antes de entrar no prédio.
De volta à mansão, o clima na mesa de café azedou.
— Por que o papai nunca me deixa fazer nada do que eu quero? — Carmem reclamou, indignada.
— Talvez porque, da última vez que você saiu, deu um vexame público ao lado do seu marido? — Augusto rebateu, ácido. — E falando nisso, onde ele está? Acho que já faz umas três semanas que não vejo o Iuri.
— Não enche, Augusto! Não tem por que você querer saber do meu marido. Com licença! — Carmem jogou o guardanapo sobre a mesa e saiu da sala pisando fundo.
— Ela não gostou nada de tocar no assunto... O que será que aconteceu? — Estefânia comentou, desconfiada.
— Certeza que ele está em algum lugar com outras mulheres — Augusto bufou, levantando-se. — Preciso ir, papai já deve ter chegado ao escritório.
Ele deu um selinho em Estefânia e saiu.
— Podemos retirar a mesa, senhora? — uma das empregadas perguntou.
— Claro. E, por favor, peça para levarem um chá e remédios para dor de cabeça ao meu quarto.
Estefânia saiu da sala de jantar e encontrou Nona no corredor.
— Nona, como foi com a Emili?
— Ela entrou toda sorridente, senhora. O caminho todo foi me contando o quanto está ansiosa para a noite de filmes com o avô.
— A raiva que eu nutri pelo avô dela durante a gravidez, ela transformou em puro amor e grude — Estefânia riu, embora sentisse a cabeça latejar. — Vou subir, essa dor de cabeça está me matando.
No Escritório da Família Cesarini
O ambiente no escritório era de caos absoluto.
— Eu não acredito no que está acontecendo! — Nico rugiu.
— Calma, senhor, vamos resolver isso — um dos assessores tentou intervir.
— Resolver? Isso nem deveria ter acontecido! Cadê aquele irresponsável do Iuri?
— Não sabemos, papai. Já faz três semanas que ninguém tem notícias dele — Augusto informou, revisando papéis.
— Isso é impossível! Nada passa despercebido pelos meus olhos!
Augusto suspirou.
— Juli, saia e resolva a sua parte. Vou ver o que consigo por aqui.
— Sim, senhor. Com licença.
— E demita aquela secretária inútil! — Nico gritou.
— Pai, se acalme. A culpa não foi dela. O Iuri fez tudo escondido, usando acessos restritos, e isso só veio à tona agora. Eu avisei ao senhor para não confiar nele.
— Eu sempre soube que ele não era flor que se cheirasse, por isso o mantive em um cargo baixo, apenas para ele sentir o gosto de trabalhar aqui. Mas veja o que esse desgraçado fez! Ele nos roubou! Ligue para a Carmem e mande ela vir aqui agora!
Augusto ligou para a irmã, que atendeu no segundo toque.
— Venha para o escritório agora. Não pergunte nada, apenas venha. AGORA! — Ele desligou sem esperar resposta e voltou ao computador. — O filho da mãe desviou bilhões da empresa, pai. Bilhões.
— Eu quero esse infeliz morto! — Nico socou a mesa com tanta força que os objetos saltaram. Em um acesso de fúria, jogou um copo de cristal contra a parede, estilhaçando-o.
Momentos depois, Carmem entrou na sala, pálida.
— Achei que tinha dito para vir rápido, Carmem — Augusto falou, ríspido.
— Desculpe, eu tentei, mas o trânsito...
— Deixe de ser mentirosa, não tem trânsito nenhum neste horário — Augusto a cortou.
— Onde está aquele i****a do seu marido? — Nico perguntou, a voz trêmula de ódio.
— Eu não sei! Já faz três semanas que ele não atende, não retorna ligações, não responde e-mails e nem visualiza minhas mensagens no w******p!
— E você, em nenhum momento, pensou em me dizer isso? — Nico gritou, aproximando-se dela.
— Não! Ele costuma sumir em viagens, achei que fosse normal!
— Normal? Você tem que deixar de ser otária, Carmem! Ele te trai na sua cara e você não faz nada! — Augusto entrou na discussão.
— Cala a sua boca! Você não sabe o que está falando! — Carmem levantou-se, enfrentando o irmão.
— Do que seu irmão está falando, Carmem? — Nico interveio, a voz agora perigosamente baixa.
— Você não sabe, papai? O seu querido genro trai sua filha em todas as viagens de negócios que faz! — Augusto disparou a verdade.
Carmem paralisou. Nico caminhou até ela e apertou seu braço, não com força, mas com firmeza.
— Por que nunca me contou isso, Carmem?
— Te contar para quê? O senhor nunca me escutaria! O senhor nunca me ouve! E quer saber? Bem feito por ter perdido esses malditos bilhões!
O silêncio caiu sobre a sala como uma bomba. Augusto estreitou os olhos.
— Opa, espera aí... Como você sabe que foram bilhões? Nós ainda não mencionamos valores com você.
— Não? Claro que mencionaram... você falou na hora que entrei — Carmem tentou se esquivar, nervosa.
— Pare de mentir, Carmem! Eu não disse nada disso. Você sempre soube o que ele planejava fazer, não é?
— Claro que não, papai! Ele nunca me contava nada do escritório. Ele só começou a agir estranho antes de sumir, mas nunca me deu detalhes.
— Chega de mentiras! — Nico exclamou. — Ou você me conta tudo o que seu marido fez e onde ele se esconde, ou você sai daquela mansão hoje mesmo e esquece que tem direito à minha fortuna.
— O senhor enlouqueceu? Eu já disse que não sei de nada! — Carmem começou a chorar, o desespero tomando conta. — A única coisa que ele me disse... a última coisa... foi que não demoraria muito para ele ter bilhões nas mãos para ir embora daquela mansão e acabar com o nosso casamento. É tudo o que eu sei, papai! Eu juro!
Nico a observou por longos segundos, medindo a veracidade do choro dela.
— Ok, Carmem. Vá para casa. Se tiver qualquer notícia desse i*****l, avise-me imediatamente.
— Sim, senhor — ela secou as lágrimas, pegou a bolsa e saiu da sala sem olhar para trás.
Assim que a porta se fechou, Nico virou-se para o filho.
— Quero que ative todos os rastreadores possíveis. Monitore os aparelhos e cartões da Carmem; esse desgraçado tem que aparecer por meio dela.
— Já fiz tudo isso antes mesmo do senhor pedir, pai. Também já alertei todos os nossos contatos. Vou ligar para um conhecido agora mesmo para ver se conseguimos informações do submundo. Esse rato não vai longe.