Prólogo: Onde Tudo Começou

1603 Words
​— Amor... — Estefânia chamou, a voz trêmula enquanto olhava para Augusto. Seus olhos estavam fixos no teste de gravidez em suas mãos, e o desespero lutava com a alegria. — Eu estou grávida. ​Augusto a envolveu em um abraço apertado, um refúgio contra o mundo lá fora. No entanto, o momento de paz durou pouco. A governanta da mansão interrompeu o casal com batidas secas na porta. ​— O seu pai está lhe chamando — avisou ela, saindo logo em seguida e fechando a porta com um estalo autoritário. ​— Vamos. — Augusto segurou a mão de Estefânia com firmeza. Eles desceram as escadas em silêncio até o escritório de Nico. Augusto deu dois toques leves na madeira pesada da porta e, ao ouvir o "pode entrar", os dois avançaram para o interior do cômodo carregado de fumaça de charuto. ​— Por que não me contaram que estão esperando um bebê? — Nico disparou, sem rodeios, de trás de sua mesa maciça. ​— Como soube? Nós acabamos de descobrir... — Augusto tentou argumentar, surpreso. ​— Não se esqueça de que, nesta casa, ninguém me esconde nada. ​— Eu sei, pai. Por isso mesmo já estávamos vindo contar ao senhor. ​— Acho bom. — Nico se inclinou para frente. — Vou mandar uma doula acompanhar todos os exames durante a gestação. Darei todo o suporte necessário. Assim que soubermos o sexo, faremos uma festa de comemoração e, é claro, se for menina, realizaremos imediatamente a festa de compromisso dos noivos. ​O sangue de Estefânia gelou. — Mas, pai... não podemos nem esperar a criança nascer para fazer essa festa? — Augusto questionou, sentindo o aperto da mão da esposa aumentar. ​— Não. A tradição é esta e temos que segui-la à risca. ​— Isso não pode ser verdade! — Estefânia interveio, as lágrimas começando a embaçar sua visão. — Meu filho tem que ter o direito de escolha! ​— De forma alguma — Nico sentenciou friamente. — Vocês sabem muito bem como funciona o legado da família. Vocês são parte de um todo, então obedeçam, ou haverá consequências. Agora, podem ir. ​Nico sentou-se, passando a mão pela testa como se o assunto estivesse encerrado. O casal saiu do escritório em estado de choque. Na sala, a copeira deixou uma jarra de água e retirou-se em silêncio. ​— Por que tínhamos que nascer nesta família? Por quê? — Estefânia desabou em pranto. Augusto tentou acalmá-la, mas suas palavras pareciam vazias diante do destino que já estava traçado. ​— Oi, família! — Carmem entrou na sala com um tom vibrante que contrastava com o funeral que parecia ocorrer ali. ​— Eu vou subir — Estefânia disse bruscamente, sem sequer olhar para a cunhada. ​— O que aconteceu com ela? — Carmem perguntou, confusa. ​— Nada importante. Com licença — Augusto respondeu seco, subindo as escadas apressado para alcançar a esposa. ​Enquanto isso, em outra mansão, o clima não era diferente. ​— Acabei de saber que a família Cesarini vai ter um bebê — anunciou Ricardo, entrando em seu escritório com passos pesados. ​— Então já sabemos: se for menina, nosso filho será comprometido a ela — Almerinda entrou logo atrás, fechando a porta com um clique definitivo. ​— Sim. Não temos muito o que fazer, está no testamento. Temos que dar um jeito de acabar com isso... esse negócio de testamento já está enchendo o saco! — Ricardo andava de um lado para o outro, impaciente. Ninguém mais suportava as amarras daquelas cláusulas arcaicas, mas o medo das consequências falava mais alto. ​Alguns meses depois ​Estefânia e Augusto estavam a caminho da clínica particular da família. O silêncio no carro era sufocante. ​— Olá, papais! Podem entrar — Elen, a médica, convidou-os com um sorriso profissional. Estefânia seguiu as instruções, preparou-se e deitou-se na maca fria. Assim que o gel gelado tocou sua barriga e o transdutor começou a deslizar, o coração de Estefânia disparou. — Então, vocês já querem saber o sexo ou farão um chá revelação? ​— Pode falar, Elen. Meu pai está ansioso em casa esperando a notícia — Augusto disse, embora sua voz revelasse mais nervosismo do que empolgação. Estefânia apertou a mão dele com força. ​— Já escolheram um nome para a menininha de vocês? ​— É uma menina? — Estefânia perguntou, a voz embargada. ​— É sim. E uma menina muito forte. Parabéns aos papais! ​Após as recomendações médicas e as vitaminas, o casal retornou para a mansão. Nico estava de pé no hall, como um vigia esperando o relatório. ​— É uma menina, pai — Estefânia limitou-se a dizer, subindo as escadas sem olhar para trás. ​— Que bom, meu filho! Vou fazer algumas ligações. Com licença — Nico disse, já planejando os próximos passos. ​— Quando faremos a festa de anúncio e de noivado? — Augusto perguntou, com um tom de derrota. ​— Assim que eu terminar as ligações, decidirei a data e passo para vocês durante o jantar. ​Nico trancou-se em seu escritório, enquanto Augusto buscou refúgio na cozinha. ​— Nona, peça para levarem algo para a Estefânia comer, por favor. Eu vou para o escritório da empresa agora. ​— Acabei de receber a ligação do senhor Cesarini — Ricardo comentou, servindo-se de uma dose generosa de uísque. ​— Então eles já sabem o sexo... e quando será a apresentação? — Almerinda perguntou, sem emoção. ​— No segundo sábado do próximo mês. ​— Ótimo. Agora me dê licença, tenho coisas a fazer. ​— O quê? Ir ao salão ou à depilação? — Ricardo ironizou. ​— Mas é claro, meu amor. Com licença. ​O Dia da Apresentação ​O salão de festas estava impecável, decorado com o luxo que apenas as duas famílias podiam comprar. Todos sorriam para as câmeras, escondendo as tensões por trás de joias e ternos caros. Nico subiu ao palco, assumindo o papel de mestre de cerimônias. ​— Caros amigos e família, obrigado por estarem aqui. Hoje comemoramos a notícia maravilhosa de que meu filho será pai — aplausos ecoaram pelo salão — e também a apresentação oficial dos noivos: Emili e Noah. ​Mais aplausos. Estefânia e Augusto subiram ao palco com passos pesados. Do outro lado, Almerinda, Ricardo e o pequeno Noah se juntaram a eles. Nico ficou no centro, unindo as linhagens para as fotos que selariam aquele contrato de sangue. ​— Esperava um pouco mais, esta festa está muito simples — Almerinda cochichou para Ricardo assim que desceram. Ele apenas revirou os olhos e virou seu drink. ​— Mamãe, o Noah e eu vamos brincar lá fora! — Roman, o outro filho, saiu puxando o irmão mais novo para longe daquela formalidade. ​— Esses meninos vão me deixar louca... Natália, vá atrás deles e não deixe que se machuquem! — Almerinda ordenou à babá. ​Augusto aproximou-se da mesa dos sogros de sua filha. — Boa noite, meus amigos. Desculpem a demora para vir cumprimentá-los. Ricardo e Augusto se abraçaram brevemente, seguidos por um aperto de mão formal com Almerinda. ​Estefânia, sentada em sua mesa, observava a cena sentindo um aperto no peito. Levantou-se bruscamente e foi para o banheiro, precisando de ar. ​— Está tudo bem, querida? — Carmem perguntou, saindo de uma das cabines. ​— Está sim... — Estefânia mentiu, jogando água fria na nuca. ​— Não sei por que você está assim. O seu casamento também foi decidido desse jeito. ​— Por isso mesmo! — Estefânia explodiu em um sussurro. — Não queria que minha filha passasse pelo mesmo. Eu sempre fui apaixonada pelo meu marido, mas e se ela não for? Ter que casar por obrigação, por causa de um "legado"... ​— Olha, respira fundo. Não quero ninguém passando m*l perto de mim — Carmem disse, prática. Ela conduziu Estefânia até o balcão do bar. — Um copo d’água com açúcar, por favor. ​Estefânia bebeu o líquido doce, tentando acalmar o tremor nas mãos. — Obrigada, Carmem. Vou chamar o Augusto para irmos embora. ​Ela encontrou o marido na mesa com Ricardo. — Vamos para casa? Estou exausta. ​— Olá, Estefânia — Almerinda saudou com um sorriso gélido, erguendo sua taça de champanhe. ​— Boa noite, Almerinda. Ricardo. — Estefânia forçou um cumprimento enquanto o marido se despedia. ​No carro, o silêncio durou até chegarem à mansão. Estefânia foi direto para o banho, deixando a água quente lavar a tensão do dia. Quando saiu, vestindo um pijama confortável, encontrou Augusto saindo do closet. ​— Amor... o que acha de fugirmos? — Estefânia perguntou, a voz pequena, mas decidida. — Assim a Emili não precisaria casar forçada com alguém que ela nem conhece. ​Augusto parou, olhando-a com tristeza. — O quê? Você está louca? Isso é algo que se planeje? Meu pai sabe até quando respiramos... se bobear, ele já deve estar prevendo essa sua ideia maluca agora mesmo. ​— Eu só queria tirar a Emili dessa situação. Não queria isso para ela... ​Augusto sentou-se na beira da cama e a puxou para perto. — Amor, eu prometo... vai ser a última vez que isso acontece. Eu também não aguento mais esse sistema. ​— Promete mesmo? ​— Eu prometo. — Ele a abraçou e beijou sua testa, embora, no fundo, ambos soubessem o peso da sombra de Nico sobre suas vidas.
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