— Amor... — Estefânia chamou, a voz trêmula enquanto olhava para Augusto. Seus olhos estavam fixos no teste de gravidez em suas mãos, e o desespero lutava com a alegria. — Eu estou grávida.
Augusto a envolveu em um abraço apertado, um refúgio contra o mundo lá fora. No entanto, o momento de paz durou pouco. A governanta da mansão interrompeu o casal com batidas secas na porta.
— O seu pai está lhe chamando — avisou ela, saindo logo em seguida e fechando a porta com um estalo autoritário.
— Vamos. — Augusto segurou a mão de Estefânia com firmeza. Eles desceram as escadas em silêncio até o escritório de Nico. Augusto deu dois toques leves na madeira pesada da porta e, ao ouvir o "pode entrar", os dois avançaram para o interior do cômodo carregado de fumaça de charuto.
— Por que não me contaram que estão esperando um bebê? — Nico disparou, sem rodeios, de trás de sua mesa maciça.
— Como soube? Nós acabamos de descobrir... — Augusto tentou argumentar, surpreso.
— Não se esqueça de que, nesta casa, ninguém me esconde nada.
— Eu sei, pai. Por isso mesmo já estávamos vindo contar ao senhor.
— Acho bom. — Nico se inclinou para frente. — Vou mandar uma doula acompanhar todos os exames durante a gestação. Darei todo o suporte necessário. Assim que soubermos o sexo, faremos uma festa de comemoração e, é claro, se for menina, realizaremos imediatamente a festa de compromisso dos noivos.
O sangue de Estefânia gelou.
— Mas, pai... não podemos nem esperar a criança nascer para fazer essa festa? — Augusto questionou, sentindo o aperto da mão da esposa aumentar.
— Não. A tradição é esta e temos que segui-la à risca.
— Isso não pode ser verdade! — Estefânia interveio, as lágrimas começando a embaçar sua visão. — Meu filho tem que ter o direito de escolha!
— De forma alguma — Nico sentenciou friamente. — Vocês sabem muito bem como funciona o legado da família. Vocês são parte de um todo, então obedeçam, ou haverá consequências. Agora, podem ir.
Nico sentou-se, passando a mão pela testa como se o assunto estivesse encerrado. O casal saiu do escritório em estado de choque. Na sala, a copeira deixou uma jarra de água e retirou-se em silêncio.
— Por que tínhamos que nascer nesta família? Por quê? — Estefânia desabou em pranto. Augusto tentou acalmá-la, mas suas palavras pareciam vazias diante do destino que já estava traçado.
— Oi, família! — Carmem entrou na sala com um tom vibrante que contrastava com o funeral que parecia ocorrer ali.
— Eu vou subir — Estefânia disse bruscamente, sem sequer olhar para a cunhada.
— O que aconteceu com ela? — Carmem perguntou, confusa.
— Nada importante. Com licença — Augusto respondeu seco, subindo as escadas apressado para alcançar a esposa.
Enquanto isso, em outra mansão, o clima não era diferente.
— Acabei de saber que a família Cesarini vai ter um bebê — anunciou Ricardo, entrando em seu escritório com passos pesados.
— Então já sabemos: se for menina, nosso filho será comprometido a ela — Almerinda entrou logo atrás, fechando a porta com um clique definitivo.
— Sim. Não temos muito o que fazer, está no testamento. Temos que dar um jeito de acabar com isso... esse negócio de testamento já está enchendo o saco! — Ricardo andava de um lado para o outro, impaciente. Ninguém mais suportava as amarras daquelas cláusulas arcaicas, mas o medo das consequências falava mais alto.
Alguns meses depois
Estefânia e Augusto estavam a caminho da clínica particular da família. O silêncio no carro era sufocante.
— Olá, papais! Podem entrar — Elen, a médica, convidou-os com um sorriso profissional. Estefânia seguiu as instruções, preparou-se e deitou-se na maca fria. Assim que o gel gelado tocou sua barriga e o transdutor começou a deslizar, o coração de Estefânia disparou. — Então, vocês já querem saber o sexo ou farão um chá revelação?
— Pode falar, Elen. Meu pai está ansioso em casa esperando a notícia — Augusto disse, embora sua voz revelasse mais nervosismo do que empolgação. Estefânia apertou a mão dele com força.
— Já escolheram um nome para a menininha de vocês?
— É uma menina? — Estefânia perguntou, a voz embargada.
— É sim. E uma menina muito forte. Parabéns aos papais!
Após as recomendações médicas e as vitaminas, o casal retornou para a mansão. Nico estava de pé no hall, como um vigia esperando o relatório.
— É uma menina, pai — Estefânia limitou-se a dizer, subindo as escadas sem olhar para trás.
— Que bom, meu filho! Vou fazer algumas ligações. Com licença — Nico disse, já planejando os próximos passos.
— Quando faremos a festa de anúncio e de noivado? — Augusto perguntou, com um tom de derrota.
— Assim que eu terminar as ligações, decidirei a data e passo para vocês durante o jantar.
Nico trancou-se em seu escritório, enquanto Augusto buscou refúgio na cozinha.
— Nona, peça para levarem algo para a Estefânia comer, por favor. Eu vou para o escritório da empresa agora.
— Acabei de receber a ligação do senhor Cesarini — Ricardo comentou, servindo-se de uma dose generosa de uísque.
— Então eles já sabem o sexo... e quando será a apresentação? — Almerinda perguntou, sem emoção.
— No segundo sábado do próximo mês.
— Ótimo. Agora me dê licença, tenho coisas a fazer.
— O quê? Ir ao salão ou à depilação? — Ricardo ironizou.
— Mas é claro, meu amor. Com licença.
O Dia da Apresentação
O salão de festas estava impecável, decorado com o luxo que apenas as duas famílias podiam comprar. Todos sorriam para as câmeras, escondendo as tensões por trás de joias e ternos caros. Nico subiu ao palco, assumindo o papel de mestre de cerimônias.
— Caros amigos e família, obrigado por estarem aqui. Hoje comemoramos a notícia maravilhosa de que meu filho será pai — aplausos ecoaram pelo salão — e também a apresentação oficial dos noivos: Emili e Noah.
Mais aplausos. Estefânia e Augusto subiram ao palco com passos pesados. Do outro lado, Almerinda, Ricardo e o pequeno Noah se juntaram a eles. Nico ficou no centro, unindo as linhagens para as fotos que selariam aquele contrato de sangue.
— Esperava um pouco mais, esta festa está muito simples — Almerinda cochichou para Ricardo assim que desceram. Ele apenas revirou os olhos e virou seu drink.
— Mamãe, o Noah e eu vamos brincar lá fora! — Roman, o outro filho, saiu puxando o irmão mais novo para longe daquela formalidade.
— Esses meninos vão me deixar louca... Natália, vá atrás deles e não deixe que se machuquem! — Almerinda ordenou à babá.
Augusto aproximou-se da mesa dos sogros de sua filha.
— Boa noite, meus amigos. Desculpem a demora para vir cumprimentá-los.
Ricardo e Augusto se abraçaram brevemente, seguidos por um aperto de mão formal com Almerinda.
Estefânia, sentada em sua mesa, observava a cena sentindo um aperto no peito. Levantou-se bruscamente e foi para o banheiro, precisando de ar.
— Está tudo bem, querida? — Carmem perguntou, saindo de uma das cabines.
— Está sim... — Estefânia mentiu, jogando água fria na nuca.
— Não sei por que você está assim. O seu casamento também foi decidido desse jeito.
— Por isso mesmo! — Estefânia explodiu em um sussurro. — Não queria que minha filha passasse pelo mesmo. Eu sempre fui apaixonada pelo meu marido, mas e se ela não for? Ter que casar por obrigação, por causa de um "legado"...
— Olha, respira fundo. Não quero ninguém passando m*l perto de mim — Carmem disse, prática. Ela conduziu Estefânia até o balcão do bar. — Um copo d’água com açúcar, por favor.
Estefânia bebeu o líquido doce, tentando acalmar o tremor nas mãos.
— Obrigada, Carmem. Vou chamar o Augusto para irmos embora.
Ela encontrou o marido na mesa com Ricardo.
— Vamos para casa? Estou exausta.
— Olá, Estefânia — Almerinda saudou com um sorriso gélido, erguendo sua taça de champanhe.
— Boa noite, Almerinda. Ricardo. — Estefânia forçou um cumprimento enquanto o marido se despedia.
No carro, o silêncio durou até chegarem à mansão. Estefânia foi direto para o banho, deixando a água quente lavar a tensão do dia. Quando saiu, vestindo um pijama confortável, encontrou Augusto saindo do closet.
— Amor... o que acha de fugirmos? — Estefânia perguntou, a voz pequena, mas decidida. — Assim a Emili não precisaria casar forçada com alguém que ela nem conhece.
Augusto parou, olhando-a com tristeza.
— O quê? Você está louca? Isso é algo que se planeje? Meu pai sabe até quando respiramos... se bobear, ele já deve estar prevendo essa sua ideia maluca agora mesmo.
— Eu só queria tirar a Emili dessa situação. Não queria isso para ela...
Augusto sentou-se na beira da cama e a puxou para perto.
— Amor, eu prometo... vai ser a última vez que isso acontece. Eu também não aguento mais esse sistema.
— Promete mesmo?
— Eu prometo. — Ele a abraçou e beijou sua testa, embora, no fundo, ambos soubessem o peso da sombra de Nico sobre suas vidas.