Capítulo 06

2199 Words
>> Maya >> Algum tempo depois... Os últimos dias foram extremamente corridos e estressantes. Coringa tem insistido todos os dias nessa ideia absurda de sermos amigos e deixarmos as indiferenças - que ele mesmo criou e fez de tudo para que se tornasse cada vez maior - de lado. Eu poderia jurar que ele está drogado, mas isso não seria novidade já que o Barbie da favela mais parece uma chaminé do que um ser humano de verdade. Algo fez ele mudar, e eu tenho certeza que ele tem um motivo por trás disso, por que o Guilherme que eu conheço desde menor e que fez todas as minhas memórias de infância nesse morro serem um inferno, não mudaria da água pro vinho em apenas uma noite... Minha vó tem tentado todos os dias me enlouquecer um pouco mais, e eu devo admitir que em muitas vezes ela quase conseguiu. Tudo o que eu faço é motivo para que ela esfregue na minha cara o quanto eu sou inútil e cada vez mais parecida com a minha mãe, ela grita comigo pelas mínimas coisas que eu faço de errado - como derrubar um garfo e sujar o chão de arroz. Outro dia ela até me fez sair de calça moletom e blusa com manga no sol quente porque toda a roupa que eu colocava antes dessa mostrava, desenhava ou decorava demais o meu corpo. Como se nada disso fosse o suficiente, e para piorar, eu tenho me sentido m*l com mais frequência, é enjôos, náuseas, tontura, fraqueza, cólica e muita dor de cabeça. Eu agora me encontrava no chão do banheiro do quarto da Carla, ela segurava o meu cabelo enquanto a minha pessoa colocava todo o macarrão que eu tinha acabado de comer para fora, eu não sabia mais o que fazer, nada do que eu comia ficava dentro da barriga e muita das vezes eu cheguei a chorar de fome por não conseguir sentir o cheio das coisas. Tem sido um sacrifício cozinhar para minha avó todos os dias, por que para ela o fato de eu estar doente não passa de uma frescura ou desculpa esfarrapada para esconder a minha preguiça. Eu me levanto do chão e vou direto para a pia lavando a boca, quando terminei eu me olhei no espelho e quase tomei um susto quando vi o meu reflexo. Eu estou com olheiras monstruosas, o rosto com espinhas e minha boca estava muito mais pálida do que o de costume. — Você tem certeza que não quer que eu te leve no postinho? — Carla perguntou, se colocando ao meu lado e me fazendo reparar fundo enquanto n**o com a cabeça. — Do que adianta? Eles só vão olhar para a minha cara, dizer que é virose e depois passar um remédio qualquer, que na maioria das vezes nem funciona — Disse com um sorriso fraco, tentando transmitir para ela toda a certeza que eu tinha e a morena de cabelo rosado revirou os olhos. — Você está se sentindo m*l há quase 3 meses, Maya. Isso não é normal! — A preocupação na sua voz era nítida, eu dei de ombros, caminhando em direção a sua cama e me sentando nela. — Relaxa, já já passa — Disse enquanto me deitava com a cabeça no travesseiro e fechei os olhos por alguns segundos deixando a minha mente vagar, mas o peso do olhar da minha amiga sobre mim, me fez abrir os olhos e olhar para ela. — O que foi? — Qual as chances de você tá grávida? — Ela perguntou, me fazendo sentar na cama em uma velocidade absurda e encarar ela por alguns segundos, seus olhos azuis graças às lentes de contato transbordavam uma mistura de dúvida e preocupação. — Quê?! — Franzi o cenho e acabei rindo — Zero! Eu não transei depois de… Eu me interrompi na mesma hora quando me toquei sobre onde as minhas palavras me levariam, e lembrar de tudo o que aconteceu, do baile, da transa, do Coringa insinuando que a gente transou sem camisinha e o fato de eu não ter tomado nenhum anticoncepcional, fez o meu cérebro gelar. Eu senti o líquido frio sair do meu corpo, enquanto o meu cérebro parecia girar dentro da minha cabeça. — Depois do Coringa? — Ela perguntou, me fazendo sair dos devaneios e olhar para a morena que me encarava com seriedade. — Mas vocês usaram camisinha, não foi? O Coringa sempre usa. Eu franzi a testa ao olhar para ela, que parecia tão preocupada com a situação do que eu, ela se levantou, começando a caminhar de um lado para o outro enquanto tinha a mão aterrissada na sua cabeça. — Para de andar igual uma barata tonta, você está me deixando nervosa — Exclamei, fazendo a mesma para na mesma hora e olhar para mim, eu apenas rir de nervoso e neguei com a cabeça — Eu não estou grávida, Carla. Eu não posso está! — Tem certeza? — Ela perguntou, com as mãos na cintura e eu afirmei com a cabeça depois de pensar por alguns segundos — Então não faz m*l fazer um teste, né? Ela começou a se abaixar para salvar os sapatos e eu franzi a testa, olhando para a minha amiga que dava alguns pulinhos para o sapato encaixar. — Para onde você vai? — Perguntei quando ela terminou de calçar e pegou duas notas de vinte da bolsa. — Para a Farmácia, óbvio. Já que postinho está fora de cogitação, é você fazer o teste e no mesmo segundo até a sua vó ficar sabendo — Ela soltou as palavras rapidamente sem parar para respirar e eu segurei o braço dela, impedindo que ela passe pela porta— Não adianta, Maya. Antes a gente saber agora do que depois, pelo menos ainda vai dá tempo de tirar se você estiver no comecinho. Ela se soltou da minha mão e passou pela porta, me deixando sozinha no quarto, eu olhei ao redor do quarto meio acinzentado e meio branco e respirei fundo. Eu sabia que no fundo ela estava certa, é melhor saber agora do que depois quando for tarde demais para tomar qualquer outra decisão. O que eu não sei é se eu tenho coragem de fazer aquele teste. [...] Acho que eu nunca fiz tanto xixi na minha vida. Carla era exagerada, ela comprou - literalmente - meio mundo de teste de gravidez e eu tive que fazer xixi em todos eles. Eu não estava cogitando uma gravidez, na verdade essa ideia absurda de está grávida daquele moleque me faz sentir calafrios só de imaginar. Mas a maneira como a Carla está esperando ansiosamente pelo resultado me fez ficar preocupada, os sintomas eu tinha, o ato de irresponsabilidade também, só me faltava agora a certeza. Mas se eu tiver… O que eu vou fazer da minha vida? Eu dei coentro para o meu peixe comer e matei ele de tanta comida que eu coloquei, imagina o que eu vou fazer com uma criança? — Calma! Maya, vai dar tudo certo — Ela se senta ao meu lado quando percebe a minha situação, eu estava me sentindo uma casca vazia, sem saber direito o que saber, o que sentir, o que falar… Eu só estava ali, esperando aquele maldito resultado. — E se der positivo? — Me virei para a mesma, e ela me encarou por alguns segundos. — A gente dá um jeito, eu tô aqui pra você — Ela disse, passando a mão nas minhas costas e eu sorri sem mostrar os dentes, apoiei a minha cabeça no ombro dela — Mas se você estiver.. Vai contar para o Coringa? Eu olhei para ela com os olhos um pouco arregalados, a ideia de que se aquele resultado der positivo o filho também será dele, fez o meu peito se apertar. Eu apenas fechei os olhos e respirei fundo me deitando novamente. — Eu não sei — Sentir a vontade de chorar me atingir e as lágrimas começarem a beirar a bolsa dos olhos, mas eu não vou me permitir chorar sem nem ter a certeza se eu realmente estou. As minhas maiores preocupações no momento era aquele teste e a reação da minha vó caso ele desse positivo. — Tá na hora. — Ela me comunicou. Encarei a porta do banheiro por alguns segundos e esperei a coragem aparecer, para me levantar e caminhar até a peça retangular feita de PVC. Abri a porta entrando no pequeno cômodo cheio de piso de cerâmica e peguei os seis testes de gravidez que estava em cima da pia, virei todos de uma única vez e senti o meu mundo desabar quando todos eles tiveram o mesmo resultado. Positivo! Eu estou grávida! Grávida aos 18 anos, sem teto e sem condições de criar uma criança e o pior, grávida daquele infeliz. Deus! Nem para engravidar de alguém que presta, eu sirvo. Tanto homem no mundo e eu fui engravidar logo aquele homem que faz de tudo para que a minha vida seja uma amostra do paraíso reverso. Eu saí do banheiro, com os testes na mão e com a expressão paralisada do meu rosto, eu não saberia descrever qual, mas não precisava de um espelho para saber que era uma careta de enterro. Carla olhava para mim ansiosa e com um sorriso de orelha a orelha, mas quando eu encarei a mesma, sem sorrir, acompanhei com os olhos o seu sorriso se desmanchando aos poucos, as lágrimas começaram a escorrer do meu rosto sem a minha permissão. E eu me permitir desabafar no mesmo momento que os braços da minha amiga me envolveram em um abraço quentinho e super protetor. — Eu tô… — Eu não falei mais nada, ela só colocou a minha cabeça no seu ombro e começou a fazer carinho no meu cabelo devagar. — Eu conheço um remédio bom, você pode tirar o bebê — Eu levantei a cabeça na mesma hora e encarei a minha amiga incrédula pelas suas palavras — Não me olha assim, Maya. Você tem 18 anos, mora com a sua avó, avó que vai te colocar para fora assim que descobrir que você está grávida e o pior, grávida de um grande i****a. Ela jogou os fatos na minha cara e eu sabia que ela estava certa, eu sou uma pobre coitada que mora de favor na casa da avó, que m*l ganha o suficiente para se sustentar, imagina sustentar uma criança. Mas… — Eu não sei se eu tenho coragem… — Como assim você não tem coragem? — Ela perguntou se alterando — Olha a sua situação, Maya. Acha mesmo que a sua vó vai deixar você continuar na casa dela quando souber que você está grávida? Na mesma hora que ela pronunciou a última frase, a porta foi aberta, fazendo com que nós duas nos direcionarmos para ela e encontramos um Luka completamente pálido e com os olhos arregalados. — Você está.. — Ele entrou no quarto, fechando a porta logo em seguida enquanto me olhava como se estivesse vendo um fantasma, eu apenas assentir com a cabeça e mostrei para ele os seis teste de gravidez, fazendo o moreno arregalar os olhos ainda mais — p**a que pariu! São seis?! Carla olhou para o irmão com o cenho franzido e eu continuei olhando para ele sem demonstrar nenhuma emoção, até que comecei a rir ao mesmo tempo que algumas lágrimas caiam do meu rosto. — Você tá rindo ou chorando? — Carla me pergunta com uma careta, e o Luka vem até mim, me colocando para sentar - no colchão - até eu conseguir me recuperar um pouco. — Eu não sei, Carla. Eu não sei nem o que vai ser de mim agora — Falei como se estivesse prestes a formar tudo para o alto e sair pelo mundo afora sem hora para voltar. Eu estava totalmente cansada da vida e de tudo ao meu redor só me trazer ainda mais infelicidade, a única coisa boa que eu tinha era os meus amigos, mas eu sabia que eles não poderiam fazer nada em um momento como esse. — Quem é o pai? — Luka perguntou, parecendo um pouco preocupado com a minha resposta. Eu respirei fundo, olhando para a Carla por alguns segundos antes de me virar para ele e encarar o seu rosto. — O Coringa — O Rosto do meu amigo perdeu totalmente a cor, ele realmente ficou mais pálido do que eu pensei que fosse possível ficar e eu apenas respirei fundo — Eu tô fudida. Eu voltei a chorar, sentindo o meu peito se apertar e a minha garganta se fechar à medida que meus pensamentos se encaixam e me mostrava a minha situação. O braço do Luka passou pelo meu ombro, me abraçando de lado e a Carla se sentou do meu outro lado pegando a minha mão. — Você não precisa contar para ele se não quiser, Já é? — Luka falou, me fazendo olhar para ele confusa — Pode dizer que é meu, assim você não fica m*l falada por aí caso decida ficar com a cria.
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