SEGUNDO ATO
"A Aurora, a Luz / A Luz, a Lua / A Lua, a Noite / A Noite..."
Nada se comparava a empolgação de entrar por aquele portão imenso. O campus estava movimentado, cheio de estudantes se cumprimentando, veteranos rindo alto nos bancos espalhados pelo jardim, calouros tentando se localizar. Guiando-se pelo fluxo de estudantes até o prédio principal, Selena observou os detalhes: a cantina, as paredes cobertas de cartazes sobre grupos de estudo, festas e projetos acadêmicos. Tudo era novo, e de alguma forma familiar. O prédio principal era imponente, com corredores largos e movimentados, cheios de estudantes apressados, animados ou perdidos como ele. A sensação de ser apenas um "entre tantos" rostos desconhecidos, foi logo substituída pelo sentimento de realização. Seguiu pelo corredor até a sala de aula, onde logo encontrou um lugar vazio ao centro, longe das primeiras filas, sem querer parecer reservada, e também por evitar chamar atenção logo de cara. Ajeitou a bolsa num canto e esperou o início da aula.
O professor entrou sem fazer muito alarde. Colocou a bolsa sobre a mesa e preparou seu material, falando com uma postura impessoal sobre a disciplina, as avaliações e o que esperava da turma. Nada muito assustador. Entretanto era fácil perceber que o ritmo seria puxado.
A dicção dele era precisa, didática, quase retórica. Falava sobre fisiologia comparada. Lançando um desafio para ver quem respondia qual a diferença entre a circulação sanguínea de um pequeno roedor, se comparada a de um elefante (maior mamífero terrestre).
Selena estava acostumada àquela linguagem técnica, para ela, o ensino médio e a faculdade pareciam iguais, mesmo que algumas palavras ainda soassem estranhas.
Uma garota, de cabelo preso, olhos saltados amendoados, sentada na carteira da frente, virou para ela comentando sem parecer nervosa:
— Estou entre função metabólica ou frequência cardíaca.
— Ah... acredito que seja por causa da pressão arterial... ou algo relacionado ao volume de sangue, mas não tenho certeza.
Selena disse, tentando acompanhar a ligação.
— Claro! Devo ter perdido essa explicação. Amélia — ela se apresentou.
O professor, notando que muitos alunos estavam meio confusos, começou a explicar detalhadamente as diferenças na fisiologia cardiovascular comparando coelhos e elefantes, e como isso afetava os cuidados clínicos para cada espécie. Selena anotou tudo, percebendo que a aula era mais teórica do que prática, o que, de certa forma, acentuava sua ansiedade em saber como esses conceitos seriam aplicados em sua futura profissão.
Ao final da aula, o ritmo continuava agitado, os grupos se formavam rapidamente. Alguns estudantes conversavam sobre matérias, outros discutiam as opções de clubes de debates ou os trabalhos que precisavam entregar.
— Pretende trabalhar com quais espécies? — perguntou Amélia curiosa.
— Ainda não sei exatamente. Me identifico com os felinos.
— Coincidência. Eu também. Especialmente os de grande porte. Acho fascinante — confessou Amélia. — tem algum trabalho extra sobre a aula de hoje?
— Bom, se precisar de ajuda com os conceitos de fisiologia, estou à disposição — acrescentou Selena.
Amélia agradeceu e se levantou.
Enquanto ela permaneceu refletindo sobre tudo o que fora discutido. Era uma sensação estranha, tanto quando empolgante.
As horas passaram rápido. Quando se deu conta, já estava em casa.
Ao abrir a porta, foi recebida pelo som familiar de miado. Estrela veio correndo até ela como se tivessem ficado semanas separadas.
— Também senti saudades — ela se abaixou fazendo um afago nos pelo da mascote, notando que as feridas estavam completamente cicatrizadas.
Jogou a mochila e sentou no sofá checando as mensagens.
Uma mensagem não lida.
“Me liga.”
Ela pressionando o botão de discagem.
— “Oi”
— “Oi.”
Respondeu ele.
— “Como foi o seu primeiro dia?”
— “Interessante, mas complicado. Como está aí?’
Ela se ajeitou curiosa para saber sobre a viagem.
— “Ah, tá sendo bem legal. Fiquei em um hotel que fica perto de uma praça.”
O celular vibrou.
Uma foto dele com a praça ao fundo. Do outro lado da tela, luzes entre árvores, e pessoas passavam caminhando sem pressa.
— “Fico feliz que esteja curtindo” — ela sorriu, pôs o celular de lado e suspirou.
A semana de um estudante de veterinária é composta geralmente por uma combinação de atividades teóricas e práticas.
Segunda-feira - Base Teórica e Encontro de Ideias.
O auditório da universidade estava repleto, os estudantes ansiosos. Selena escolheu um assento no meio da sala, onde pudesse observar as reações dos colegas. O professor iniciou a aula com uma apresentação sobre os fundamentos da fisiologia veterinária, ressaltando, entre outros aspectos, os mecanismos da circulação em diferentes espécies. Durante a explanação, Selena e Amélia, com quem estava acostumada a discutir os temas, anotava meticulosamente os conceitos apresentados desde o primeiro dia.
O diálogo se aprofundava durante o intervalo. Enquanto faziam revisão de pontos estratégicos da aula, outros se juntaram à elas, como parte do engajamento, ajudando a tirar duvidas sobre a complexidade dos termos técnicos que surgiam regularmente. Essa conexão inicial com os colegas serviu para aliviar a tensão e criar uma rede de apoio que prometia se fortalecer ao longo do estudo.
Quarta-feira - Laboratório e o Desafio em Grupo.
Na quarta-feira, o laboratório de clínica veterinária transformou-se em palco para a aula prática. Selena e os colegas se reuniram para enfrentar um simulado de emergência. O cenário era realista: um manequim de alta fidelidade simulava um cão Basset em situação crítica, com alterações na frequência cardíaca e dificuldade respiratória.
A primeira reação do grupo foi de inquietação. Éder, com seu jeito espontâneo e Hannah, a mais pratica, já se organizavam para as tarefas. Enquanto em companhia de Amélia, Selena se encarregava da análise dos sinais vitais. Com tranquilidade, ela e Amélia organizaram os dados do manequim e os relacionou com o que havia aprendido na aula teórica.
No centro da sala, o animal estava deitado sobre a maca, simulando um paciente em estado crítico. Ao lado de Selena, Amélia conferia as anotações do professor.
— Certo, temos que avaliar os sinais vitais primeiro.
Selena aproximou-se do manequim e começou a ler os dados na tela do monitor ao lado. A frequência cardíaca estava acelerada, a respiração superficial.
— Ele está com taquicardia e dificuldade respiratória — examinou.
Amélia anotou os dados no bloco de notas.
— Pode ser choque circulatório. Temos que estabilizá-lo.
Hannah pegou o medidor de pressão arterial.
— A pressão dele está baixa. Isso confirma o quadro.
— O que fazemos? Fluido-terapia?.— sugeriu Éder.
Selena tomou a frente da explicação.
— Algumas espécies são sensíveis a fluidos intravenosos. Se dermos muito rápido, podemos causar edema pulmonar. Para contornar, seria recomendável uma taxa de reposição controlada, com monitoramento constante.
Amélia fechou as anotações e acenou positivamente, e Hannah voltou a conferir os monitores.
— Éder, cuida da oxigenação. Amélia, monitora os sinais vitais. Selena, administra os fluidos.
Éder pegou a máscara de oxigênio e posicionou sobre o focinho do manequim.