Capítulo 2

1850 Words
“Banqueiro Carlos Gonçalvez é preso sob acusação de desvio e lavagem de dinheiro”, essa era a manchete que estava em muitos jornais e redes sociais. A fofoca se espalhou pelo condomínio como fogo em palha e todos já sabiam do escândalo dos Gonçalvez, todos já sabiam que o banqueiro estava preso e que sua esposa e filhas estavam ao léu, sem saber o que fazer.  No dia seguinte, Sônia foi a primeira a acordar, na verdade ela m*l dormiu, seus pensamentos não permitiram. Então, bem cedo, antes mesmo de sua filha acordar, ela saiu de casa, entrando em seu carro e dirigindo para fora do condomínio sob os olhares curiosos das senhoras ricas que faziam suas caminhadas matinais. Sonia rumou em direção a delegacia e não demorou mais que 40 minutos para chegar até lá.  Ela ainda não sabia o que fazer, mas sabia que nada nunca mais seria como antes. Só esperava que suas finanças não fossem afetadas, apesar de duvidar disso.  Entrou no local com o queixo erguido, estava vestindo suas melhores roupas e carregava uma prada que, com toda certeza, valia o preço de um dos carros estacionados no local. Assim que chegou a recepção, uma jovenzinha a olhou com as sobrancelhas erguidas, a funcionária sempre se surpreendia com o que aparecia logo cedo na delegacia, mas mulheres tão ricas não costumavam visitar o local tão cedo, então logo supôs se tratar da esposa do banqueiro ricaço que havia sido preso na noite anterior.  — Bom dia — Sonia falou, tirando os óculos escuros e jogando para trás os longos cabelos castanhos. — Estou aqui para ver o senhor Gonçalvez, meu marido.  — Senhora, aguarde um momento ali, por favor — ela falou, indicando algumas cadeiras na ala de espera. — A visitação começa em 15 minutos. Ouvindo isso, Sonia simplesmente seguiu até as cadeiras sem sequer agradecer ou dar qualquer resposta a funcionária que somente revirou os olhos e voltou a fazer seu trabalho, já habituada a comportamentos como aquele.  Enquanto esperava, a mulher sentia o coração acelerado e um arrepio subir por sua espinha, tudo ia de m*l a pior e, sempre que via alguma manchete sobre seu marido nos jornais locais, ela se sentia envergonhada e completamente perdida. Mas antes que voltasse a surtar num novo ataque histérico, um policial parou a sua frente e pediu que ela o seguisse.  Quando chegou a salinha pequena e parcialmente fechada se não por uma janela de vidro que dava para o corredor do lado de fora, ela viu seu marido, completamente desleixado e abatido, como quem não havia dormido a noite inteira. Mas não sentiu pena dele, estava tão nervosa quanto e ele estava ali por mérito próprio, tinha pena de si mesma, já que Carlos havia destruído tudo.  — O que significa isso, Carlos? — ela perguntou, assim que se sentou na frente deçle. — Você é um criminoso agora? — Como acha que eu sustentava você e nossa filha sendo que vocês gastavam mais do dobro do meu salário em luxos e futilidades? Se toca, Sonia! — Carlos falou sem se importar em chocar a mulher. — Não achei que tudo fosse acabar assim, mas acho melhor você aceitar que as coisas vão mudar muito.  — O que você quer dizer com isso? Você assume assim que estragou a minha vida e da nossa filha? Você nunca me disse nada disso e… E o que vamos fazer agora? — ela perguntou, claramente abalada.  Sônia estava vendo tudo o que sonhou desabar lentamente, bem devagar, e tinha medo, medo do que precisaria fazer a seguir, medo de precisar voltar à estaca zero, para a vida que tinha há quase 25 anos atrás.  — Agora acabou, Sonia, a maioria dos meus bens estavam no meu nome e vai ser tudo congelado, até o fim do processo eu não vou ter nada — ele falou, sem poupá-la dos detalhes. — Tudo o que tiver no nome de vocês em bens materiais continua sendo de vocês, mas eu nunca me preocupei em fazer isso, então…  — Está dizendo que vamos perder tudo? Nossa casa… Nada está no meu nome Carlos! — ela gritou, se levantando da cadeira e perdendo completamente a compostura, atraindo a atenção dos policiais que aguardavam do lado de fora. — Eu nunca vou te perdoar por isso!  — Nunca vai me perdoar pelo quê, Sonia? Por te tirar daquele muquifo em que você vivia? Por te dar vida boa todos esses anos? Você é uma ingrata mesmo! — ele falou, elevando o tom e apontando um dedo para ela. — Deveria me agradecer e me apoiar agora!  — Não vou apoiar um criminoso! Sabe o jeito que as pessoas estão me olhando na rua? — ela perguntou, sua voz trêmula e os olhos marejados mostravam o quão magoada estava. — O que vai ser da nossa filha agora, Carlos? O futuro dela foi para a put4 que pariu agora!  — Se você fosse mais inteligente teria feito suas economias, mas sempre foi uma fútil do caralh0, Sonia! Eu não posso fazer nada por vocês e outra, quero que venda as joias e pague os honorários dos advogados! — Carlos se levantou, caminhando até sua esposa com o ar controlado de sempre. — Se eu ficar mofando aqui as coisas vão ser piores! — Pois que fique aqui até m0rrer então! — ela falou, olhando para ele com raiva. — Se depender de mim você vai ficar o resto da vida nessa dr0ga de delegacia!  Então, antes que ele falasse qualquer coisa, Sonia ajeitou a bolsa sobre o ombro e seguiu para fora da sala, ignorando os gritos de Carlos, que chamava por ela e gritava as piores ofensas possíveis, sem se importar que estavam numa delegacia. Enquanto caminhava para fora, Sonia pegava o telefone e, pela primeira vez em 20 anos, discava o número que sabia ser de sua irmã, Carmelita, com quem não falava há muitos, muitos anos.  Do outro lado da cidade maravilhosa, numa casinha simples no morro da Babilônia, Carmelita fazia seu almoço de todo dia. A cozinha estava cheirando a seu delicioso feijão e o som da panela de pressão ecoava por todo o local. Ela era uma mulher de meia idade, filha mais nova de um casamento que durou até que a morte levou seus pais, juntos como deveria ser. Tinha cabelos castanhos como sua mãe, mas seus olhos eram claros e bastante expressivos, a pele n***a tinha um brilho bonito, era baixinha e um pouco rechonchuda.  Sempre muito simpática, enquanto preparava seu almoço Carmelita sempre deixava as janelas abertas, colocava ração para os gatinhos da rua na sua porta e cumprimentava todos que passavam por ali, todos a conheciam como a tia das cocadas e era assim que ela ganhava a vida, ninguém naquele morro fazia cocadas melhor que ela, e nem era tão simpático.  — Oh tia! — Mateus colocou o rosto na janela como sempre fazia, sem timidez alguma. — Minha mãe mandou eu pegar duas cocadas na notinha dela, ela vai levar para o hospital.  Mateus era, como Carmelita mesmo falava, um bom menino. Tinha 17 anos e era esforçado, fazia seus corres para ajudar a mãe e, apesar dos amigos meio tortos que tinha, sempre foi um rapaz que dava orgulho a todos que o conheciam, inclusive a ela. Tinha cabelos cacheados, que ele mantinha com um corte baixo nas laterais e alto em cima, permitindo que os cachos abertos formassem belas ondas castanhas, uma pele n***a e olhos de um tom de mel que faziam as meninas babarem aqui e ali. Sua mãe, Suzana, era igualmente gentil, uma mulher que havia criado seu filho sozinha depois de ser abandonada pelo ex-marido, que sumiu no mundo pouco depois do nascimento de Mateus, vivia louca por saber que seu filho era o alvo dos olhares e das cantadas de boa parte das meninas do morro.  — E aí, Mateus! Pode deixar que vou pegar as que ela mais gosta, as mais douradinhas — Carmelita falou, com um sorriso alegre, correndo na cozinha e embalando três cocadas num saquinho de papel, voltando até a janela e entregando para ele. — Coloquei uma de brinde pra tu! — Oh, tia, não precisava — ele falou, já abrindo o saquinho para pegar a cocada e comer um pedaço. — A mãe vai fazer plantão hoje, mas ela disse que amanhã passa aqui pra fechar a conta.  — Que isso, não se preocupem não! — ela respondeu, mas antes que pudesse continuar a falar, sentiu seu celular vibrar no bolso.  Carmelita pegou o telefone antigo, não gostava dessas coisas tecnológicas que os jovens amavam hoje em dia. Não reconheceu o número que estava estampado na tela, mas, como tinha o DDD local, decidiu atender, esperando que não fosse mais uma das irritantes ligações das operadoras, ou daquelas que ficam mudas e não servem para nada além de ocupar tempo.  — Já falei pra a senhora comprar um celular desses com câmera, tia — Mateus falou, apontando para o aparelho que ainda tinha teclado de botões. — Ninguém usa isso hoje em dia.  — Ah, menino, me deixe com meu celularzinho  —Carmelita respondeu rindo para ele e lhe dando um tapinha na nuca, atendendo o celular logo em seguida. — Alô?  Do outro lado da linha, Sônia levou alguns instantes para tomar coragem para falar. Ouviu a voz da sua irmã, mas não teve coragem de responder, não de imediato. Se sentia humilhada por precisar pedir ajuda a Carmelita, e também envergonhada, afinal, desde que se casou, se esqueceu completamente de tudo o que viveu com os pais, de onde veio.  Ouviu em algum momento a voz de um menino do outro lado, conversando com sua irmã e rindo com ela, ouvindo algo como “Deve ser aquelas ligações do presídio ou daquelas pessoas que tentam roubar dados”. As palavras a lembraram de que, se ela quisesse mesmo continuar com aquilo, teria que falar alguma coisa ou sua irmã desligaria.  — Carmelita? — Sonia chamou, com voz baixa e sussurrada. — Sou eu, minha irmã.   — Sonia? É você mesmo? — Carmelita perguntou, não evitando um sorriso, apesar do tempo distante, sua irmã ainda era sua irmã e ouvir a voz dela ainda alegrava seu coração. — Que saudade minha irmã! Que saudade!  Mateus viu os olhos da senhora brilharem com felicidade e, saindo de fininho deixou que ela falasse em particular, indo para casa para levar o que sua mãe havia pedido antes que ela se atrasasse.  Enquanto ele se distanciava, acenando para a tia das cocadas, Carmelita voltava para dentro e se sentava no sofá que havia em sua sala, ligando a TV enquanto conversava com sua irmã. A voz de Sônia estava estranha, ela sabia que havia algo errado e, quando ligou a TV e viu a manchete que parecia ser o carro chefe do jornal da manhã, ela percebeu que a ligação da irmã não era em vão.  Com toda certeza, aquele telefonema iria mudar muita coisa em sua vida. 
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