Narrado por Larissa Martins
O despertador do meu celular tocou às 04:00 da manhã como todos os dias, preciso acordar esse horário pra me arrumar e conseguir sair às 04:30, se não atraso meu trabalho e consequentemente perco o início da minha aula, a vida do pobre que quer trabalha e estuda é difícil e ainda insistem em dizer que todos tem as mesmas 24 horas...
Estiquei meu braço para desligar o alarme do meu celular, mas o movimento fez com que uma náusea subisse pela minha garganta. Sabe quando você acha que está prestes a vomitar? Pronto, eu estava me sentindo assim. Com a mão na boca tentando segurar o inevitável corri para o pequeno banheiro do meu apartamento e me inclinei diante do vaso esperando o vômito sair. Tentei forçar um pouco abrindo mais a boca, a sensação era péssima mas sabia que se eu não vomitasse não ia melhorar, mas infelizmente nada saiu, apenas um pouco de água e o gosto amargo que ficou na minha boca, estava sentindo tão m*l que um pouco de suor frio escorreu pelo meu rosto.
Não entendia o porquê estava tendo esses m*l estares, eu não costumo ficar doente mesmo com a minha rotina cansativa, na verdade acho até que meu corpo já se acostumou, também não lembro de ter comido nada estranho nos últimos dias que justificasse eu estar passando m*l assim. Respirei fundo e apoiei minha cabeça contra a parede do banheiro me convencendo que talvez fosse ansiedade e estresse, meu corpo estava acostumado a minha rotina cansativa mas ninguém é de ferro, não é mesmo? Todo mundo uma hora ou outra fica esgotado.
Recentemente venho tendo náuseas, minha menstruação também está atrasada, deveria ter vindo há 15 dias atrás e meus s***s estão sensíveis. Acho que realmente é estresse e ansiedade, mas dentro de mim alguma coisa diz que também pode não ser isso, sou uma mulher agora, tenho uma vida s****l ativa com um homem saudável. A suspeita de uma possível gravidez me deixa ainda mais enjoada, não pode ser. Deve ser coisa da minha cabeça, não estar grávida.
Me forcei a tomar coragem e tomar um banho, mesmo ainda enjoada precisava trabalhar, afinal precisava de dinheiro pra comer e pagar as minhas contas. Sai de casa às 04:30 como todos os dias, mas dentro do ônibus senti uma leve tontura e assim que desci na parada decidi comprar um teste de gravidez numa farmácia que ficava ali próxima. Eu precisava tirar esse peso da minha consciência. Como eu não tinha dinheiro sobrando, comprei o teste com o dinheiro do meu almoço do dia, isso seria problema pra uma outra hora.
Dei meu expediente e assisti minha aula como faço todos os dias, o teste de gravidez eu guardei dentro da minha bolsa pra fazer só no final do dia, hoje não havia visto o Ricardo, não sei se ele faltou ou se só não havia me procurado, mas também achava melhor assim, não seria bom encontrar ele na situação que eu me encontro. Depois que terminei meu expediente decidi fazer o teste no banheiro da universidade mesmo, o resultado não demorou a vir.
Duas linhas, eu sabia o que aquilo significava, eu estava grávida.
Olhei para aquele teste sem saber o que fazer, o desespero tomou conta de mim. Chorei, chorei muito, mas sabia que eu deveria procurar o Rico, não fiz o filho sozinha, ele iria me ajudar. Apesar de tudo sabia que ele era um homem responsável e não iria me abandonar em um momento como esse não é mesmo? A gente talvez não se casasse de imediato, mas ele iria assumir o filho.
Quando cheguei na cobertura de Rico toquei a campainha e abri a porta, eu sabia o código da fechadura. O apartamento de Rico estava cheirando a ele como sempre, ele apareceu no meu campo de vista com o celular preso entre o ombro e o ouvido rindo de algo que alguém disse do outro lado da linha.
--- Ah, é você. --- Ele disse desligando a ligação sem se despedir da pessoa com quem conversava e jogou o celular no sofá. --- Não me avisou que vinha Larissa. ---
Fiquei parada no canto da sala, minhas mãos estavam trêmulas dentro do casaco enquanto eu segurava o teste de gravidez escondido. Eu não sabia como contar ou o que fazer.
--- Eu preciso te falar uma coisa. --- Minha voz saiu baixa, mas baixa do que deveria. Ricardo estudou meu rosto e ele deve ter percebido que algo não estava certo pela minha cara, pois logo o sorriso dele sumiu.
--- Que foi? Parece que viu um fantasma? --- Ele deu uns passos se aproximando de mim, minha mente tava um turbilhão, mas achei melhor falar na lata.
--- Eu... Eu tô grávida. --- Disse tirando o teste de gravidez do meu bolso e estendendo pra ele ver.
Ricardo na mesma hora parou de andar, ele ficou completamente imóvel. Mas então, ele lentamente passou a mão pelo rosto, deu pra ver que seus dedos tremiam um pouco. Ele me olhou, me encarou e o olhar que ele me deu me deixou alarmada, nunca tinha visto aquele olhar antes.
--- Porr@, Larissa. --- A voz dele saiu áspera, cheia de raiva. --- Como você deixou esse c@r@lho acontecer?! --- Ele havia gritado, eu nunca tinha visto ele gritar antes. Parecia que eu havia levado um tapa na cara.
--- Eu deixei? Você tá falando sério Ricardo? --- Indaguei indignada com ele.
--- Você não tomava anticoncepcional? Eu mandei você tomar, eu comprei pra você tomar aquela merda Larissa! --- Novamente ele gritou ignorando completamente a minha pergunta.
--- Tomei, mas... --- Antes de eu terminar de falar ele me interrompeu.
--- Mas o quê porr@? Esqueceu? Achou que não ia precisar mais? Que era infértil? --- Ele começou a andar de um lado pro outro, seu corpo tava rígido e seu rosto vermelho. --- Porr@, eu sempre usei camisinha! --- Parecia que ele estava em outra dimensão, em outro mundo, tentando assimilar onde e no quê ele havia errado.
--- Nem sempre Rico, na nossa primeira vez você não usou e também teve aquela outra vez, lembra? Você disse que tava sem camisinha, mas não tinha problema, que dava pra fazer, lembra Rico? --- Nem havia percebido mas eu já estava chorando, a reação dele era diferente de tudo que eu havia imaginado. Assim que eu terminei de falar ele parou de andar e me olhou, sua mandíbula estava travada e suas mãos com o punho fechado.
--- Você podia ter dito não. --- Dessa vez sua voz saiu baixa, baixa e perigosa.
O ar saiu dos meus pulmões, parecia que ele havia me socado. Limpei as lágrimas que insistiam em continuar caindo.
--- Então é isso? Você vai me culpar? Eu não fiz esse filho com o dedo, não te obriguei a dormir comigo! --- Dessa vez quem gritou foi eu, Ricardo veio na minha direção, acabei dando um passo pra trás assustada, mas ele parou e foi em direção a sala onde fica o barzinho dele.
Ele voltou segurando uma garrafa de uísque e um corpo que ele começou a encher, suas mãos tremiam e li os lábios dele pronunciando um " c@r@lho ", o copo ficou tão cheio que chegou a derramar um pouco de uísque no chão mas ele logo virou o copo na boca e tomou tudo de uma vez.
--- O que você quer que eu faça Larissa? Te peça em casamento? Te dê parabéns e agradeça por ter engravidado? --- Ele perguntou me olhando debochado, na sua boca se formou um sorrisinho irônico. --- Já sei! Quer que te ajude a preparar o chá de bebê? É isso meu amor? --- Um ódio subiu pelo meu corpo, apertei meus punhos sentindo as unhas cravando na palma da minha mão.
--- Quero que você assuma a sua responsabilidade. --- Falei séria e firme o olhando, mas ele apenas riu, de forma seca, sem humor nenhum.
--- Esquece, não vai rolar. Cada um com os seus problemas. --- Pisquei meus olhos o encarando tentando entender se eu realmente havia escutado aquelas palavras, só podia ser imaginação minha.
--- O qu --- Antes de eu terminar de falar ele continuou.
--- Eu não quero um filho, não quero ser pai. --- Ele se aproximou mais um pouco me olhando com aquele olhar frio, que me fazia me arrepiar por inteira, mas não de desejo, nem de nenhum sentimento bom, mas sim de medo. --- E você não vai me obrigar a ter um. --- Pronto, ali tudo desmoronou.
Senti o chão desaparecer sob os meus pés. Eu podia imaginar muitas coisas do Ricardo mas nunca imaginei que ele seria capaz de fazer isso comigo, o olhei tentando entender quem era aquele homem na minha frente pois eu não o conhecia.
--- Você... Você quer que eu aborte? --- A minha voz saiu baixa, estava triste demais com tudo aquilo.
--- É a melhor opção. --- Ele respondeu simplesmente dando de ombros.
--- Eu não vou fazer isso. --- Sussurrei mas minha voz saiu firme, sou órfã, passei toda a minha vida sozinha, como que eu iria matar um filho meu? Uma vida que estava sendo gerada dentro de mim? Que tipo de mostro eu seria?
Ricardo novamente encheu o copo o virando todo de um vez antes de jogá-la contra a parede o fazer se estilhaçar. O copo quebrou na parede ao meu lado e acabei dando um pulo por causa do susto.
--- Então se vire Larissa. --- Ele respondeu pegando uma das chaves dos vários carros dele. --- Não vou assumir porr@ de criança nenhuma, não vou te ajudar. Vou sair e quando eu chegar, pro seu bem, espero não te ver mais aqui. --- Sua voz saiu diferente, muito diferente do que estava acostumada. Ele me olhou pela última vez e saiu.
Fiquei parada tentando assimilar tudo que havia acontecido, passei a mão na minha barriga ainda plana e apertei procurando forças, procurando proteção. Eu o amava, como eu o amava. Mas agora eu estava sozinha e não sabia o que fazer.