Capítulo 11: O Ponto Cego

1624 Words
As horas dentro daquele escritório de vidro temperado se arrastaram com a lentidão de uma tortura medieval. O relógio digital na mesa de nogueira de Thomas Vance parecia zombar da minha agonia, mudando os números em um ritmo letárgico. Lá fora, o sol de Nova York começava a se pôr, tingindo o céu de um laranja doentio que se infiltrava pelas janelas do salão principal, mas dentro do mezanino, a iluminação artificial e fria mantinha o ambiente estéril. Trabalhar ao lado dele era um exercício de exaustão mental constante. Thomas não gritava. Ele não me dava ordens absurdas relacionadas ao trabalho da galeria. Pelo contrário, ele era um profissional letalmente eficiente. Discutimos orçamentos, aprovamos esquemas de iluminação para as obras e revisamos os contratos dos artistas. Mas o verdadeiro jogo não estava nos papéis. Estava no espaço entre nós. Cada vez que eu me esticava para pegar uma caneta, o braço dele roçava no meu. Cada vez que eu lia um documento, sentia o peso do olhar cinzento dele queimando a lateral do meu rosto, estudando as minhas expressões em vez de olhar para os números. Ele havia transformado o oxigênio da sala em algo denso, pesado, impregnado com o cheiro amadeirado do perfume dele, me forçando a respirar a presença dele a cada segundo. Às dezessete horas em ponto, o telefone na mesa de Thomas tocou. A voz fina e trêmula da recepcionista da galeria ecoou pelo viva-voz. — Sr. Vance? Desculpe interromper, mas o Sr. Leo Thorne está aqui embaixo. Ele insiste em falar com a curadoria sobre a instalação da peça central dele. O Arthur tentou barrar, mas... — Deixe-o subir — Thomas cortou a recepcionista com uma voz gélida e apertou o botão, encerrando a chamada. Ele recostou-se na cadeira de couro, os olhos fixos na porta fumê. Eu me endireitei instantaneamente, sentindo uma faísca de alívio por finalmente ter uma terceira pessoa naquela sala para diluir a tensão. Leo Thorne era o nosso prodígio. Um artista urbano de vinte e poucos anos, rebelde, brilhante e insuportavelmente arrogante. Fui eu quem o descobriu grafitando um viaduto no Brooklyn e o trouxe para a Galeria Vértice. A porta de vidro se abriu com brutalidade. Leo entrou pisando duro, os coturnos sujos de tinta deixando marcas quase invisíveis no tapete impecável do mezanino. Ele usava calças jeans rasgadas, uma jaqueta de couro cheia de respingos neon e tinha os cabelos descoloridos bagunçados. Assim que os olhos de Leo me encontraram, a postura defensiva dele relaxou um pouco. Ele abriu um sorriso largo e familiar, ignorando completamente a presença imponente de Thomas na sala. — Maya! Aí está a minha salvadora — Leo caminhou até o meu lado da mesa, apoiando as mãos manchadas de tinta na borda de madeira e se inclinando na minha direção. — Você sumiu o dia todo. Aquele engravatado do Arthur está tentando colocar a minha escultura no canto leste do salão. No canto, Maya! A iluminação lá é um lixo. Você me prometeu o centro, sob a claraboia. Eu abri a boca para responder, pronta para acalmar os ânimos do artista, mas o ar na sala despencou uns dez graus subitamente. O som da cadeira de couro de Thomas rangendo foi baixo, mas soou como o gatilho de uma arma sendo puxado. Quando olhei para ele, a expressão de profissionalismo calculista havia desaparecido completamente. Os olhos cinzentos de Thomas estavam fixos em Leo. Não era um olhar de aborrecimento. Era o olhar de um predador que acabara de encontrar um intruso no seu território. — Sr. Thorne — a voz de Thomas saiu num tom mortalmente calmo, baixo e aveludado, mas carregada de uma hostilidade tão densa que fez Leo parar de sorrir na hora. — Acredito que não fomos apresentados. Eu sou Thomas Vance. O dono desta galeria. E da cadeira onde a sua salvadora está sentada. Leo piscou, finalmente voltando a atenção para o bilionário. O garoto era marrento, mas até ele percebeu a vibração assassina emanando do homem de terno azul-marinho. — Ah, o figurão de Wall Street — Leo tentou manter a pose, cruzando os braços. — Legal. Mas quem entende da minha arte é a Maya. A gente tem uma conexão. Ela sabe que a escultura precisa respirar no centro da sala. A palavra conexão foi como jogar gasolina em uma fogueira. A mandíbula de Thomas travou com tanta força que vi o músculo saltar sob a pele perfeita do seu rosto. Ele se levantou lentamente, abotoando o paletó com uma calma ensaiada que era aterrorizante. Ele contornou a mesa em passos medidos, postando-se entre mim e Leo. A diferença de altura e presença física era gritante. Thomas fez o artista parecer um garoto assustado. — A escultura ficará no canto leste. A iluminação será reajustada para atender às suas necessidades neon ridículas, e o senhor não dirigirá a palavra à Srta. Albuquerque a menos que seja estritamente necessário — Thomas ditou as regras, a voz fria como gelo, não deixando espaço para negociação. Leo recuou um passo, instintivamente intimidado, mas a rebeldia falou mais alto. — Você não entende de arte, cara. A Maya entende. Maya, fala pra ele... — Leo tentou olhar para mim por cima do ombro de Thomas. Foi um erro colossal. Em um movimento fluido e rápido demais para um homem daquele tamanho, Thomas deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Leo. Ele não o tocou, mas a forma como inclinou o corpo e olhou de cima para baixo fez o artista prender a respiração. — Deixe-me ser absolutamente claro, Sr. Thorne — Thomas sussurrou, e o tom de voz era puro veneno. — Você está aqui porque o seu talento é marginalmente lucrativo para o meu balanço financeiro. Mas eu posso arruinar a sua carreira antes mesmo de ela começar. Posso garantir que nenhuma galeria de Nova York até Paris aceite sequer olhar para os seus rascunhos. Portanto, você vai descer as escadas, vai aceitar o canto leste e, acima de tudo, não vai olhar, sorrir ou exigir absolutamente nada da mulher que trabalha para mim. Fui claro? O silêncio engoliu a sala. Leo engoliu em seco, o rosto pálido contrastando com os cabelos descoloridos. Ele olhou para mim uma última vez, esperando que eu o defendesse, mas o terror paralisou as minhas cordas vocais. Eu nunca tinha visto Thomas Vance mostrar as garras para outra pessoa daquela maneira. O controle absoluto dele havia rachado. — Beleza, cara. O canto leste serve — Leo murmurou, derrotado, dando passos apressados para trás até alcançar a porta. Ele saiu quase correndo, batendo o vidro atrás de si. Ficamos sozinhos novamente. Thomas permaneceu de costas para mim por vários segundos. Eu podia ver os ombros largos dele tensos, a respiração ligeiramente mais pesada que o normal. Ele estava tentando recuperar a máscara de indiferença corporativa. Foi nesse exato momento, observando a tensão nos músculos dele, que uma epifania clareou a minha mente. O meu coração acelerou, mas não de medo. De adrenalina. Thomas Vance era um mestre em manipular o meu psicológico. Ele usava as minhas memórias, o piano, as minhas roupas, o meu trabalho. Ele acreditava que me controlava porque eu sempre reagia com ódio e pânico. Mas o que acontecia quando o controle dele era ameaçado por outra pessoa? O ciúme dele era doentio. Irracional. E, pela primeira vez desde que esse pesadelo começou, eu vi o ponto cego daquele tabuleiro de xadrez. Se ele estava tão obcecado em me possuir a ponto de ameaçar destruir a carreira de um garoto só porque ele sorriu para mim, isso significava que eu não era apenas uma peça no jogo dele. Eu era a p***a do troféu. E um troféu tem poder sobre quem o deseja. Thomas finalmente se virou. Os olhos cinzentos ainda estavam escuros, tempestuosos. Ele caminhou de volta para a cadeira ao meu lado, os olhos cravados em mim. — Ele é indisciplinado — Thomas comentou secamente, ajeitando a gravata. — Terei que revisar o contrato de exclusividade dele. Eu não recuei. Não demonstrei medo. Pela primeira vez em dias, eu relaxei os ombros, me encostei na cadeira executiva e deixei um sorriso minúsculo, quase imperceptível, curvar os meus lábios. Cruzei as pernas sob a mesa, o som da seda esfregando contra si mesma ecoando alto no silêncio da sala. — Ele só estava elogiando o meu trabalho, Vance. Você não precisava ameaçar a carreira do garoto — minha voz saiu suave, polida e perigosamente calma. Thomas parou com a mão no mouse do computador. Ele me olhou, os olhos se estreitando enquanto analisava a minha súbita mudança de postura. A ausência de fúria na minha voz o deixou desconcertado por uma fração de segundo. — Eu protejo os meus investimentos. De todas as distrações — ele rebateu, a voz rouca, os olhos descendo involuntariamente para a curva das minhas pernas cruzadas antes de voltarem ao meu rosto. Inclinei-me ligeiramente para a frente, apoiando o cotovelo na mesa, reduzindo o espaço entre nós de propósito. Eu podia sentir o calor dele, mas, dessa vez, não me afastei. — Você não estava protegendo um investimento, Thomas — sussurrei, mantendo o contato visual intenso, deixando que ele visse que eu havia decifrado o enigma. — Você perdeu o controle. Você estava com ciúmes de um garoto de vinte anos usando coturnos sujos. O silêncio que se seguiu foi elétrico. O maxilar dele travou novamente, mas o brilho nos olhos cinzentos não era mais de superioridade fria. Era de uma fome perigosa. Eu havia cutucado o leão com vara curta, e, pela primeira vez, eu estava pronta para ver as consequências. Se a gaiola era de vidro, eu ia começar a usar os reflexos contra ele.
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