Bati a porta do meu escritório nos fundos da galeria com força suficiente para fazer os pequenos quadros nas paredes tremerem. Minhas mãos ainda carregavam a eletricidade daquele toque cínico de Thomas Vance. Eu precisava de respostas, e precisava agora. Me recuzava a ser a marionete assustada no teatro de um bilionário psicopata.
Sentei-me na cadeira giratória de couro, puxei o notebook da galeria para a minha frente e digitei o nome dele na barra de pesquisa.
Os resultados saltaram na tela em menos de um segundo, empilhando dezenas de artigos de revistas de finanças e colunas sociais. “Thomas Vance: O gênio silencioso de Wall Street”, dizia uma manchete da Forbes. “Vance Holdings adquire mais uma gigante do setor imobiliário”, estampava o Wall Street Journal. As fotos mostravam o mesmo homem que estivera a centímetros de mim: feições aristocráticas, terno impecável e aquele olhar cinzento, frio e impenetrável que parecia ver através da câmera.
Nascido em uma linhagem antiga da Europa, educado nas melhores universidades americanas, filantropo secreto, investidor anjo de dezenas de projetos culturais. No papel, Thomas Vance era o homem perfeito. O solteiro mais cobiçado e misterioso da alta sociedade.
Mas nenhum daqueles artigos mencionava o homem que invadia apartamentos à noite, que deixava rosas queimadas sobre pianos e que enviava mensagens privadas ditando os passos de uma mulher. Para o mundo, ele era um deus dos negócios. Para mim, ele era um predador meticuloso.
— O que você quer de mim, Vance? — sussurrei para a tela iluminada, sentindo uma frustração amarga subir pela garganta.
Eu não tinha conexões com o mundo dele. A holding dos meus pais era grande, mas a Vance Holdings estava em outro patamar, movendo engrenagens que eu sequer compreendia. Não fazia sentido. Aquela obsessão não tinha começado por acaso.
Fechei o notebook com um estalo e peguei meu celular. Se Thomas achava que eu ia ficar parada esperando o próximo movimento dele, ele tinha me subestimado drasticamente. Procurei na internet o serviço de chaveiros vinte e quatro horas mais bem avaliado de Manhattan e fiz a ligação.
— Quero a troca completa das fechaduras do meu apartamento. Hoje, às dezoito horas. E quero o sistema mais seguro e moderno que vocês tiverem em estoque — ordenei, com a voz firme, sem hesitação.
Se ele tinha a chave do meu refúgio, eu simplesmente mudaria as regras do jogo.
O restante do expediente na galeria passou como um borrão cinzento. Evitei Arthur e qualquer menção ao nome de Vance. Foquei toda a minha energia rebelde nos catálogos de arte, descontando a minha raiva na organização burocrática até que o relógio finalmente marcasse o fim do dia.
Às dezoito horas em ponto, eu estava na porta do meu apartamento no Queens, acompanhando o trabalho do chaveiro. O homem instalou uma fechadura eletrônica de última geração, com biometria e uma tranca reforçada de aço maciço que exigia uma senha numérica complexa de oito dígitos.
— Pronto, senhorita. Desse jeito aqui, ninguém entra sem que a senhora queira. Nem com reza braba — o chaveiro garantiu, guardando as ferramentas na maleta.
Paguei o serviço com um aceno, sentindo um peso enorme sair dos meus ombros. Digitei a nova senha, ouvi o estalo metálico e seguro dos pinos de aço se encaixando na parede e fechei a porta. Pela primeira vez em vinte e quatro horas, eu respirei de verdade. O meu espaço estava protegido de novo. Thomas Vance podia ter todo o dinheiro do mundo, mas ele não passaria por aquela barreira.
Deixei minha bolsa no sofá e fui direto para o banheiro. Eu precisava de um banho quente para lavar a tensão daquele dia longo e exaustivo. Deixei que a água escaldante caísse sobre os meus ombros, relaxando os músculos rígidos, tentando limpar a sensação do hálito dele na minha pele.
Quando saí do box, enrolada em um roupão felpudo, o vapor d'água cobria completamente o grande espelho acima da pia. Peguei uma toalha menor e limpei a superfície de vidro com as mãos, pronta para secar o meu rosto.
No segundo em que o reflexo ficou limpo, meu coração parou de bater. Meu estômago revirou e o ar sumiu completamente dos meus pulmões.
Escrito diretamente na condensação do vapor do espelho, com uma caligrafia elegante que eu reconheceria em qualquer lugar do inferno, estava uma nova mensagem:
"8-4-2-6-9-1-7-3. Uma senha interessante, Maya. Mas combinações numéricas não me mantêm longe da minha sinfonia. Tente trancar as janelas na próxima vez."
Dei três passos rápidos para trás, batendo com as costas na parede fria do banheiro, os olhos arregalados de puro pavor. A numeração no espelho era exatamente a senha que eu havia acabado de criar, minutos atrás, na privacidade da minha mente e dos meus dedos na fechadura nova.
Ele não tinha apenas a chave anterior. Ele tinha olhos dentro do meu próprio apartamento.
Minha respiração se tornou curta e desesperada enquanto a percepção do cerco me sufocava. Thomas Vance não estava apenas jogando; ele era o dono do tabuleiro. E a minha nova tranca de aço não passava de uma piada sem graça para ele.
(Continuação direta do Capítulo 3)
Minha respiração se tornou curta e desesperada enquanto a percepção do cerco me sufocava. Thomas Vance não estava apenas jogando; ele era o dono do tabuleiro. E a minha nova tranca de aço não passava de uma piada sem graça para ele.
Fiquei imóvel por longos minutos, ouvindo apenas o som da água que ainda pingava do chuveiro e o estalo acelerado do meu próprio coração. O pânico tentava rastejar para fora da minha garganta, mas o ódio que veio logo em seguida foi muito mais forte. Ele tinha câmeras ali. Tinha que ter. Como mais ele saberia os números exatos que digitei na parede da entrada?
— Você está me ouvindo, não está? — gritei para o espelho embaçado, minha voz ecoando pelas paredes de azulejo, rouca e carregada de fúria. — Isso é crime, seu desgraçado! Você acha que seu dinheiro te torna intocável?
Nenhuma resposta veio, apenas as letras escorrendo lentamente à medida que o vapor d'água começava a se dissipar no vidro.
Saí do banheiro pisando duro, puxando o roupão felpudo com força ao redor do meu corpo. Se Thomas achava que eu ia me trancar no quarto e chorar de medo, ele estava muito enganado. Eu ia revirar aquela casa de cabeça para baixo. Comecei pela sala, puxando as almofadas do sofá, olhando atrás dos quadros de arte urbana que eu mesma havia pendurado, verificando as frestas das estantes de livros e as saídas de ar condicionado.
Depois, fui para o piano de cauda. Examinei embaixo da estrutura de ébano, tateei a madeira fria e verifiquei cada canto onde um dispositivo de escuta ou uma microcâmera pudesse estar escondida. Nada. O apartamento parecia limpo a olho nu, o que tornava tudo ainda mais bizarro e assustador. O nível de tecnologia que ele estava usando para me monitorar era algo que eu só tinha visto em filmes de espionagem.
Cansada, com os dedos sujos de poeira e o corpo trêmulo de exaustão e adrenalina, sentei-me na beirada da cama. Peguei o celular sobre o colchão. Minha mente trabalhava a mil por hora. Eu não podia ligar para os meus pais; a primeira coisa que fariam seria me arrastar de volta para o Upper East Side e dizer "eu te avisei". Eu não daria esse gostinho a eles. E a polícia exigiria provas físicas que eu não tinha como ligar diretamente ao nome de um bilionário influente como Vance.
Eu teria que resolver isso nos termos dele. No tom dele.
Abri o navegador do celular e voltei à página de contatos da Vance Holdings que eu havia pesquisar mais cedo na galeria. Procurei pelo e-mail da assessoria direta ou qualquer canal que não passasse por filtros comuns de secretárias. Não encontrei nada além do padrão corporativo. Então, decidi arriscar. Peguei o número privado que havia me mandado a mensagem na noite anterior e digitei uma resposta rápida, com os dedos firmes sobre a tela iluminada:
"Você cruzou a linha. Eu sei quem você é, Vance. Eu vi o seu rosto hoje na galeria e senti o cheiro das pétalas queimadas nas suas mãos. Se você acha que a sua fortuna vai te proteger do que eu sou capaz de fazer para defender a minha vida, você está muito enganado. Afaste-se do meu apartamento."
Enviei a mensagem e joguei o aparelho no colchão, cruzando os braços. Fiquei encarando a tela escura, esperando. Um minuto. Dois minutos.
O aparelho vibrou, o visor acendendo no meio da penumbra do quarto. Meu estômago despencou, mas peguei o celular imediatamente.
"A fúria fica perfeita em você, Maya. Torna a sua melodia muito mais intensa. Mas não confunda o palco com a plateia; você ainda está no meu cenário. Vejo você amanhã na galeria. Não se atrase para o nosso próximo ensaio."
Deixei o celular cair sobre o colo, sentindo um arrepio gélido serpentear pelo meu pescoço. Ele não negou. Não se importou que eu soubesse a sua identidade. Thomas Vance estava jogando de peito aberto porque sabia que, naquele jogo psicológico sombrio, ele tinha todas as cartas na mão. E a Sinfonia do Caos estava apenas começando a ganhar corpo.