Capítulo 2: O Tom da Discórdia

1713 Words
A manhã seguinte nasceu cinzenta, condizendo perfeitamente com o estado dos meus nervos. Eu m*l havia pregado os olhos. Passei a noite sentada no sofá, com uma faca de cozinha sobre a mesa de centro, encarando o piano de cauda como se o próprio d***o fosse surgir de dentro dele a qualquer momento. A rosa branca com as pontas queimadas ainda estava lá, exalando aquele perfume adocicado que agora me causava náuseas. O bilhete com a caligrafia elegante parecia queimar meus olhos sempre que eu olhava na sua direção. Eu tinha duas opções clara: ligar para a polícia, que provavelmente trataria o caso como um trote ou paranoia de uma herdeira rica, ou usar o meu próprio orgulho como combustível. Escolhi a segunda. Minha família sempre me ensinou a nunca mostrar fraqueza, e eu não começaria a quebrar essa regra por causa de um stalker doente. — Você não vai me quebrar — sibilou Maya para o apartamento vazio, enquanto jogava a rosa e o bilhete dentro de uma gaveta da escrivaninha. Ela trancou o móvel e guardou a chave na bolsa. Aquilo agora era uma prova. Uma pista. Duas horas depois, eu cruzava as portas da Galeria Vértice. Meus olhos castanhos vasculhavam cada centímetro do salão, procurando por qualquer rosto familiar que parecesse suspeito. Os funcionários limpavam os vidros, os assistentes organizavam os catálogos, e tudo parecia irritantemente normal. — Maya! Ainda bem que você chegou — Arthur, o diretor-geral da galeria, veio em minha direção com um sorriso nervoso que ele só usava quando estávamos prestes a receber alguém muito importante. — Preciso que você assuma a recepção do nosso principal investidor. Ele acabou de chegar para uma visita surpresa e quer avaliar as obras da nova exposição. Ajeitei o blazer preto e respirei fundo, engolindo a exaustão. — Claro, Arthur. Quem é o homem do dinheiro? — Thomas Vance — o diretor sussurrou o nome com um respeito quase religioso. — Ele financia metade do circuito de arte moderna da costa leste. Seja impecável. Arthur se afastou, e eu me virei em direção à entrada principal da galeria. Meu coração, que já estava acelerado pelos eventos da noite anterior, falhou uma batida completa. Um homem avançava pelo salão. Ele vestia um terno sob medida cinza-escuro que delineava seus ombros largos e uma postura impecavelmente ereta. Seus cabelos negros estavam perfeitamente alinhados, mas foram os seus olhos que me paralisaram. Olhos cinzentos, frios e cortantes como lâminas de gelo. Havia uma aura de poder absoluto e perigo ao redor dele. O tipo de homem que não pedia permissão para entrar em um lugar; ele simplesmente o possuía. Quando nossos olhares se cruzaram, um calafrio idêntico ao da noite anterior — aquela sensação exata de estar sendo despida pela mente de alguém — atingiu o meu estômago com a força de um soco. — Sr. Vance, esta é Maya Albuquerque, nossa curadora assistente — Arthur nos apresentou, surgindo do nada. — Maya, o Sr. Vance. Thomas Vance deu um passo à frente, diminuindo a distância entre nós de um jeito que pareceu deliberadamente invasivo. Ele estendeu a mão longa e firme em minha direção. — É um prazer finalmente conhecê-la em pessoa, Senhorita Albuquerque — a voz dele era um barítono grave, aveludado e calmo. Um tom sério que carregava uma camada oculta de divertimento. Ao tocar a mão dele, uma corrente elétrica pareceu disparar pelo meu braço. A pele dele estava quente contra a minha, e o aperto foi firme, quase possessivo. Eu queria puxar minha mão de volta, mas meu orgulho me forçou a manter o contato visual, sustentando aquele olhar cinzento que parecia saber exatamente o que eu tinha feito nas últimas doze horas. — O prazer é meu, Sr. Vance — respondi, forçando minha melhor voz profissional, embora meus olhos semicerrados transmitissem toda a minha desconfiança. — Não sabia que grandes bilionários de Wall Street tinham tempo para inspecionar galerias logo cedo. Arthur engoliu em seco ao lado, claramente assustado com a minha audácia "esquentada". Mas Thomas apenas inclinou a cabeça de leve, o vislumbre de um sorriso cínico surgindo no canto de seus lábios bem desenhados. — Eu sempre encontro tempo para as coisas que capturam a minha atenção, Maya — ele disse, usando o meu primeiro nome sem qualquer permissão, sua voz descendo um tom. — Especialmente quando essas coisas mostram tanta... personalidade. Minha mandíbula se travou. O perfume que emanava dele, um amadeirado caro misturado com notas de tabaco, atingiu meus sentidos. E então, meu mundo vacilou por um segundo. Por trás daquela fragrância masculina e sofisticada, havia um rastro sutil, quase imperceptível, de algo doce e fúnebre. O cheiro de pétalas queimadas. Olhei para as mãos dele, para a forma como seus dedos longos se moviam com uma precisão cirúrgica enquanto ele ajustava o relógio no pulso. Uma onda de choque e fúria pura substituiu o sangue em minhas veias. Era ele. O homem de terno cinza parado na minha frente, o investidor intocável da galeria, era o monstro que tinha invadido a minha casa. Thomas percebeu a exata fração de segundo em que a ficha caiu para Maya. Ele viu a pupila dela se dilatar, o ritmo da respiração dela falhar e os nós dos dedos dela se tensionarem contra a lateral do corpo. A faísca de ódio e percepção que brilhou nos olhos castanhos dela foi a coisa mais excitante que ele já havia testemunhado. Ele se aproximou mais um centímetro, curvando-se levemente na direção do ouvido dela, aproveitando que Arthur havia se distanciado para pegar alguns catálogos. — Você parece não ter dormido bem esta noite, minha doce curadora — ele sussurrou, o hálito quente roçando a pele do meu pescoço, fazendo cada terminação nervosa minha gritar em alerta. — Espero que o ambiente da galeria seja mais... silencioso para você. Apertei os punhos, sentindo as unhas cravarem na palma da mão. Minha mente era um caos de puro ódio. Ele achava que podia brincar comigo no meu local de trabalho? Achava que eu ia desabar e chorar? Ele não conhecia a mulher com quem estava lidando. — O ambiente aqui é perfeito, Sr. Vance — respondi, dando um passo à frente, colando meu peito quase contra o terno dele, olhando fixamente naqueles olhos cinzentos com toda a fúria que eu possuía. — Eu adoro desafios. E garanto ao senhor que sei exatamente como lidar com pragas que tentam invadir o meu espaço. O sorriso de Thomas Vance finalmente se alargou, frio, predatório e genuinamente encantado. O jogo psicológico havia saído das sombras. A sinfonia agora tinha um rosto. — Excelente — Thomas murmurou, os olhos brilhando com uma promessa sombria. — Detesto músicas fáceis de tocar. Vamos ver até onde o seu fôlego aguenta, Maya. (Continuação direta do Capítulo 2) — Excelente — Thomas murmurou, os olhos brilhando com uma promessa sombria. — Detesto músicas fáceis de tocar. Vamos ver até onde o seu fôlego aguenta, Maya. Ele se afastou com passos calmos e aristocráticos antes que eu pudesse desferir um tapa bem no meio daquela cara limpa e cínica. O diretor da galeria, Arthur, ressurgiu segundos depois, segurando um calhamaço de papéis com as mãos trêmulas, completamente alheio ao fato de que o homem ao seu lado era um invasor psicopata. Thomas Vance voltou a adotar a postura do investidor polido e impecável, comentando sobre a disposição das luzes e a harmonia das telas com uma facilidade que me deu nojo. Eu permaneci estática no mesmo lugar, sentindo o meu peito arfar sob o blazer preto. Minhas mãos ainda estavam recolhidas em punhos, e a sensação do hálito quente dele no meu pescoço parecia ter deixado uma marca invisível e ardente na minha pele. O restante da manhã transformou-se em um teste de tortura psicológica. Como curadora assistente, fui obrigada a acompanhar o "tour" de inspeção. Thomas andava pelas salas com uma elegância predatória, fazendo perguntas técnicas sobre os artistas urbanos que havíamos selecionado. Toda vez que ele pedia a minha opinião, seus olhos cinzentos travavam nos meus, sustentando um diálogo silencioso e perigoso que Arthur jamais seria capaz de decifrar. “Eu sei onde você dorme”, o olhar dele dizia. “Eu vou te destruir”, o meu respondia, sem desviar um único milímetro. A minha herança de família — o orgulho ferrenho dos Albuquerque — era a única coisa que me mantinha de pé, impedindo que minhas pernas fraquejassem diante do absurdo daquela situação. Eu não ia dar o braço a torcer. Se ele achava que eu era uma boneca de porcelana que se quebraria ao descobrir a identidade do stalker, estava redondamente enganado. Eu era feita de faísca. Por volta do meio-dia, a visita finalmente chegou ao fim. Parados novamente no saguão principal, perto das grandes portas de vidro que davam para a avenida chuvosa, Thomas Vance despediu-se de Arthur com um aperto de mão formal. Em seguida, ele se voltou para mim. — Foi uma manhã extremamente produtiva, Senhorita Maya — ele disse, a voz barítona ecoando suavemente pelo mármore escuro. — A Vértice tem muita sorte de ter alguém tão... dedicada ao controle de qualidade. — Eu faço questão de inspecionar cada detalhe, Sr. Vance — respondi, destilando o máximo de sarcasmo que consegui disfarçar em um tom profissional. — Especialmente as surpresas indesejadas que aparecem sem aviso. Thomas soltou uma risada curta, um som baixo e rouco que fez meu estômago dar uma volta completa. Ele deu um passo para trás, ajeitando as abotoaduras de prata de seu terno cinza, e fez uma reverência sutil com a cabeça. — Nos vemos no próximo ensaio — ele sussurrou de forma que apenas eu pudesse ouvir, antes de se virar e cruzar as portas de vidro, onde seu motorista particular já o aguardava com um guarda-chuva aberto. Assim que o sedã preto de luxo sumiu no tráfego barulhento de Nova York, eu soltei o ar que nem sabia que estava segurando. Caminhei a passos largos até a minha mesa nos fundos da galeria, peguei a minha bolsa e tirei a chave da gaveta trancada do meu apartamento. Eu precisava de respostas, e precisava agora. Thomas Vance achava que mandava no show, mas eu estava prestes a quebrar a p***a da partitura dele.
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