O Grande Salão do Metropolitan Museum of Art havia sido transformado em um coliseu revestido de ouro para a elite de Nova York. A iluminação monumental refletia-se nas taças de cristal e nos diamantes ostentados pelas herdeiras e esposas-troféu que circulavam pelo ambiente. O som de um quarteto de cordas tocando Vivaldi no mezanino misturava-se ao zumbido contínuo das conversas corporativas disfarçadas de caridade.
E, no exato momento em que cruzamos as pesadas portas do salão, cada olhar daquela sala se voltou para nós.
Thomas Vance era uma lenda urbana em eventos como aquele. O magnata de Wall Street conhecido por sua frieza letal, por destruir empresas antes do café da manhã e por nunca, em hipótese alguma, trazer uma acompanhante para os leilões de gala. Vê-lo ali, impecável em seu smoking escuro, era um evento. Mas vê-lo com a mão grande e possessiva espalmada na base nua da minha coluna, guiando-me como se eu fosse a obra de arte mais cara do museu, era um escândalo.
O meu vestido n***o de veludo e a coleira de diamantes negros que ele havia prendido no meu pescoço atraíam os olhares como um ímã. Eu podia ouvir os sussurros cortando o ar enquanto passávamos pelos convidados. Homens engravatados me avaliavam com uma mistura de cobiça e intimidação, enquanto as mulheres me dissecavam dos pés à cabeça, tentando descobrir de onde eu havia saído.
— Mantenha o queixo erguido — Thomas murmurou, a voz grave roçando a ponta da minha orelha, causando um arrepio instantâneo. — Eles estão sentindo o cheiro de sangue. Não mostre a eles que você está sangrando.
— Eu não estou sangrando, Vance — respondi, forçando um sorriso polido e frio para um casal de investidores idosos que acenou para ele. — Eu estou apenas calculando qual desses abutres eu vou usar para testar a sua paciência.
Senti os dedos dele apertarem a minha cintura nua de forma imperceptível para o público, mas dolorosamente possessiva para mim.
— Não brinque com fogo esta noite, Maya. Eu a trouxe para ser vista, não para causar um incidente diplomático.
— Você me trouxe para exibir o seu poder. Mas esqueceu que a curadoria da família Albuquerque não é enfeite de braço de ninguém — sussurrei de volta, virando o rosto levemente na direção dele, mantendo o sorriso intacto.
Antes que ele pudesse rebater, fomos interceptados.
Um homem alto, de cabelos grisalhos penteados para trás e um terno de corte italiano espalhafatoso, bloqueou o nosso caminho. Era Julian Croft. Um colecionador de arte franco-americano conhecido por sua arrogância desmedida e por ser um dos maiores rivais de Thomas no mercado de aquisições hostis.
— Thomas! Mon ami! — Julian abriu os braços, um sorriso falso e predatório rasgando o rosto envelhecido. — Eu quase não acreditei quando vi o seu nome na lista de convidados confirmados. E vejo que finalmente decidiu trazer um pouco de cor... ou melhor, de escuridão encantadora, para a nossa noite.
Os olhos de Julian deslizaram pelo meu corpo de forma escancarada, demorando-se inaceitavelmente no decote vertiginoso das minhas costas. A mão de Thomas na minha lombar ficou tensa como aço.
— Julian — Thomas cumprimentou, a voz tão fria que poderia congelar o champanhe nas taças ao redor. Ele não estendeu a mão. — Esta é a Srta. Maya Albuquerque. Curadora chefe da Galeria Vértice.
Julian ergueu uma sobrancelha, fingindo surpresa enquanto pegava a minha mão enluvada em veludo e depositava um beijo úmido e demorado sobre os nós dos meus dedos. Tive que conter a ânsia de nojo.
— Curadora? Que exótico — Julian riu pelo nariz, soltando a minha mão e voltando a olhar para Thomas com deboche. — Achei que você tivesse comprado a Vértice apenas para brincar de mecenas, Thomas. Não sabia que os pacotes de aquisição agora incluíam brinquedos tão... articulados e deslumbrantes. Diga-me, minha querida, qual é a sua especialidade? Escolher a cor das molduras?
O insulto foi direto. Julian queria humilhar Thomas insinuando que eu era apenas uma garota de programa de luxo disfarçada com um título falso. O maxilar de Thomas travou. Vi o ombro dele se mover, o instinto assassino de Wall Street prestes a ser disparado contra o colecionador francês.
Mas eu fui mais rápida. Essa era a minha arena. E eu ia mostrar a Thomas que eu não precisava da proteção dele.
— Minha especialidade, Sr. Croft? — dei um passo à frente, desvencilhando-me sutilmente da mão de Thomas e ficando cara a cara com Julian. Minha voz saiu alta o suficiente para que os dois casais ao nosso redor parassem de conversar e prestassem atenção. — Minha especialidade é identificar fraudes. O que me faz lembrar da sua recente aquisição no mês passado no leilão de Genebra. Um suposto original de Rothko, correto?
O sorriso de Julian vacilou por um milésimo de segundo, mas ele manteve a pose.
— Ah, sim. Uma obra-prima do expressionismo abstrato. Trinta e dois milhões de dólares muito bem investidos. Algo que a sua pequena galeria no Queens jamais conseguiria abrigar.
Dei um sorriso de pena. O tipo de sorriso que destrói o ego de um homem adulto em segundos.
— Uma pena que você não tenha lido os relatórios de espectrometria da Universidade de Berlim antes de assinar o cheque, Julian — suspirei, pegando uma taça de champanhe da bandeja de um garçom que passava, segurando-a pela haste fina com uma elegância letal. — Se tivesse lido, saberia que o pigmento cádmio vermelho usado naquela tela só foi sintetizado comercialmente três anos após a morte de Rothko. Você não comprou uma obra-prima por trinta e dois milhões. Você comprou uma falsificação brilhante pintada em uma garagem em Praga.
O silêncio que se abateu sobre o nosso círculo foi ensurdecedor. O quarteto de cordas continuava tocando ao fundo, mas, ali, o ar havia sumido. Julian arregalou os olhos, o rosto ficando vermelho de humilhação. Pessoas ao redor começaram a sussurrar descaradamente. O grande colecionador franco-americano havia acabado de ser exposto como um t**o na frente dos maiores críticos do país, não por Thomas Vance, mas pela "garota de molduras" dele.
— I-isso é um absurdo! Uma calúnia! — Julian gaguejou, perdendo completamente o sotaque charmoso e a compostura.
— Não me culpe pela sua falta de pesquisa. Eu recomendaria que o senhor ligasse para a sua seguradora amanhã de manhã. Se é que eles já não cancelaram a apólice — dei um gole no champanhe, saboreando a vitória. — Com licença, Julian. A conversa estava fascinante, mas a ignorância me dá dores de cabeça.
Girei nos calcanhares, dando as costas para o homem em choque.
Ao fazer isso, expus completamente o decote profundo do meu vestido n***o não apenas para Julian, mas para Thomas. Quando levantei os olhos para o meu suposto "dono", o que eu vi me fez perder o fôlego.
Thomas não estava olhando para o rosto vermelho de Julian. Ele estava olhando para mim. Os olhos cinzentos estavam dilatados, escurecidos por uma luxúria tão violenta e por uma possessividade tão monstruosa que o ar ao redor dele parecia vibrar. Ele não estava irritado por eu ter tomado a frente. Ele estava completamente entorpecido e fascinado pela crueldade inteligente que eu havia acabado de demonstrar. Eu não era a boneca dele. Eu era a rainha do tabuleiro. E ele havia acabado de perceber o quão perigosa eu poderia ser solta no mundo.
Ele caminhou na minha direção, cortando o espaço entre nós como uma lâmina. Ignorando Julian e os sussurros chocados da multidão, Thomas parou na minha frente. A mão dele não foi para a minha cintura desta vez. Os dedos longos e quentes agarraram a minha nuca nua, bem acima da coleira de diamantes, apertando levemente a minha pele exposta na frente de todos.
Meu coração disparou. A taça de champanhe tremeu na minha mão.
— Você é absolutamente aterrorizante — ele sussurrou, a voz rouca, quase inaudível sob o barulho do salão, inclinando o rosto para tão perto do meu que eu podia sentir o calor da pele dele. — Você acabou de degolar um dos homens mais poderosos da sala usando apenas o seu vocabulário.
— Eu disse a você que não seria apenas a p***a do seu enfeite de braço, Vance — murmurei de volta, a respiração ofegante, presa na armadilha dos olhos dele. — Eu não preciso do seu dinheiro para humilhar quem entra no meu caminho.
O polegar dele acariciou a linha do meu maxilar, um toque lento, doentio e completamente possessivo que fez um arrepio subir pela minha espinha. A multidão inteira estava nos observando, mas para Thomas, não existia mais ninguém no Metropolitan Museum of Art.
— Eu nunca achei que você fosse um enfeite, Maya. Eu sei que você é uma arma — ele respondeu, a voz carregada de um desejo que ele não tentava mais esconder. — E ver você disparar contra os outros me faz perceber que uma gaiola de vidro no mezanino nunca será suficiente para conter o que você é.
O aviso estava dado. Eu havia vencido a batalha contra Julian e provado o meu valor perante a alta sociedade, mas, ao fazer isso, eu havia acendido uma fogueira no lado mais sombrio da obsessão de Thomas Vance. Ele não queria mais apenas me observar trabalhar. Ele queria me devorar.
O som agudo de um microfone sendo testado no centro do salão interrompeu a bolha de tensão elétrica que nos cercava. O leilão beneficente estava prestes a começar.
Thomas retirou a mão da minha nuca, mas agarrou o meu pulso com firmeza, entrelaçando os nossos dedos.
— Vamos, Srta. Albuquerque. A noite está apenas começando. E, acredite em mim, depois do show que você acabou de dar, eu farei questão de que ninguém mais nesta sala ouse respirar perto de você sem a minha permissão explícita.
Fomos conduzidos para as cadeiras de veludo na primeira fila, e, enquanto as luzes do salão diminuíam, eu percebi a gravidade do que eu havia feito. Eu havia quebrado a dinâmica de poder. Eu havia provado que era inatingível para os outros. Mas, aos olhos dele, eu havia acabado de dobrar o preço da minha própria alma.