O silêncio que se abateu sobre o mezanino de vidro foi absoluto, denso e carregado de uma eletricidade quase palpável. A minha provocação pairava no ar climatizado do escritório como uma granada sem pino. Eu havia esfregado na cara de Thomas Vance que o seu autocontrole impecável, a sua fachada de bilionário intocável de Wall Street, havia se desmoronado por causa de um garoto de vinte e poucos anos com tinta no rosto.
Eu esperava que ele negasse. Esperava que ele usasse o intelecto afiado e a arrogância natural para desviar do assunto e me colocar de volta na posição de funcionária submissa. Mas eu estava jogando contra um homem que não seguia as regras de ninguém, nem mesmo as dele.
O olhar tempestuoso e escuro de Thomas varreu o meu rosto. O músculo de sua mandíbula relaxou lentamente, e o brilho gélido em suas íris cinzentas foi substituído por um fogo brando, faminto e assustador.
Ele não disse uma palavra de imediato. Em vez disso, ele tirou a mão do mouse, apoiou as palmas abertas sobre a superfície de nogueira maciça e se levantou da cadeira executiva com uma lentidão predatória. O paletó azul-marinho moldava perfeitamente a largura de seus ombros, e a luz fria do escritório lançava sombras afiadas sobre as feições aristocráticas do seu rosto.
Meu instinto de sobrevivência gritou para que eu empurrasse a cadeira para trás e corresse, mas o meu orgulho — e uma atração doentia e inegável que queimava nas minhas veias — me manteve paralisada, com as pernas cruzadas e o queixo erguido.
Thomas contornou a mesa. Os passos dele eram completamente silenciosos no tapete grosso. Quando ele parou na minha frente, a presença física dele bloqueou a minha visão do resto do salão lá embaixo. Ele apoiou as duas mãos nos braços da minha cadeira, inclinando o tronco sobre mim. Eu fui forçada a encostar as costas no estofado para não colar o meu rosto no peito dele.
O perfume amadeirado, misturado com o cheiro de café forte, invadiu os meus pulmões, entorpecendo a minha linha de raciocínio lógico.
— Você acha que descobriu uma falha na minha armadura, não é, Maya? — a voz dele saiu em um sussurro grave e rouco que reverberou no meu estômago. — Você acha que expor o meu ciúme é uma espécie de vitória no nosso pequeno jogo.
— Eu não estou jogando, Thomas. Eu estou apenas constatando um fato — respondi, tentando manter o meu tom de voz tão gélido quanto o dele costumava ser. — Você ameaçou a carreira de um artista promissor porque não suportou vê-lo sorrir para mim. Isso não é controle corporativo. Isso é fraqueza.
Um sorriso sombrio, c***l e deslumbrante curvou os lábios dele.
Em um movimento brusco que arrancou todo o ar dos meus pulmões, Thomas tirou as mãos dos braços da cadeira, agarrou a minha cintura e me puxou para cima. Antes que eu pudesse processar o susto, as minhas costas bateram com força contra a borda da mesa de nogueira. Ele deu um passo à frente, prendendo o meu corpo entre a madeira fria e a parede sólida de músculos do tronco dele.
Minhas mãos voaram instintivamente para o peito dele, na tentativa inútil de criar algum espaço. Sob o tecido fino da camisa branca e da gravata de seda, eu podia sentir o calor absurdo do corpo dele e a batida forte e compassada do seu coração.
— Fraqueza? — ele murmurou, abaixando o rosto até que a ponta do nariz dele roçasse o meu. O hálito quente dele acariciou os meus lábios trêmulos. — Minha doce e teimosa curadora... Você confundiu fraqueza com posse. Eu não tenho a menor vergonha de sentir ciúmes do que é meu.
— Eu. Não. Sou. Sua — sibilei, cravando as unhas no peito dele.
A dor das minhas unhas não o afetou. Pelo contrário. Os olhos dele escureceram ainda mais. Thomas ergueu uma das mãos e prendeu os meus dois pulsos com facilidade, abaixando-os e prendendo-os contra a borda da mesa. Com a outra mão livre, ele tocou a lateral do meu rosto. Os dedos quentes traçaram a linha do meu maxilar, subindo até a nuca e embrenhando-se no meu cabelo castanho, desfazendo parte do coque apertado que eu havia feito de manhã.
— Você é. Você apenas não aceitou isso ainda — ele declarou, a voz vibrando com uma obsessão pura e crua que me fez estremecer da cabeça aos pés. — Você acha que eu n**o a minha obsessão por você? Eu não n**o nada, Maya. Cada vez que você respira perto de mim, cada vez que eu ouço o som da sua voz brigando comigo, cada vez que os seus olhos faíscam de ódio... eu quero consumir você inteira.
Meu coração estava batendo tão rápido e tão forte que eu achei que as minhas costelas fossem quebrar. O contato dos corpos, a força do aperto dele nos meus pulsos, o toque íntimo e perigoso na minha nuca... Tudo aquilo estava despertando uma tempestade elétrica no meu corpo. Eu o odiava. Eu odiava o que ele havia feito com o meu apartamento, com a minha memória do piano, com o meu trabalho. Mas, enquanto eu olhava para os lábios perfeitos a milímetros dos meus, uma parte aterrorizada de mim ansiava para que ele diminuísse a distância e me beijasse.
— Eu não senti ciúmes de um moleque de coturnos sujos, Maya — Thomas continuou, a voz baixando para um timbre ainda mais perigoso, o polegar dele acariciando o meu lábio inferior, fazendo a minha respiração falhar miseravelmente. — Eu senti uma necessidade visceral e assassina de arrancar os olhos dele só porque ele ousou olhar para a mulher que domina os meus pensamentos há anos. Se isso é ser fraco, então eu sou o homem mais frágil de Nova York. Mas nós dois sabemos que, no final do dia, é na minha mesa que você está presa. E é o meu nome que faz você tremer desse jeito.
Uma lágrima de frustração quente e traidora escorreu pelo canto do meu olho. Eu estava tremendo, e não conseguia disfarçar. O corpo dele estava tão colado ao meu que eu podia sentir cada linha, cada músculo retesado, cada sinal físico de que a provocação que eu havia feito havia despertado um monstro faminto.
Tentei virar o rosto, mas ele apertou os dedos na minha nuca, forçando-me a manter o contato visual.
— Você é um louco doente — sussurrei, a voz quebrando.
— E você é a minha cura. Ou a minha ruína. De qualquer forma, nós vamos afundar juntos — ele respondeu.
Achei que ele fosse me beijar. Todas as células do meu corpo gritaram em antecipação ao impacto brutal dos lábios dele contra os meus, misturando o ódio e o desejo em um coquetel letal. Mas Thomas Vance era o mestre do controle, mesmo quando admitia tê-lo perdido.
Ele não me beijou.
Em vez disso, ele inclinou a cabeça e depositou um beijo macio, lento e casto no canto da minha boca. O toque foi tão leve e tão contrastante com a violência das suas palavras que causou um curto-circuito no meu cérebro.
Ele se afastou devagar, soltando os meus pulsos e tirando a mão do meu cabelo. A ausência do calor do corpo dele me deixou com frio instantaneamente. Fiquei recostada contra a borda da mesa, respirando de forma irregular, os olhos arregalados, enquanto tentava reorganizar as minhas defesas despedaçadas.
Thomas ajeitou os punhos da camisa branca, arrumou o paletó azul-marinho e caminhou de volta para a sua cadeira executiva. A postura impecável e a expressão impassível estavam de volta, como se os últimos três minutos de insanidade absoluta nunca tivessem acontecido.
— Agora que já esclarecemos o nível da minha possessividade em relação a você, vamos aos próximos compromissos da galeria — ele disse, a voz voltando ao tom corporativo impecável.
Piscar para ele foi tudo o que eu consegui fazer. As pernas ainda estavam bambas. Esfreguei os meus pulsos, sentindo o fantasma do aperto dele marcado na minha pele.
— No próximo sábado à noite, ocorrerá o Leilão de Gala Beneficente do Metropolitan Museum of Art — Thomas anunciou, puxando um tablet para perto de si e deslizando o dedo pela tela de vidro sem olhar para mim. — É o evento de arte mais importante da temporada. Todos os críticos, todos os donos de galerias e os maiores acervos da Europa estarão lá. A Galeria Vértice precisa marcar presença para mostrar ao mercado o nosso novo poder de investimento.
— Arthur sempre vai a esses leilões — minha voz saiu fraca, rouca, quase inaudível. Piggarreei, tentando recuperar a dignidade e me afastando da mesa de nogueira.
— Arthur não vai. Arthur é irrelevante — Thomas rebateu friamente, erguendo os olhos para mim mais uma vez. O cinza das íris dele agora brilhava com uma promessa implacável. — Você vai. Como a minha curadora chefe e como a minha acompanhante oficial da noite.
— Eu não sou a sua acompanhante oficial, Vance. Eu não misturo a minha vida pessoal com os eventos de caridade da alta sociedade.
— Você fará exatamente isso neste sábado — ele determinou, o tom de voz não aceitando sequer a possibilidade de uma recusa. — Você queria me expor, Maya? Você achou que tinha ganhado uma vantagem ao desmascarar a minha obsessão? Pois bem. Eu vou mostrar a minha obsessão para toda a elite de Nova York. Quero que cada magnata, cada abutre e cada crítico de arte naquela festa olhe para você, com aquele vestido deslumbrante que eu vou escolher, e saiba exatamente ao lado de quem você caminha. Quero que todos saibam a quem a curadora prodígio da família Albuquerque pertence.
Cerrei os punhos, sentindo o sangue ferver novamente, a adrenalina limpando a névoa de luxúria que ele havia implantado no meu cérebro. Ele estava fazendo de novo. Estava armando o tabuleiro, mudando as peças de lugar, garantindo que eu estivesse cercada por todos os lados. A gaiola de vidro da galeria não era suficiente para ele. Ele queria colocar uma coleira em mim no centro do salão mais iluminado da cidade, para que o mundo inteiro fosse testemunha.
— Eu preferiria entrar naquele leilão morta do que pendurada no seu braço como um troféu — disparei, os olhos castanhos chispando de raiva.
Thomas deu o seu clássico sorriso cínico de canto de boca.
— Excelente. Porque a tensão entre nós será a obra de arte mais cara daquela noite. Esteja pronta às vinte horas de sábado, Maya. O motorista irá buscá-la. E não se preocupe com a roupa; deixarei algo muito especial separado no seu closet.
Ele abaixou os olhos para o tablet novamente, encerrando a conversa com a autoridade de quem sabia que havia acabado de aplicar um xeque-mate.
Eu estava encurralada. Se eu não fosse, perderia o meu emprego, a galeria seria prejudicada e as consequências sobre a minha família seriam catastróficas. Se eu fosse, eu assinaria publicamente o contrato de submissão ao império doente de Thomas Vance.
Encarei o perfil perfeito dele por mais alguns segundos. Eu estava prestes a entrar em uma guerra em que eu não tinha armas, mas eu estava determinada a não ser apenas uma baixa. Se ele queria me exibir no Metropolitan Museum of Art, eu faria questão de transformar aquele leilão de gala em um pesadelo inesquecível para o ego dele.