A madeira polida da porta da sala de reuniões principal parecia uma barreira entre o resto do mundo e o inferno que Thomas Vance havia criado para mim. Respirei fundo, sentindo o ar frio do ar-condicionado da galeria encher meus pulmões, e segurei a maçaneta de metal com firmeza. Eu conseguia sentir o peso sutil da bolsa de couro contra o meu quadril. A foto polaroid estava ali, guardada como uma lâmina afiada que eu pretendia cravar no ego daquele bilionário arrogante.
Empurrei a porta e entrei.
A sala estava na penumbra, iluminada apenas pelas grandes janelas de vidro que mostravam a chuva persistente lavando as ruas de Nova York. Thomas não estava sentado à mesa de vidro fosco. Ele estava de pé, de costas para mim, com as mãos guardadas nos bolsos da calça de alfaiataria preta, observando o tráfego lá embaixo. A silhueta dele era imponente, exalando um poder silencioso e perturbador.
— Feche a porta, Maya — ele disse, sem sequer se virar. A voz barítona e aveludada preencheu o espaço, fazendo os pelos dos meus braços se arrepiarem instantaneamente.
Bati a porta atrás de mim com força excessiva, deixando o estalo metálico da tranca ecoar como um tiro. Caminhei a passos firmes e parei do outro lado da imensa mesa de vidro.
— Arthur me disse que você exigiu uma reunião de curadoria — comecei, minha voz saindo fria, cortante e perfeitamente controlada. — Mas nós dois sabemos que você não dá a mínima para os catálogos de arte urbana, Vance. O que você quer?
Thomas soltou uma risada curta, um som baixo e rouco que vibrou no meu estômago. Ele se virou lentamente, revelando os olhos cinzentos e enigmáticos que me analisaram de cima a baixo com uma lentidão predatória. Ele notou as pequenas sombras de cansaço sob os meus olhos e o vinco de fúria na minha testa, e o sorriso de canto de seus lábios se alargou.
— Eu sempre aprecio a sua falta de rodeios, minha doce pianista — ele caminhou de forma fluida e elegante até a mesa, apoiando as duas mãos na superfície de vidro, inclinando-se ligeiramente na minha direção. — Vim verificar se o meu presente de meia-noite foi bem recebido. Você parecia... inspirada nas mensagens.
A menção ao presente fez o meu sangue ferver. Abri o zíper da minha bolsa com um puxão violento, enfiei a mão lá dentro e joguei a foto polaroid em cima da mesa de vidro, bem na frente dele. A imagem da minha silhueta dormindo na cama parecia um grito de socorro congelado no tempo.
— Você invadiu a minha casa enquanto eu dormia! — sibilei, dando um passo à frente, colando meu corpo contra a borda da mesa para ficar o mais perto possível dele. — Você tocou nas minhas coisas, roubou uma memória do meu avô e tirou essa maldita foto. Isso é doentio, Thomas. É stalkear, é invasão de domicílio, é crime! Eu tenho a prova bem aqui. O que te faz pensar que eu não vou direto para a polícia com isso?
Thomas olhou para a fotografia por um breve segundo e depois voltou os olhos cinzentos para os meus. Não havia um único traço de medo, surpresa ou arrependimento nas feições aristocráticas dele. Pelo contrário; os olhos dele faiscaram com uma intensidade que quase me fez dar um passo para trás.
— Vá em frente, Maya — ele desafiou, a voz descendo para um tom perigosamente calmo e sussurrado. — Pegue o seu celular, ligue para as autoridades ou caminhe até a delegacia mais próxima com essa imagem na mão. Diga a eles que um dos homens mais influentes de Wall Street entrou no seu apartamento no Queens sem deixar marcas nas fechaduras de última geração que você acabou de instalar. Diga que ele deixou uma partitura antiga e tirou uma foto sua.
Ele deu a volta na mesa com passos lentos, cercando-me até que eu estivesse encurralada entre o seu corpo e a parede de vidro fosco da sala. A presença física dele era sufocante, o perfume amadeirado caro misturado ao cheiro invisível de pétalas queimadas invadindo todos os meus sentidos. Ele ergueu a mão longa, os dedos pairando a milímetros do meu rosto, sem me tocar, mas controlando o meu espaço.
— Eles vão pedir registros de segurança, imagens de câmeras, impressões digitais. E adivinhe o que vão encontrar? — ele continuou, o hálito quente roçando a minha bochecha. — Absolutamente nada. Para o mundo, eu sou o benfeitor que está salvando esta galeria da falência. Para o mundo, você é a curadora talentosa de uma família rica que está tendo um colapso nervoso pelo estresse do trabalho. Ninguém vai acreditar em você, Maya. Porque no meu cenário, eu controlo até as testemunhas.
A verdade das palavras dele me atingiu como um soco no estômago. O desespero tentou subir pela minha garganta, mas o orgulho Albuquerque me manteve firme. Eu cerrei os punhos, olhando diretamente naquelas pupilas cinzentas.
— Por que eu? — perguntei, a voz saindo em um sussurro carregado de ódio e frustração. — Com tantas mulheres no mundo, com tanta gente para você manipular com o seu dinheiro doente... por que gastar o seu tempo comigo?
Thomas mudou de postura. O sorriso cínico desapareceu por completo, substituído por uma expressão séria, sombria e absurdamente possessiva. Ele se aproximou ainda mais, o peito quase colado ao meu, e segurou o meu queixo com os dedos firmes, forçando-me a sustentar o seu olhar avassalador.
— Porque você é a única que não se curva, Maya — ele confessou, a voz barítona vibrando com uma paixão unilateral e perigosa que me fez estremecer. — Desde a primeira vez que vi você tocar aquela Sinfonia do Adeus, anos atrás, eu soube que a sua melodia pertencia à minha vida. Você tenta construir essa casca de independência, tenta fugir do controle dos seus pais, mas a verdade é que você foi feita para o caos. O seu ódio, o seu orgulho, a forma como os seus olhos faíscam quando você tenta me destruir... tudo isso me fascina. Eu não estou gastando tempo. Estou regendo a nossa história.
O toque dos dedos dele na minha pele enviou uma descarga elétrica violenta pelo meu corpo, um calor confuso e magnético que eu odiava com todas as minhas forças. Eu queria cuspir na cara dele, queria bater nele até tirar aquele olhar de posse, mas uma parte profunda e assustada de mim sabia que ele estava ganhando terreno.
Afastei o rosto com um movimento brusco, livrando-me do toque dele.
— Eu não sou a sua música, Vance — ameacei, ajeitando o meu blazer com os dedos trêmulos. — E o seu concerto vai terminar em tragédia.
Thomas deu um passo para trás, ajeitando as abotoaduras de prata com a sua calma irritante de sempre. O sorriso predatório retornou aos seus lábios.
— Vamos ver quem vai conduzir o próximo ato, minha doce curadora — ele disse, caminhando em direção à porta. Antes de sair, ele parou e olhou por cima do ombro. — Deixe os catálogos prontos. Às oito da noite, meu motorista estará esperando por você na frente da galeria. Temos um jantar de negócios com os investidores da exposição. E você vai usar o vestido vermelho que deixei no seu armário hoje de manhã. Não se atrase.
A porta se fechou com um clique suave, deixando-me sozinha na penumbra da sala. Corri até a mesa, pegando a foto polaroid com as mãos trêmulas. Ele tinha entrado no meu apartamento de manhã também. Ele tinha deixado um vestido no meu armário. O cerco estava se fechando de forma asfixiante, e a percepção de que ele estava ditando cada passo da minha vida me fez querer quebrar o vidro daquela sala. Thomas Vance achava que eu ia vestir o uniforme dele, mas eu estava prestes a transformar aquele jantar em um campo de batalha.