O último acorde da Sinfonia do Adeus pairou no ar frio da cobertura por longos e torturantes segundos, como um fantasma relutante em desaparecer. O som vibrante das cordas de aço do piano Steinway foi engolido lentamente pelo silêncio da noite de Nova York, deixando para trás apenas o som irregular e pesado da minha própria respiração.
Minhas mãos continuavam suspensas sobre as teclas de marfim, congeladas. Meus dedos tremiam violentamente. A represa que eu havia construído ao redor das minhas memórias havia se rompido de uma vez só, e as lágrimas quentes e silenciosas traçavam caminhos molhados pela minha maquiagem, pingando no meu colo sobre o tecido escarlate do vestido.
Eu me sentia completamente esvaziada. Ocultar aquela dor por tantos anos havia sido a minha maior força, mas expô-la ali, sob a coerção implacável de Thomas Vance, foi como ter a minha alma dissecada em cima de uma mesa de cirurgia.
Senti o peso do corpo de Thomas se deslocar atrás de mim. Ele não disse uma palavra durante toda a execução da peça. Ele apenas absorveu cada nota, cada falha na minha respiração, como se estivesse bebendo a minha vulnerabilidade. As mãos grandes e quentes dele deslizaram dos meus ombros nus, descendo lentamente pelas minhas costas expostas até pararem na minha cintura. Ele se curvou, apoiando o queixo no meu ombro, o rosto pressionado contra o meu pescoço.
— Magnífico — ele sussurrou. A voz barítona estava rouca, carregada de uma reverência sombria e de uma obsessão doentia que fez os pelos dos meus braços se arrepiarem. — Eu sabia que a sua dor era a coisa mais linda que você escondia do mundo, Maya.
Fechei os olhos com força, incapaz de reunir energia suficiente para empurrá-lo. A adrenalina que havia me mantido de pé durante o jantar e a discussão havia evaporado por completo, substituída por uma exaustão física e mental tão profunda que meus ossos pareciam feitos de chumbo. Eu havia perdido. Naquela noite, naquele tabuleiro específico, o rei havia encurralado o peão.
— Eu odeio você — minha voz não passou de um fio frágil e quebrado no meio da penumbra.
Thomas virou o rosto levemente, os lábios roçando a pele sensível logo abaixo da minha orelha.
— Eu sei. E eu aceito o seu ódio, desde que ele seja exclusivamente meu — ele respondeu, com uma calma aterrorizante.
Ele não me forçou a me levantar. Em vez disso, Thomas escorregou os braços por baixo dos meus joelhos e ao redor das minhas costas, erguendo-me do banco do piano com uma facilidade absurda, como se eu não pesasse nada. Minha cabeça pendeu involuntariamente contra o peito largo dele, sentindo a batida lenta e controlada do seu coração através do tecido da camisa social. Eu estava exausta demais para lutar. O choque emocional da chantagem e da música havia ativado um mecanismo de defesa no meu cérebro que simplesmente me desligou. O perfume amadeirado dele foi a última coisa que registrei antes que a escuridão absoluta tomasse conta da minha mente.
Quando abri os olhos novamente, a claridade ofuscante da manhã feriu as minhas pupilas.
Pisquei várias vezes, desorientada. O cheiro de chuva e asfalto havia sumido, substituído pelo aroma sutil de amaciante caro e linho fresco. Tentei me sentar, mas o meu corpo inteiro protestou com uma rigidez dolorosa. Olhei ao redor. Eu não estava no meu quarto modesto no Queens. Eu estava deitada no meio de uma cama colossal de pilares escuros, coberta por lençóis de seda cinza que pareciam macios como nuvens.
O pânico atingiu o meu peito como um soco. Joguei as cobertas para o lado em um salto defensivo.
Foi então que percebi que não estava mais usando o vestido vermelho de f***a. Eu vestia uma camisa social masculina branca, imaculada, que descia até o meio das minhas coxas. O tecido cheirava a Thomas.
Minhas mãos voaram para os botões da camisa, o coração disparando contra as costelas. Minhas roupas íntimas ainda estavam ali, intactas. Eu não sentia dor física, não havia marcas novas além da vergonha avassaladora de ter dormido e sido despida dentro do ninho da serpente. Quem havia tirado o meu vestido? Ele? Uma funcionária? A ideia de que ele me tocou enquanto eu estava inconsciente fez o meu sangue ferver, varrendo qualquer traço da fragilidade da noite anterior.
Pulei da cama, os meus pés descalços afundando em um tapete felpudo no centro do quarto majestoso. Havia uma bandeja de prata sobre a mesa de cabeceira com uma xícara de café fumegante, torradas intocadas e um bilhete dobrado ao meio.
Agarrei o papel de gramatura grossa com brutalidade. A caligrafia elegante e odiosa dele preenchia o espaço em branco:
"Você dormiu por nove horas ininterruptas. Não ousei acordar a minha pianista depois de um espetáculo tão formidável. O café é expresso duplo, do jeito que você gosta. O vestido vermelho não servirá para a galeria hoje; deixei roupas adequadas no closet. Meu motorista a levará para o trabalho quando estiver pronta. Não se atrase para a nossa nova rotina.
- T.V."
Amassei o papel com tanta força que as minhas unhas cortaram a palma da minha mão. Caminhei a passos pesados até o closet adjacente, abrindo as pesadas portas de vidro fosco. Lá dentro, pendurado perfeitamente em um manequim forrado, estava um conjunto de alfaiataria feminino de grife, na cor preta, composto por uma calça reta de cintura alta e um blazer de corte afiado, junto com uma blusa de seda branca. Nos meus pés, um par de scarpins de sola vermelha que custavam mais do que três meses do meu salário na galeria.
Ele queria me vestir. Queria me moldar. Queria me colocar em um uniforme que gritasse para o mundo que eu pertencia a ele.
Vesti as roupas com uma raiva silenciosa e metódica, prendendo o meu cabelo em um coque firme e impenetrável. Eu não beberia o café dele. Não comeria a comida dele. Se Thomas Vance achava que eu me tornaria uma peça dócil em sua cobertura dourada, ele estava prestes a descobrir que o meu ódio era muito mais resistente do que ele imaginava.
Desci pelo elevador privativo, ignorando solenemente o motorista de terno escuro que abriu a porta do Maybach para mim. A viagem até a Galeria Vértice durou vinte minutos de um trânsito caótico e chuvoso que combinava perfeitamente com o estado da minha mente.
Quando finalmente empurrei as portas de vidro da galeria, esperando encontrar a calmaria silenciosa do meu ambiente de trabalho, parei abruptamente.
O salão principal estava um caos absoluto.
Operários de macacão azul passavam de um lado para o outro carregando painéis de vidro temperado, caixas pesadas e móveis de escritório extremamente modernos e caros. O som de furadeiras ecoava nas paredes onde os quadros de arte urbana deveriam reinar absolutos.
Arthur, o diretor da galeria, estava no meio do salão com uma prancheta na mão, suando frio e gritando instruções desordenadas para a equipe de montagem. Assim que ele me viu parada na entrada com o conjunto de alfaiataria impecável de Thomas, os olhos dele se arregalaram.
— Maya! Graças a Deus você chegou! — Arthur correu na minha direção, limpando o suor da testa com um lenço de pano. Ele parecia à beira de um colapso nervoso.
— Arthur, que inferno está acontecendo aqui? — perguntei, elevando o tom de voz para sobrepor o barulho de uma serra elétrica vindo do mezanino. — A exposição começa em algumas semanas! Nós não podemos transformar o salão principal em um canteiro de obras agora!
Arthur me olhou como se eu tivesse acabado de insultar a gravidade. Ele apontou o dedo trêmulo na direção do andar superior, onde ficava o antigo mezanino aberto da galeria, agora completamente isolado por paredes de vidro fumê recém-instaladas.
— Eu não tive escolha, Maya! — o diretor justificou-se, a voz esganiçada. — O Sr. Vance ligou às seis da manhã. Ele disse que, como o principal investidor e salvador desta galeria, ele precisa estar perto do seu dinheiro. Ele mandou reformar o mezanino inteiro durante a madrugada e a manhã.
O chão pareceu sumir sob os meus pés. A minha respiração travou na garganta enquanto eu acompanhava o olhar de Arthur até o andar de cima.
— O que você quer dizer com "perto do dinheiro"? — perguntei, embora o pavor no meu estômago já soubesse a resposta exata.
— O Sr. Vance transferiu as operações de risco da Vance Holdings para cá temporariamente — Arthur engoliu em seco, olhando para o teto como se o bilionário fosse um deus vingativo. — O mezanino agora é o escritório pessoal dele. Ele vai trabalhar daqui a partir de hoje. Todos os dias, Maya. Ele está lá em cima agora mesmo. E ele exigiu que você seja a ligação direta entre a curadoria e a administração dele. Nós não damos mais um passo nesta galeria sem a sua aprovação e a dele.
Cerrei os punhos com tanta força que senti a musculatura dos meus braços queimar. O arrepio frio subiu pela minha espinha. Thomas não estava satisfeito em invadir a minha casa, os meus jantares e os meus pesadelos. Ele havia acabado de comprar o meu santuário. Ele havia transformado a Galeria Vértice na sua própria gaiola de vidro pessoal para me observar em tempo real.
Não esperei que Arthur terminasse de choramingar sobre orçamentos. Caminhei a passos duros e rápidos em direção à escada de metal que levava ao mezanino, os meus saltos novos ecoando como batidas de guerra contra os degraus.
Empurrei a porta de vidro duplo fumê sem bater.
O escritório recém-montado cheirava a couro novo e café expresso. No centro da sala, atrás de uma imponente mesa de nogueira maciça, Thomas Vance estava sentado. Ele usava um terno azul-marinho de corte impecável, os óculos de leitura de aro fino descansando sobre a ponte do nariz enquanto ele analisava documentos financeiros em um tablet. O contraste da seriedade corporativa dele com o stalker maníaco da noite passada era desconcertante.
Ele levantou os olhos cinzentos do tablet, avaliando o meu conjunto de alfaiataria da cabeça aos pés. Um sorriso predador, lento e cheio de satisfação c***l, curvou os lábios dele.
— Bom dia, Srta. Albuquerque — a voz dele cortou o ambiente climatizado com uma autoridade absoluta. Ele tirou os óculos e os colocou sobre a mesa, cruzando as mãos grandes à frente do corpo. — O traje que escolhi caiu incrivelmente bem em você. Bem-vinda ao nosso novo escritório. Feche a porta. Nós temos muito trabalho a fazer.