O trajeto do restaurante até o térreo no elevador privativo foi feito em um silêncio absoluto e sufocante. Arthur e os dois investidores haviam se despedido no saguão com sorrisos fartos, acreditando piamente que a noite havia sido um sucesso estrondoso para os negócios da Galeria Vértice. Eles não faziam ideia de que, para mim, o verdadeiro pesadelo estava apenas começando.
Quando a porta do elevador se abriu e o ar gelado e úmido de Nova York atingiu a minha pele nua nas costas, Thomas colocou a mão firmemente na base da minha coluna mais uma vez, guiando-me até o Maybach blindado que já nos aguardava.
Desta vez, não houve espaço entre nós no banco de couro de trás. Thomas sentou-se perigosamente perto. As pernas dele, cobertas pelo tecido escuro e impecável do smoking, roçavam a seda fina do meu vestido vermelho a cada curva que o carro fazia. A chuva caía com mais força agora, distorcendo as luzes de neon e os faróis da cidade através dos vidros escuros.
Olhei pela janela, tentando ignorar a presença esmagadora dele, até que percebi que não estávamos indo na direção da ponte do Queens. Os prédios luxuosos e as ruas arborizadas do Upper East Side começaram a se desenhar na paisagem.
— Este não é o caminho para a minha casa — falei, a voz soando muito mais firme do que o meu estômago revirado sugeria.
Thomas não olhou para mim. Ele mantinha os olhos fixos na divisória de vidro escuro que nos separava do motorista, girando casualmente o anel de prata no dedo indicador.
— Eu disse que o nosso ensaio começaria quando ficássemos sozinhos, Maya. O seu apartamento, embora charmoso e cheio de travas de segurança que não funcionam comigo, não é o palco adequado para esta noite — a voz barítona e aveludada reverberou no espaço fechado, enviando um arrepio pela minha espinha.
— Pare o carro, Vance. Agora — ordenei, virando-me para ele, os músculos dos meus braços tensos.
Ele finalmente virou o rosto na minha direção. O brilho predatório naquelas íris cinzentas sob a luz fraca da rua era aterrorizante.
— Não seja previsível. Nós dois sabemos que você não vai abrir a porta deste carro em movimento e arruinar o seu adorável vestido de seda — ele respondeu, com um meio sorriso presunçoso que me deu vontade de rasgar a garganta dele. — Relaxe, minha doce curadora. Você queria provar aos meus investidores que sabe jogar com os peixes grandes. Estou apenas dando a você o oceano inteiro.
Minutos depois, o carro deslizou suavemente para a garagem subterrânea de um dos edifícios mais caros e vigiados de Manhattan, um monólito de vidro escuro de frente para o Central Park. O motorista abriu a porta em silêncio. Relutei por uma fração de segundo, mas o orgulho falou mais alto. Eu não seria arrastada para fora daquele carro. Saí pisando firme com os meus saltos, erguendo o queixo enquanto Thomas caminhava ao meu lado até o elevador expresso.
Ele apertou um único botão sem numeração. O visor piscou em vermelho, lendo a biometria do dedo dele, e a caixa de metal disparou para o topo do prédio. O estalo nos meus ouvidos denunciava a altitude brutal da cobertura.
As portas se abriram diretamente para o interior do apartamento de Thomas Vance.
O fôlego travou na minha garganta. O lugar era uma obra-prima de design brutalista e minimalista, quase obsceno de tão caro e silencioso. Paredes inteiras de vidro iam do chão ao teto, oferecendo uma vista de 360 graus de uma Nova York submersa na chuva e nas luzes noturnas. O piso era de mármore n***o polido. Não havia fotos, não havia cores quentes. Era frio, meticulosamente organizado e letal. Exatamente como ele.
Mas não foi a vista milionária que prendeu a minha atenção. Foi o centro da imensa sala de estar.
Sob o brilho de um lustre de cristais escuros e assimétricos, repousava um piano de cauda Steinway & Sons imaculado. Era idêntico ao que o meu avô costumava tocar, mas as teclas de marfim daquele pareciam nunca ter sido tocadas por mãos humanas.
Caminhei instintivamente até o centro da sala, a f***a do meu vestido vermelho esvoaçando contra o mármore n***o. A armadilha estava armada.
— Você achou que tinha ganhado controle no restaurante ao dominar a mesa, não achou? — a voz de Thomas cortou o silêncio. Ele tirou o paletó do smoking, jogando-o de forma displicente sobre o encosto de uma poltrona de couro branco, e começou a desabotoar o colarinho e dobrar as mangas da camisa até os cotovelos.
— Eu não achei. Eu ganhei — respondi entredentes, virando-me para encará-lo. — Seus investidores comeram na minha mão. Eu não sou um enfeite para a sua mesa, e não vou ser a sua boneca submissa neste jogo doente de perseguição.
Thomas diminuiu a distância entre nós a passos lentos e medidos, como um leão circulando a presa no momento do bote. Quando parou a menos de um metro de mim, a altura dele e a presença física esmagadora me forçaram a inclinar o pescoço para cima.
— Você foi brilhante — ele sussurrou, a confissão rouca enviando uma onda de calor magnético para as minhas veias. — Ver você lutar, ver você brilhar naquele vestido com a arrogância cravada no olhar... foi a coisa mais excitante que presenciei em anos. Mas você esqueceu a regra de ouro do xadrez, Maya. Não importa quantas peças o peão coma no tabuleiro; o rei ainda dita o fim da partida.
Ele contornou o meu corpo lentamente, ficando logo atrás de mim. Antes que eu pudesse recuar, as mãos grandes dele agarraram os meus ombros nus, os polegares pressionando a junção sensível do meu pescoço. O toque era possessivo, firme e impossível de ignorar.
— Olhe para o piano — ele ordenou no meu ouvido. A respiração quente dele contra a minha pele me fez prender a respiração.
No espaço onde ficava o suporte de partituras, algo atraiu os meus olhos. Aproximei-me, arrastada pelo controle dele sobre os meus ombros, e olhei para as folhas amareladas iluminadas pela luz indireta da sala.
Era a minha cópia original da Sinfonia do Adeus. Aquela mesma que ele havia deixado no meu apartamento.
— Toque para mim — Thomas murmurou.
A raiva me incendiou por dentro. Tentei me soltar das mãos dele com um puxão agressivo, virando de frente e cravando os meus olhos cheios de ódio nos dele.
— Vá para o inferno, Thomas. Eu não toco essa música para ninguém. Essa música morreu junto com o meu avô, e você sabe disso! Você leu os meus arquivos, não leu? Você invadiu a minha privacidade. Você não tem o direito de me forçar a reviver isso.
A expressão de Thomas não vacilou. Pelo contrário, os olhos dele escureceram, revelando o fundo do poço da obsessão que o movia. Ele agarrou os meus dois pulsos em um movimento tão rápido e fluido que eu não tive tempo de reagir. O aperto não machucava, mas era de uma força intransponível. Ele me puxou de encontro ao peito dele.
— Eu não quero a Maya forte e intocável que os seus pais construíram, e não quero a curadora implacável que encantou Arthur esta noite — ele falou, o rosto tão próximo do meu que os nossos narizes quase se tocaram. — Eu quero a garota vulnerável que chora no escuro. Eu quero a mulher que deita na cama enrolada em lençóis cinzas tentando esquecer as memórias. Eu quero a sua alma rasgada nessas teclas de marfim, e eu não vou deixar você sair dessa cobertura até ouvir cada maldito acorde.
Meu peito subia e descia violentamente contra o dele. O cheiro de chuva, vinho caro e o perfume amadeirado dele estavam invadindo a minha mente, misturando o ódio visceral que eu sentia com uma corrente elétrica de desejo sombrio que me assustava mais do que qualquer ameaça que ele pudesse fazer.
— Você é um monstro psicopata — eu cuspi as palavras, com os olhos lacrimejando de frustração.
— Sim. Eu sou — ele concordou sem hesitar, soltando um dos meus pulsos e usando a mão livre para acariciar a minha bochecha de forma perturbadoramente gentil. — E eu construí este monstro só para proteger você de um mundo que nunca entendeu o seu talento. Toque a sinfonia, Maya. Liberte o fantasma do seu avô, ou eu juro por tudo que eu construí que destruo a Galeria Vértice e o império dos Albuquerque amanhã de manhã.
O choque me paralisou. Ele não estava blefando. Ele tinha o dinheiro, os contatos e a crueldade necessários para apagar o sustento de dezenas de pessoas, e ainda arruinar a reputação bilionária da minha família, tudo com uma simples ligação.
Aos poucos, o meu corpo cedeu sob a pressão daquela chantagem emocional. Ele me soltou e eu me sentei no banco acolchoado do Steinway. Minhas mãos tremiam quando as posicionei sobre as teclas brancas e frias. O vestido vermelho escorregava pela lateral do banco, revelando a minha perna pálida, mas eu não me importei.
Senti Thomas se posicionar bem atrás de mim, tão perto que o calor do corpo dele irradiava para as minhas costas expostas.
Respirei fundo, fechando os olhos, e deixei a primeira lágrima quente escorrer pelo meu rosto. E, então, com o coração sangrando de fúria e submissão forçada, pressionei a primeira tecla, deixando o acorde melancólico e doloroso da Sinfonia do Adeus preencher a cobertura blindada do bilionário que havia acabado de comprar a minha alma.