Capítulo 1
Emily Petrov
Sabe quando você encontra aquela pessoa que parece mudar a sua vida, o seu mundo e tudo ao seu redor? Eu pensei que tinha encontrado essa pessoa. Ivan Petrov era o homem mais educado que eu já conheci. Sempre que ele vinha ao café onde eu trabalhava, irradiava uma elegância que parecia de outro mundo. Ele não era apenas bonito; havia algo magnético nele. A sua voz era baixa, controlada, e ele sempre usava palavras gentis que faziam qualquer um se sentir especial. Suas roupas eram impecáveis, ternos alinhados que exalavam poder, mas não de um jeito intimidador — pelo menos não naquela época.
Foi em uma dessas visitas que ele notou o livro na minha mão.
- Jane Austen? Orgulho e Preconceito? – ele perguntou com um sorriso de lado. – É um dos meus favoritos. Lizzy Bennet é uma personagem incrível, não acha? – o meu coração saltou. Era raro encontrar alguém que compartilhasse a minha paixão pela literatura clássica.
- Com certeza! Ela é tão inteligente e destemida. Acho que todas as mulheres deveriam ser como ela, sabe? – respondi, com um sorriso que provavelmente entregava a minha empolgação.
Ele concordou, e a partir daquele momento, os nossos encontros no café se tornaram frequentes. A conversa fluía de um jeito incrível, como se ele soubesse exatamente o que dizer para me impressionar. Ele não apenas ouvia, mas parecia genuinamente interessado em cada palavra que eu dizia. Começamos a sair, e cada encontro era como um sonho. Ivan me levava a lugares que eu nunca imaginei conhecer — restaurantes caros, teatros elegantes, passeios de barco ao entardecer. Ele fazia tudo parecer perfeito, como se eu estivesse vivendo um conto de fadas.
O pedido de namoro veio rápido, seguido pelo noivado e, logo depois, o casamento. Tudo foi tão intenso que eu m*l tive tempo de pensar. Mas como poderia dizer não? Ivan sempre sabia exatamente o que falar, exatamente o que fazer para me convencer de que aquilo era o certo. E eu acreditei nele. Acreditei que ele era meu príncipe encantado.
Mas príncipes encantados não dão tapas!
O primeiro veio três meses após o casamento. Eu esqueci de um compromisso importante que ele havia mencionado. Não foi intencional, mas Ivan ficou furioso. Os seus olhos, antes tão gentis, estavam cheios de fúria.
- Como você pode ser tão irresponsável? Me envergonhou na frente de pessoas importantes. – ele gritou antes que a mão dele acertasse meu rosto.
Fiquei em choque, não acreditando no que tinha acabado de acontecer. Minutos depois, ele estava aos meus pés, chorando e pedindo desculpas, dizendo que aquilo nunca mais iria acontecer.
Mas aconteceu!
As desculpas vinham sempre acompanhadas de presentes caros e promessas vazias. As humilhações passaram a fazer parte do meu cotidiano. Ele criticava a minha aparência, minhas escolhas, minha inteligência.
- Você tem sorte de estar comigo. Nenhum outro homem olharia para você duas vezes. – ele dizia, enquanto eu sentia cada palavra se enraizar na minha mente.
E as agressões físicas continuaram. Cada vez que eu ameaçava pedir o divórcio, ele se tornava ainda mais violento. Até que, um mês atrás, ele me jogou da escada durante uma discussão. A queda me levou ao hospital, mas até lá ele controlou tudo. O médico não fez perguntas, as enfermeiras desviavam o olhar, e eu sabia que era devido ao dinheiro dele. Ivan compra todos ao seu redor.
Estou sozinha. A minha mãe morreu quando eu ainda era muito nova, e fui criada por um tio que nunca me quis por perto. Assim que fiz dezoito anos, ele me expulsou de casa. Meu pai? Minha mãe dizia que ele foi um amor de verão. Ele veio passar férias em Boston, eles se conheceram, e ele foi embora sem saber que eu existia. Ela nunca teve um telefone ou sobrenome dele. Só sei que o seu primeiro nome era Robert. Minha mãe sempre dizia que herdei os olhos verdes dele — olhos que contrastam com o meu cabelo castanho, que eram do mesmo tom do dela. Minha mãe era uma mulher linda, com olhos cor de mel, eu era muito parecida com ela. Ela também dizia que eu tinha a mesma mania do meu pai, eu cruzava os dedos quando estava nervosa, era algo que o meu pai fazia. Pequenas manias que agora só servem para me lembrar de que estou sozinha.
Mas não posso continuar assim. Eu preciso sair desse inferno antes que ele acabe comigo de vez. Então, comecei a guardar dinheiro, centavo por centavo, sem que Ivan percebesse. Quando ele chega em casa bêbado ou depois de me forçar a ficar com ele, espero que ele durma e vasculho a sua carteira. Cada vez que toco naquele couro frio, sinto um arrepio de medo. E se ele acordar? Mas a necessidade de fugir é maior que o medo.
Minha rotina agora é uma prisão. Acordo cedo para preparar o café da manhã dele exatamente do jeito que ele gosta. Cada gesto meu é calculado para evitar sua ira. Quando ele vai trabalhar, passo o dia ajudando os empregados, mesmo que essa mansão já esteja impecável, apenas para ocupar a minha mente. Cada som, cada movimento me deixa em alerta, esperando o momento em que ele voltará. E quando ele volta, tudo depende do humor dele. Se foi um bom dia, ele me ignora. Se foi um dia rüim, eu sei o que me espera.
Não tenho amigos. Não tenho ninguém para pedir ajuda. Mas toda a noite, quando escondo aquele pequeno montante de dinheiro no forro da minha bolsa, sinto uma fagulha de esperança. Um dia, eu vou fugir. Um dia, eu terei a minha liberdade de volta.
Olho para o espelho no banheiro, o meu rosto refletindo mais do que apenas os machucados físicos. É como se eu nem soubesse mais quem sou.
- Você vai conseguir. – sussurro para mim mesma.
Não sei para onde vou, mas sei que preciso ir. Porque ficar aqui significa morrer. E eu não vou deixar que Ivan tire isso de mim também. Eu mereço mais.