Emily Petrov
Já fazia alguns dias desde aquele evento e, os hematomas em meu corpo estavam começando a desaparecer, mas a dor — tanto física quanto emocional — ainda pulsava em mim. Cada movimento me fazia lembrar daquela noite, e cada olhada no espelho revelava marcas que a maquiagem m*l conseguia esconder. Era como se a minha própria pele gritasse por socorro.
Acordei sentindo uma forte náusea, uma onda de enjoo que parecia não ter fim. Me arrastei até o banheiro, segurando o estômago como se aquilo fosse conter a revolta dentro de mim. Para meu azar, Ivan estava em casa. Ele apareceu na porta do banheiro, cruzando os braços com a indiferença de sempre.
- O que você tem? – ele perguntou, franzindo a testa como se o meu estado fosse um incômodo.
- Nada demais... Deve ter sido algo que comi. – murmurei, tentando desviar o olhar para não mostrar o cansaço que transbordava no meu rosto.
Ivan bufou, como se a minha resposta não fosse boa o suficiente.
- Vou mandar Lila acompanhar você ao médico. Não quero ter que olhar para essa sua cara doente o dia inteiro. Ficarei em casa hoje. – ele anunciou com aquele tom cortante que me fazia gelar por dentro.
Assenti em silêncio, apenas querendo sair de perto dele o mais rápido possível. Tomei um banho quente, tentando aliviar o peso no meu corpo e na minha mente. Escolhi uma calça e uma blusa que escondessem os hematomas que ainda estava no meu corpo e passei maquiagem para disfarçar as marcas no rosto. Era um processo meticuloso, quase mecânico, como se fosse parte de um ritual de sobrevivência.
Quando terminei, Ivan entrou no quarto novamente. Ele estava arrumado, mas a expressão severa permanecia.
- Lila e o motorista já estão esperando. – ele me segurou pelo braço antes que eu pudesse sair. O seu toque foi firme, quase doloroso, enquanto ele falava em tom de ameaça:
- Cuidado com o que você vai falar ao médico, Emily.
Assenti, engolindo em seco, e me afastei rapidamente, evitando olhar para ele. Quando cheguei à sala, Lila já estava esperando. Ela era minha única fonte de apoio naqueles dias. Havia me ajudado quando nem mesmo conseguia levantar da cama por conta das dores. Ela tinha uma bondade que contrastava com o ambiente hostil daquela casa.
- Como você está se sentindo? – perguntou com um tom de preocupação genuíno.
- Ainda estou um pouco m*l. Não sei o que pode ser. – respondi, tentando minimizar os sintomas.
Seguimos até o carro em silêncio. A ideia de escapar daquela casa, mesmo que apenas por algumas horas, trazia um misto de alívio e medo. Quando chegamos à clínica, fui até a recepção. Ivan, como sempre, já tinha deixado tudo organizado. Preenchi uma ficha e não demorou muito para o médico me chamar.
Assim que entrei no consultório, ele perguntou o que eu estava sentindo. Expliquei sobre o enjoo constante e a sensação de fraqueza que vinha me acompanhando nos últimos dias. O médico decidiu colher alguns exames e disse que os resultados estariam prontos em cerca de uma hora. Fui encaminhada à sala de coleta, onde uma enfermeira cuidou dos procedimentos.
Depois de terminar, voltei para a recepção, onde Lila me aguardava.
- Tudo bem? – ela perguntou.
Assenti, mas minha mente estava distante. O tempo pareceu se arrastar enquanto esperávamos pelos resultados. Finalmente, a enfermeira me chamou de volta ao consultório. O médico olhou para os exames e, depois de alguns instantes, sorriu.
- Meus parabéns, senhora Petrov. Você está grávida de três semanas.
Meu mundo parou. As palavras ecoaram na minha mente como um trovão. Grávida. Grávida de Ivan. O desespero tomou conta de mim. As lágrimas começaram a cair antes que eu pudesse me conter.
- Tudo bem? – o médico perguntou, preocupado.
Respirei fundo, tentando me recompor.
- Sim... Estou bem. – menti, limpando as lágrimas rapidamente.
Ele me ofereceu um copo d'água e explicou que faríamos um ultrassom para verificar o bebê. Na sala de exames, o som do coração do meu filho ecoou pelo ambiente. Era forte, constante, e algo dentro de mim mudou. Preciso proteger essa criança, pensei. Preciso fugir.
Antes de sair, o médico receitou vitaminas e mencionou que eu estava com uma leve anemia. Ao encontrar Lila novamente, não consegui conter as lágrimas.
- Estou grávida. – confessei, quase sem voz.
Ela me abraçou, apertando-me com firmeza.
- Eu preciso fugir, Lila. Não posso mais viver naquela casa. Ivan não pode saber sobre esse bebê.
Ela assentiu, os olhos cheios de compreensão.
- Eu vou te ajudar.
Agradeci a ela em silêncio enquanto voltávamos para casa. Não comprei as vitaminas prescritas pelo médico; era perigoso demais levantar qualquer suspeita. Assim que chegamos, a casa estava silenciosa, mas meu corpo ficou tenso. Caminhei até o escritório de Ivan e parei ao ouvir grunhidos. A porta estava entreaberta. Olhei pelo espaço e o vi com Eleonora, a mulher que havia falado comigo no dia anterior. Eles pareciam dois animais, sem nenhum pudor.
Senti a bile subir e corri para o banheiro, vomitando tudo. O nojo e a raiva misturavam-se em meu peito. Tomei um banho longo, tentando apagar aquela cena da minha mente, mas as imagens continuavam a me assombrar. Sussurrei para mim mesma que não podia mais viver naquele inferno. Agora, com uma criança a caminho, a necessidade de escapar era urgente.
Mais tarde, Ivan entrou no quarto, e eu me forcei a agir normalmente. Ele perguntou sobre a consulta.
- Apenas uma virose. – respondi com a voz mais firme que consegui.
Ele assentiu, satisfeito, e informou que teria uma viagem de negócios no dia seguinte.
- Vou dormir no outro quarto para não pegar nada. Preciso estar bem.
Concordei, agradecendo internamente pela distância. Assim que ele saiu, comecei a planejar. Essa seria minha chance. Quando Ivan viajasse, eu fugiria. Precisava ser rápido, antes que ele descobrisse a gravidez. Meu coração estava acelerado, mas pela primeira vez senti uma fagulha de esperança. Eu não estava apenas lutando por mim; agora, tinha um motivo ainda maior para escapar. E eu não iria falhar.