Emily Petrov
A noite parecia interminável. O silêncio da casa só fazia aumentar o som dos meus pensamentos, que ecoavam como gritos dentro da minha cabeça. Ivan dormia no quarto ao lado, o que me dava o espaço perfeito para preparar as minhas coisas. Eu não precisava de muito, só o suficiente para começar uma nova vida. Peguei a mochila que Lila havia me dado, cuidadosamente escondida no fundo do armário. Quando ela me entregou, mais cedo, sussurrou um “vai dar tudo certo” que ficou martelando na minha mente, me dando uma faísca de esperança em meio ao desespero.
Coloquei três mudas de roupa, algo quente para o frio cortante da madrugada, e o mais importante: o dinheiro que consegui juntar. Cada nota dobrada era um fragmento da minha resistência, uma prova de que eu ainda tinha força para lutar. Não preguei os olhos. A ansiedade corroía a minha alma, me fazendo repassar o plano incontáveis vezes. Em alguns momentos, o medo foi maior. O terror de imaginar Ivan me encontrando, a fúria nos seus olhos, as consequências. Quase desisti. Quase me convenci de que seria impossível escapar do inferno que ele havia criado para mim.
Mas então pensei no meu bebê. Naquela pequena vida crescendo dentro de mim, alheia ao horror que me cercava. Ele não tinha culpa. E eu tinha a obrigação de dar a ele um lar, um lugar seguro, longe da sombra de Ivan. Esse bebê era parte de mim, e nunca saberia o monstro que Ivan é, ele era minha motivação. Ele era a força que eu precisava.
Quando o dia amanheceu, agi com a normalidade que o medo ensina. Tomei banho, cuidei da minha aparência para não levantar suspeitas. Ivan entrou no quarto se arrumando para a viagem. Seu olhar frio pousou em mim.
- Você está péssima. Espero que, quando eu voltar, esteja com uma cara melhor.
Assenti em silêncio. Ele fez um gesto para que eu o acompanhasse até a sala para o café da manhã. Sentar à mesa com ele sempre foi uma tortura. Enquanto ele mexia no celular, eu fingia estar imersa no meu café e biscoitos, controlando o tremor das mãos.
De repente, ele parou, me encarando. O ar pareceu desaparecer dos meus pulmões.
- Está nervosa, Emily?
Forcei um sorriso, o mais natural que consegui.
- Não... só não estou me sentindo bem.
Ele inclinou a cabeça, avaliando a minha expressão.
- Você tem até eu voltar para melhorar. Aproveite e descanse.
Assenti novamente, lutando contra a bile que ameaçava subir. Ele se levantou, ajeitando a gravata.
- Já está na minha hora. Volto em três dias. Se comporte, Emily.
Quando ele se aproximou para tocar o meu rosto, o nojo foi insuportável. Mas me controlei. Era só mais um toque. O último!
Assim que a porta da frente se fechou e ouvi o carro se afastar, corri até a janela. Esperei ver o veículo atravessar os portões da propriedade antes de agir. Subi correndo as escadas, pegando a mochila. Vesti uma blusa quente; o frio da manhã era c***l, mas não tanto quanto o medo que pulsava dentro de mim.
Lila apareceu na porta do quarto. Os seus olhos tristes encontraram os meus.
- Está pronta?
Assenti, incapaz de falar. Ela se aproximou, me abraçando apertado.
- Aqui está o meu número. Me ligue assim que estiver segura.
As lágrimas vieram sem aviso, quentes e silenciosas.
- Obrigada... por tudo.
Ela sorriu, com os olhos marejados.
- Você vai conseguir, Emily. Seja forte. Por você. Por esse bebê.
Descemos juntas, saindo pela porta dos fundos. Lila ficou na soleira, observando enquanto eu atravessava o quintal até o pequeno portão usado pelos funcionários para descartar lixo. Olhei para trás uma última vez. Ela acenou discretamente, e eu segui.
O caminho até a rodoviária foi uma travessia entre o medo e a esperança. Andei por quase duas horas, cada passo ecoando na minha mente como um lembrete: você está indo embora. Você está livre.
Quando avistei o prédio da rodoviária, o coração disparou. Comprei a primeira passagem disponível: Brookline. Não importava o destino. O importante era que fosse longe. Longe de Ivan. Longe daquele inferno.
Quando o ônibus chegou, entrei e me sentei perto da janela. Enquanto o motor roncava e o veículo começava a se mover, senti uma paz estranha. O medo ainda estava lá, mas havia algo novo: uma centelha de esperança. Pela primeira vez em muito tempo, eu estava no controle da minha própria vida.
E não era só por mim. Era por aquele pequeno coração que batia dentro de mim.