Emily Petrov
O caminho feito no ônibus parecia interminável, cada quilômetro percorrido carregava um peso esmagador de tensão e medo. O medo de que, de alguma forma, Ivan tivesse descoberto a minha fuga e estivesse me caçando. Os meus olhos se fixavam na janela, observando o mundo lá fora passar em um borrão cinzento e frio, enquanto o meu coração batia forte, uma lembrança constante do perigo que deixei para trás. O som rítmico do motor do ônibus era abafado pelo zumbido ansioso na minha cabeça. Cada parada brusca, cada pessoa que subia ou descia fazia o meu corpo enrijecer, os meus olhos vasculharem rostos desconhecidos, esperando, temendo encontrar o dele.
Mas, no fundo, eu mantinha uma esperança tênue: a de que ele só descobriria a minha ausência quando voltasse da viagem. Isso me daria uma vantagem, uma chance real de escapar para sempre da sombra dele. Foi essa esperança que me manteve firme no assento, mesmo quando o ônibus fez uma parada em um posto de descanso. A maioria dos passageiros desceu para esticar as pernas, comer algo ou simplesmente respirar um ar diferente. Eu permaneci imóvel, as minhas mãos apertadas contra a mochila no meu colo, o olhar fixo na porta do ônibus. O medo era um nó apertado no meu estômago, me impedindo de sequer considerar sair. Ali, dentro do ônibus, eu me sentia um pouco mais protegida, como se as paredes de metal pudessem me esconder do passado.
O tempo parecia se arrastar até que, finalmente, o ônibus fez a sua parada em Brookline. O frio me recebeu assim que desci, cortante e implacável, acompanhado por flocos de neve que caíam preguiçosamente do céu cinzento. O ar gélido mordeu a minha pele exposta, fazendo-me puxar a blusa quentinha com mais força contra o corpo. O coração batia rápido, uma mistura de alívio por estar longe de Ivan e o pânico do desconhecido. Eu precisava encontrar um lugar para passar a noite, mas não sabia por onde começar. O medo de interagir com estranhos era paralisante, então decidi caminhar, esperando encontrar um abrigo, qualquer coisa que pudesse me proteger do frio e da escuridão.
As ruas de Brookline eram silenciosas, iluminadas apenas por postes de luz amarelada que lançavam sombras longas sobre a neve acumulada. Cada passo era um esforço, os meus pés afundando levemente no chão gelado, o frio penetrando através do tênis que eu usava. O vento cortante parecia atravessar as minhas roupas, e o medo se transformava em uma companheira constante, sussurrando possibilidades terríveis a cada esquina escura. A fome começou a se manifestar, um vazio desconfortável que se somava ao cansaço e ao desespero. Eu apertava a mochila contra o corpo, como se ela fosse um escudo frágil contra o mundo implacável.
Continuei andando, mesmo quando o corpo protestava com dores, mesmo quando os pés pareciam blocos de gelo. As vitrines das lojas estavam escuras, portas trancadas, sinais de "fechado" pendurados de forma indiferente à minha necessidade. Era tarde, muito tarde, e Brookline parecia uma cidade fantasma sob o véu da neve. A cada quarteirão, a minha esperança diminuía um pouco mais, substituída por uma exaustão esmagadora. Em um momento de desespero, parei, coloquei as mãos sobre a barriga levemente saliente e sussurrei, com a voz trêmula:
- Vai ficar tudo bem. Eu não vou deixar nada acontecer com você.
Mas eu estava começando a duvidar das minhas próprias palavras. O cansaço me envolvia como um cobertor pesado, e o frio parecia se infiltrar nos ossos. Encontrei um pequeno recuo em frente a um estabelecimento fechado, provavelmente uma cafeteria que tinha encerrado o expediente há horas. Sem forças para continuar, me sentei ali, encolhendo-me o máximo possível. A mochila ficou entre as minhas pernas, um tesouro frágil que eu não podia perder. O concreto frio sob mim roubava o pouco calor que o meu corpo ainda mantinha, e eu tremia descontroladamente, o queixo batendo involuntariamente.
A cidade parecia indiferente à minha presença, o som ocasional de um carro passando ao longe o único sinal de vida. Tentei manter os olhos abertos, o medo de adormecer e nunca mais acordar era real. Mas o cansaço era mais forte. As minhas pálpebras pesavam como chumbo, e, apesar da adrenalina e do terror, os meus olhos começaram a se fechar lentamente. O último pensamento antes da escuridão me engolir foi uma prece silenciosa, um sussurro desesperado para que o amanhã trouxesse um novo começo.