Atena Oliveira
19/03 | Curitiba, Paraná
Dois anos depois, dias atuais.
A cama era um campo de batalha: camisetas amassadas, calças dobradas com pressa, uma bota solitária como testemunha de noites mäl dormidas. Eu arrastava as peças para dentro da mala com a precisão de quem já embalou mais do que roupas, embalava intenções. Lá fora, Curitiba cuspia um vento de fim de verão que mordia a pele; eu dobrava regatas como se elas pudessem me transformar numa versão menos pesada de mim mesma quando chegasse a Barcelona. Primavera viria na Espanha em poucos dias, dizia o calendário que eu insistia em respeitar quando precisava de ordem. Primavera era palavra bonita para quem não via as estações como ameaças, mas como promessa. Eu não acreditava em promessas.
Olhei para os vestidos, apenas dois. Um preto básico, outro florido, tosco presente de aniversário que minha mãe havia jurado que “combinaria comigo”. Sorri, curto, e sacudi a cabeça. Nunca fui “mulherzinha”; vestidos me davam a sensação de armadilha. Calças prendiam menos, permitiam salto no asfalto ou corrida numa rua escura. Calças significavam movimento. Minha mãe respirou fundo do outro lado da porta, o tipo de som que pedira desculpas pela existência; ela se acostumara com minhas preferências, mas jamais com a ideia de eu partir sozinha para um lugar onde havia sangue misturado a lembranças.
— Quer ajuda, meu bem? — a voz dela, sempre doce, sempre pequena quando o assunto era medo.
Balancei a cabeça, pegando mais um par de meias.
— Eu tô bem, mãe. Só preciso terminar.
Ela veio até a cama, as mãos ásperas de quem costurou nossa vida com esforço e não com fortuna. Nos observamos como quem confere uma rota antes de entrar numa tempestade. O sorriso dela foi esforçado, e os olhos ficaram mais fundos.
— Tem certeza que quer ir? — perguntou. Cada sílaba tinha o peso de alguém que tenta segurar o ar.
Temia que a pergunta viesse carregada de presciência; sabia que minha partida lhe arrancava pedaços. Desde que contei da mudança, ela vivia em uma vigília mansa. O medo era óbvio: Barcelona era uma palavra que lembrava o riso de Ares e, por consequência, a sua ausência. Ela só tinha a versão oficial: “tiro de bala perdida”, um relatório frio datilografado pela polícia espanhola. Eu tinha mais: tinha pistas, olheiros encapuzados, a sensação de que a verdade se movia como sombra perto de chaminés. Mas não podia contar. Não tinha como dizer que eu treinara sozinha por dois anos, que aceitara trabalhos que manchavam as mãos para pagar por informações, que tinha um nome gravado na própria pele pela obsessão: Dom Castilla.
— Sim, mãe. — disse. Tentei não deixar o tom tremer. — Eu preciso disso. Preciso estar lá. Preciso ver as pessoas que conviveram com ele, com o Ares. Preciso sentir onde ele esteve.
Falei a verdade em partes. Era complicado: admitir que ia caçar um homem que, para o resto do mundo, era um espectro, soaria como loucura. Dom Castilla não era só um nome; era uma ausência completa de rosto nas fotos oficiais, um império que se alimentava do medo e da negação. Eu havia vasculhado arquivos, conversado com informantes que preferiam não existir, tentado costurar um mapa com fios de rumores. Não havia imagens, nem perfis limpos, só relatos sufocados pela conspiração de quem não quer falar. Isso o tornava mais perigoso; o invisível sempre é.
Mãe mexeu num lenço, as unhas curtas fazendo trilha no tecido.
— Você poderia se arrepender, sabia? — murmurou.
Arrepender-me não fazia parte do vocabulário que me guiava. Eu não perseguia remorso; perseguia justiça pela forma que eu escolhi chamar de vingança. Ares fora arrancado de nós numa noite que devia ter sido a comemoração de mais um ano da sua vida, das nossas vidas. E meu pai já não estava para nos amparar, infarto dele quando eu tinha dezenove, e depois disso nada foi simples. Ares, aos vinte, aventureiro como sempre foi e foi para Barcelona. Eu me juntei ao exército como quem responde a uma convocação ancestral: disciplina, resposta, controle. Ao longo dos anos, o que restou de família virou ritual de ligação por vídeo, aniversários marcados sem presença física, memórias que queimavam mais por estarem distantes. Agora, eu optava por transformar essa saudade em método.
Fale a minha mãe há algumas semanas sobre Miguel Cruz, o dono da academia onde Ares ensinava boxe, nome que eu usaria como abrigo, como emprego que me permitiria ficar sem levantar suspeitas. Miguel fora a ponte que meu irmão deixara: confiável, discreto o suficiente para me aceitar numa conversa meses antes de eu partir. Ele me dizia que o estofado do ringue lembrava o riso do Ares, e eu precisava disso; precisava entender o tecido das relações em que meu irmão estava enredado. Elena, a ex namorada do meu irmão e minha atual amiga, cuidou dele por muito tempo, e era outro nome que eu precisava estar perto; seus hábitos, seu círculo, qualquer fio que me aproximasse da verdade.
Fechei a mala finalmente. A ação de fechar trouxe um silêncio cortante. Senti o peso do que eu deixava para trás: a casa, o cheiro de café da minha mãe, as lembranças do meu pai que usavam o mesmo vinco do travesseiro, as brincadeiras bobas do meu padrasto. Havia também a história do nosso sangue, Atena e Ares, nomes que os nossos pais escolheram como se convocassem deuses: estratégia e conflito. Eles riam, a mitologia doméstica servia para dar sentido às escolhas bizarras. Meu pai dizia que havia me batizado de Atena porque eu pensaria dez passos à frente; ele sonhara em nos ver fortes. Meu irmão, Ares, carregara o destino guerreiro com um sorriso bestial. Agora, a guerra que eu escolhera não tinha fronteiras mitológicas, tinha concreto, fumaça, e um cheiro metálico que me lembrava do dia em que o mundo deles mudou.
Antes de sair do quarto, olhei pela janela. A rua estava vazia, a cidade respirava com preguiça de fim de dia. Não tive mais espaço para dúvidas. A mala pesava como uma decisão, cada dobra de roupa um juramento. Barcelona me esperava com o ar de quem não perdoa e com a promessa velada de que, lá, eu poderia finalmente colocar as peças no lugar. Ou me despedaçar tentando.
Fechei a porta do quarto com cuidado, minha mãe ficou no corredor, pequena figura iluminada pela lâmpada do hall, as mãos juntas como se rezasse. Amanhã cedo partiria para o aeroporto e finalmente buscaria a vingança pelo meu irmão.