Capítulo 03 - Perigosa.

1393 Words
Atena Oliveira 22/04 | Barcelona, ES Barcelona fervia. Era primavera e as ruas estavam lotadas de turistas que pareciam disputar cada pedacinho de sol. O barulho constante dos carros, das vozes misturadas em vários idiomas e o cheiro salgado do mar compunham um cenário que, em outro momento, teria me encantado. Mas hoje, aquele caos parecia distante, como se eu estivesse assistindo à vida de alguém pela janela. Já fazia um mês desde que cheguei aqui — justamente no dia do meu aniversário. Lembro perfeitamente de Elena me esperando no aeroporto, com um sorriso caloroso e um mini bolo improvisado na mão. Ela disse que era “pra espantar o azar dos novos começos”. Funcionou… mais ou menos. Nesse tempo, fui conhecendo aos poucos a rotina dela e de Miguel. Ele, um homem gentil, com um jeito calmo e protetor, parecia ter herdado a função de irmão mais velho que antes era do Ares, que antes se orgulhava por ser dois minutos mais velho que eu. Tentava cuidar de mim da mesma forma, mas eu não era fácil de lidar. Me fechei num casulo que nem o sol de Barcelona conseguia atravessar. Ainda assim, Miguel nunca reclamou. Apenas me observava com aquela paciência silenciosa que me irritava e confortava ao mesmo tempo. Elena, por outro lado, era pura luz. Linda, confiante e absurdamente carismática — uma mulher que parecia ter nascido para ser notada. Seu cabelo loiro médio cintilava como ouro, e os olhos azuis tinham aquele tipo de brilho que fazia qualquer um se perder. Era o tipo de pessoa que transformava qualquer ambiente em um lugar mais leve. Professora de defesa pessoal e ex-atleta olímpica em ginástica artística, ela tinha a força de um furacão escondida sob um sorriso doce. E então havia eu. Cabelos vermelhos como fogo, pele bronzeada que entregava minha origem brasileira sem precisar de palavras, e curvas que me garantiam olhares mesmo quando eu só queria passar despercebida. Elena brincava dizendo que éramos o “céu e o inferno” — e talvez ela estivesse certa. Enquanto ela usava tons claros e irradiava calor, eu preferia roupas pretas e o silêncio confortável que vinha com elas. O contraste entre nós era gritante. — Sabe o que eu acho? — a voz dela quebrou meu devaneio, me arrancando da janela. Virei para encará-la. — O quê? Elena me lançou aquele sorriso travesso que já denunciava encrenca. — Acho que deveríamos sair hoje. Comemorar o seu mês em Barcelona. Soltei um suspiro. — Já tenho programação pra hoje — menti, sem nem piscar. Ela arqueou uma sobrancelha, claramente duvidando. — Ah, é? Então me conta, o que você vai fazer de tão misterioso? Revirei os olhos. Eu podia até ser treinada pra manter a compostura, mas Elena me desmontava com facilidade. — Tá bom, você venceu. Onde quer ir? — perguntei, rendida. Ela abriu um sorriso vitorioso. — Tenho duas pulseiras pra uma balada bem conhecida daqui. — Tirou as pulseiras do bolso como quem revela um truque de mágica. A incredulidade me fez rir. — Como diabos conseguiu isso? — Tenho contatos, querida. — Ela piscou, exibida. Apesar de mim, deixei escapar um riso baixo. — E que horas vamos? — Não sei — respondeu, já analisando meu quarto com aquele olhar avaliador. — Mas sei que você não tem roupa pra ir. E, obviamente, não vai querer usar uma das minhas. Ela estava certa. Minhas roupas eram mais “quartel general” do que “vida noturna espanhola”. Antes que eu pudesse contestar, Elena me puxou pela mão e me fez levantar da cama. — Então é decidido. Vamos às compras. Bufei, mas não consegui evitar o sorriso que se formou nos meus lábios. Elena tinha essa capacidade irritante de me tirar do luto, nem que fosse à força. E talvez fosse isso que eu precisasse: sair da minha própria cabeça, mesmo que por uma noite. Enquanto a seguia até a porta, dei uma última olhada pela janela. A cidade pulsava lá fora — viva, barulhenta, cheia de histórias que não eram minhas. Por enquanto. Mas uma parte de mim sabia que, cedo ou tarde, Barcelona deixaria de ser apenas um cenário. Ela seria palco. E quando isso acontecesse… alguém sairia ferido. (...) Assim que voltamos para casa, eu já estava exausta. Elena tinha me feito andar por quase todo o centro comercial de Barcelona, jurando que “a roupa perfeita” estava em alguma daquelas vitrines. Depois de horas, incontáveis provadores e discussões sobre o que era “demais”, ela finalmente encontrou o que queria. E eu… acabei cedendo. No fim, comprei uma micro roupa, uma mistura entre pecado e coragem, que quase me fez desistir da ideia de sair. Tomei um banho rápido, tentando relaxar os músculos e lavar a teimosia do dia. Quando saí do chuveiro, o vapor ainda dançava pelo banheiro. Meu cabelo vermelho estava molhado e pesado, deslizando pelas minhas costas nuas. Voltei para o quarto enrolada na toalha e encontrei o campo de batalha preparado: sobre a cama, a roupa escolhida com precisão cirúrgica por Elena. Uma minissaia jeans escura, justa o suficiente para não deixar espaço pra imaginação. Um cropped preto, estruturado como um colete, realçando a cintura e deixando o colo exposto de um jeito provocante. A jaqueta de couro preta por cima dava o equilíbrio perfeito entre perigo e elegância. Ao lado, as botas de salto fino e cano alto, que gritavam poder a cada centímetro. A bolsa de couro e os acessórios, colares prateados, um anel com uma pedra vermelha como sangue, completavam o visual. Suspirei. “Definitivamente, Elena me odeia.” Mesmo assim, comecei a me vestir. Cada peça parecia se encaixar em mim como se tivesse sido feita sob medida. A saia abraçava meus quadris largos, o colete delineava minha cintura fina e o couro frio da jaqueta deslizava pelos meus ombros com uma sensação de autoridade. Me olhei de relance no espelho, mas desisti antes de encarar de verdade. Ainda não. Peguei o secador e comecei a secar o cabelo. O vermelho intenso ganhou brilho sob a luz do quarto, e em poucos minutos o volume natural tomou forma. Prendi tudo em um r**o de cavalo alto e firme. Nenhum fio fora do lugar. Eu parecia pronta pra qualquer coisa ou pra destruir alguém, o que dava na mesma. — Posso entrar? — a voz de Elena veio acompanhada de três batidas leves na porta. Antes que eu respondesse, ela já estava dentro do quarto, com um sorriso travesso e uma necessaire em mãos. — Perfeita. Só falta o toque final. Revirei os olhos, mas deixei ela se aproximar. Elena me fez sentar e, com a delicadeza de quem sabe o que faz, começou a passar a maquiagem. As mãos dela eram rápidas, firmes, e o cheiro do cosmético se misturava ao meu perfume. — Nada exagerado, tá? — murmurei. — Confia em mim. — O tom dela era divertido, mas o olhar concentrado. Senti o pincel deslizar nas pálpebras, o traço do delineado se alongando até um ponto preciso. Elena esfumou o preto com maestria, realçando o azul dos meus olhos e quando terminou, passou o polegar de leve abaixo do meu queixo, inclinando meu rosto para avaliar a obra. — Agora sim. Ela se afastou e fez um gesto com a cabeça. — Vai. Olha. Demorei alguns segundos antes de me virar para o espelho. E quando o fiz… Por um instante, não me reconheci. A mulher refletida no vidro não era a Atena exausta que chegou há um mês, perdida e quebrada. Era outra versão de mim, uma que eu não sabia que existia. O couro realçava o brilho da minha pele, o r**o de cavalo deixava meu rosto firme, quase desafiador. Os olhos, agora escuros e intensos, pareciam capazes de hipnotizar. Passei as mãos pelas coxas, pela cintura, e um sorriso involuntário surgiu. Me senti viva. Bonita. Não. Me senti perigosa! Elena cruzou os braços, satisfeita. — Eu te disse. Um mês em Barcelona, e você finalmente parece pronta pra isso aqui. — Pra isso o quê? — perguntei, sem tirar os olhos do espelho. Ela sorriu de canto. — Pra ser olhada. E eu estava. Olharam pra mim antes mesmo de eu sair de casa e dessa vez, eu não queria me esconder.
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