Capítulo 04 - Encontrá-la.

1209 Words
Dom Castilla 22/04 | Barcelona, ES O som metálico das travas sendo rompidas ecoava pelo galpão como um relógio marcando o ritmo da noite. O cheiro de graxa, pólvora e maresia se misturava ao ar pesado do porto. Eu observava cada movimento — cada caixa aberta, cada anotação feita — enquanto Eva verificava o carregamento com a precisão de quem sabe que um erro pode custar a vida. — AR-15, ok. — ela murmurou, riscando mais uma linha na prancheta. Passei os olhos pela sequência de caixotes empilhados. A próxima caixa continha munições de ponta-oca — brilho metálico, letais e silenciosas. A seguinte, uma série de pistolas Glock recém-saídas do contrabando da Itália. As mãos de Eva trabalhavam com eficiência, sem hesitação. O tempo passou arrastado, marcado pelo som das madeiras se partindo e o clique dos fechos sendo testados. Quando o último lote foi conferido, já eram quase dez da noite. O relógio do galpão marcava 22h07, e minha cabeça latejava pelo cansaço. — Tudo certo, chefe. — Eva disse, endireitando a postura. — Nenhum erro na contagem. Assenti com um breve movimento. — Envie o relatório para o Javier. — respondi, virando-me para sair. — Sim, senhor. O eco dos meus passos ressoou pelo chão de cimento enquanto atravessava o galpão. As luzes altas lançavam sombras longas sobre os contêineres, e por um momento o lugar parecia um labirinto — feito sob medida para esconder segredos, corpos e negócios que ninguém jamais devia descobrir. Eva era boa. Boa demais. Não só pela lealdade ou eficiência, mas pela frieza. Raramente alguém me impressionava, mas ela tinha conquistado esse espaço. Por isso havia se tornado comandante dos meus homens — a única mulher em meio a uma estrutura dominada por monstros. Ela não errava. E eu não perdoava quem errava. Do lado de fora, o vento noturno de Barcelona cortava como navalha. Acendi um cigarro e dei a primeira tragada, observando a fumaça se dispersar contra o céu n***o. A brasa alaranjada era a única luz viva naquele pedaço esquecido da cidade. Javier, meu tio, estava no meu escritório naquele momento, revisando a contabilidade do cartel. Tinha apenas oito anos a mais que eu, e crescemos praticamente juntos — dividindo a mesma casa, os mesmos segredos e, eventualmente, o mesmo sangue nas mãos. Às vezes eu esquecia que ele era meu tio. Outras vezes, lembrava bem demais. Depois que meus pais e meu irmão foram assassinados, Javier se tornou o que restou da minha família. E, embora houvesse lealdade entre nós, havia também algo que eu nunca nomeei — uma desconfiança silenciosa. O tipo que se instala entre homens que já perderam tudo. Mas ele era um dos únicos que eu ainda deixava chegar perto. Além dele, havia Leandro, meu braço direito. A pessoa que conhecia minhas manias, meus silêncios e o peso de cada ordem que eu dava. Crescemos juntos nas ruas de Barcelona, e ele me seguiu desde o primeiro sangue derramado. Leandro era o único homem em quem eu confiava plenamente, o que, em meu mundo, já era quase um milagre. Apaguei o cigarro no chão e subi no carro estacionado próximo ao portão do galpão. O motor rugiu, grave e constante. Enquanto dirigia pelas ruas vazias, o reflexo das luzes passava pelo vidro, alternando sombras e claridade no meu rosto. Era uma rotina sem fim, o controle, o poder, a violência. Um ciclo que eu mesmo havia criado. O motor do carro roncava baixo, o som grave e constante preenchendo o silêncio da quase madrugada barcelonense. As ruas ainda ferviam com o movimento noturno, turistas bêbados, casais rindo, o eco distante de alguma música eletrônica vazando de uma boate qualquer. Dirigia sem pressa, a mão esquerda apoiada no volante, a direita segurando o cigarro entre os dedos. O gosto amargo da nicotina se misturava ao aroma de couro do interior do carro. Meus pensamentos estavam longe nas contas, nos carregamentos, nos homens que eu ainda precisava eliminar. Quando o celular vibrou no banco do passageiro, atendi sem olhar o visor. — Fala. A voz de Leandro soou alta, abafada por música e risadas. — Dom, pørra, tu tá onde? — ele gritou, rindo. — Tô na boate Elysium. Vem pra cá, tá cheio de mulher bonita e bebida de qualidade. Revirei os olhos, jogando fora o resto do cigarro. — Não tô no clima pra isso, Leandro. Tenho que resolver umas merdås amanhã cedo. — Mentiroso. — ele riu. — Tu nunca dorme cedo, Castilla. Pega o carro e vem. Te guardo uma garrafa. Dei um leve sorriso, sem humor. — Guarda pra ti. — Covarde. — ele respondeu, e desligou antes que eu dissesse qualquer coisa. Continuei dirigindo, deixando o rádio tocar baixinho alguma música espanhola antiga. As luzes da cidade piscavam no retrovisor, e por um instante, achei que finalmente teria uma noite tranquila. Sem perceber, passei em frente à boate que Leandro havia mencionado. A fachada era moderna, o letreiro dourado refletia a luz dos faróis. Havia uma fila longa na calçada mulheres rindo, caras tentando parecer importantes. Eu iria seguir, mas algo me fez pisar levemente no freio. De pé na fila, com um olhar impaciente, os braços cruzados e a postura de quem domina o próprio espaço. Luzes vermelhas da entrada refletiam nos cabelos dela, realçando o tom de vermelho intenso, como fogo sob a luz noturna. A saia curta e o colete preto moldavam um corpo que parecia ter sido desenhado pelos deuses para me provocar. Quadris marcados, pernas firmes, o tipo de mulher que não passava despercebida nem que quisesse. Mas não era só a beleza. Era a energia. Algo nela parecia... perigoso. Por um segundo, esqueci de respirar. Com toda certeza, ela era a mulher mais bonita que eu já havia visto em toda minha vida. Não era o tipo de homem que se deixava capturar por uma imagem. Não era o tipo de homem que se distraía com curvas ou sorrisos. Mas havia algo nela que me prendeu, como se o mundo inteiro tivesse ficado em silêncio por alguns segundos. Quando percebi, já estava dando a volta no quarteirão. A racionalidade dizia pra seguir o caminho e ir pra casa, mas meus dedos já giravam o volante de volta. — Merdå... — murmurei, meio rindo de mim mesmo. Estacionei o carro em frente à boate e saí. Os olhares dos seguranças na porta se desviaram assim que me viram. Reconheceram. Ninguém ousava barrar Vicente Fernández, o empresário de fachada, dono de hotéis e investimentos que lavavam milhões. Aquele nome abria portas e silenciava perguntas. — Señor Fernández, buenas noches. — o segurança da entrada se apressou em abrir espaço. — Buenas noches. — respondi, seco. Passei direto, ignorando a fila e os olhares curiosos. A música dentro era alta, vibrante, o tipo de som que fazia o chão pulsar. As luzes piscavam em tons vermelhos e azuis, e o cheiro de perfume caro e álcool queimava as narinas. Meus olhos percorreram o salão, varrendo rostos, curvas, vultos em movimento. Ela não estava mais na entrada. A mulher havia entrado. E, sem entender o motivo, meu corpo começou a andar antes da minha mente decidir. Eu não sabia quem ela era. Mas já sabia que precisava encontrá-la.
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