Capítulo 05 - Conquistada.

1440 Words
Atena Oliveira 22/04 | Barcelona, ES O Elysium pulsava como um coração descontrolado. Luzes vermelhas e azuis riscavam o ar denso de perfume e álcool. O som fazia o chão vibrar, uma batida constante, quase animal. Caminhei com Elena até o bar e pedimos dois drinks. Ela vestia um vestido violeta justo o bastante pra arrancar olhares, uma jaqueta jeans pendurada nos ombros e um salto que soava como provocação a cada passo. Os cabelos loiros caiam soltos, em ondas preguiçosas. — Você tinha algum ficante no Brasil? — ela perguntou, com o copo já nos lábios. — Nada sério — respondi, dando um gole lento na bebida. — Sexø casual? Assenti. Ela apenas concordou, sem julgamento. — E você? — devolvi, curiosa. Fazia dois anos que meu irmão tinha morrido, e mesmo que a dor tivesse perdido o peso, ainda era um nome que pairava entre nós. — Não. — Ela olhou pro copo antes de continuar. — Nunca mais tive alguém depois dele. A sinceridade dela me atravessou. Elena amava o meu irmão mais do que eu jamais percebi. Dois anos sem sequer beijar alguém… isso dizia tudo. Ela respirou fundo e, num esforço visível, forçou um sorriso. — Mas chega de conversa. Vamos dançar. — Vamos. — Engoli o resto do drink e puxei-a pela mão. A pista de dança era um mar de corpos, todos em transe. As luzes se moviam rápido demais, o som era alto demais, perfeito pra quem queria se perder por algumas horas. Dançamos como se o mundo não existisse fora dali. Pela primeira vez em muito tempo, eu ri de verdade. Até que Elena se aproximou do meu ouvido, a voz rouca de riso e álcool. — Tem um cara que não tira os olhos de você. — Aonde? — perguntei, intrigada, sem parar de dançar. — À esquerda. Encostado no bar. Camisa preta. Tatuagem no pescoço. Fingi desinteresse, mas cada palavra dela foi abrindo espaço para a curiosidade. Aos poucos, fui girando, no ritmo da música, até que o encontrei. E então o tempo parou. Ele estava ali, um homem que não parecia pertencer àquele lugar, ou talvez fosse o único realmente à altura da escuridão do Elysium. Camisa social preta, mangas dobradas, pulseira de couro no pulso. O copo de uísque na mão direita refletia o brilho das luzes, mas o olhar... o olhar era puro aço. Profundo, escuro, impenetrável. Quando nossos olhos se cruzaram, um arrepio me subiu pela espinha. Ele sorriu, não um sorriso simpático, mas um que dizia eu te vi, e agora você é um problema meu. Quase perdi o equilíbrio. Virei de costas, tentando esconder o tremor que percorreu meu corpo. — Ele é muito bonito — murmurei, ainda atordoada. Elena me olhou com um sorriso enviesado. — Bonito? Esse é Vicente Fernández. Um dos homens mais ricos da Espanha. Dono de metade dos hotéis da Europa. Olhei pra ela, chocada. — E por que diabos ele tava me olhando? Ela soltou uma risada curta. — Você se olhou no espelho hoje? Não é só ele, Atena. Metade do bar tá hipnotizada por você. Revirei os olhos, mas a dúvida ficou latejando. Dei uma olhada ao redor e percebi — de fato, alguns olhares masculinos insistiam em me seguir. — O que eu faço? — perguntei, sem disfarçar o nervosismo. Elena ergueu o copo, provocante. — Faz o que você faz de melhor. Seja perigosa. Sorri de canto. E obedeci. Virei-me de novo. Ele ainda estava lá. Só que agora não estava sozinho, um homem ao lado dele, também atraente, mas ofuscado pela presença de Vicente. O outro era mais casual, pele n***a em tom quente, porte firme. Mas Vicente… Vicente era outra coisa. Alto. Ombros largos. Corpo esculpido sob o tecido preto. A pele bronzeada, marcada por tatuagens que escapavam pela gola aberta da camisa e pelas mangas dobradas. Cabelos escuros, barba cerrada, e olhos que pareciam carregar séculos de controle e pecado. Quando nossos olhares se encontraram novamente, ele arqueou uma sobrancelha, como se já soubesse o que eu estava pensando. Disse algo ao amigo e então começou a vir na minha direção. O tempo pareceu desacelerar. Cada passo dele atravessava o espaço como uma sentença. Meu coração martelava. Ainda assim, continuei dançando. Lentamente, como se o movimento fosse uma provocação calculada. Ele não desviava os olhos. E quando finalmente parou diante de mim, com aquele sorriso torto e predatório, eu soube que essa noite renderia mais do que eu esperava. — Boa noite. — A voz dele soou como um trovão abafado, grave e rouca, com um sotaque espanhol arrastado que me percorreu como uma corrente elétrica. — Poderia saber o nome da dona desse olhar matador? O ar pareceu sumir por um segundo. Senti meu corpo inteiro reagir antes mesmo que eu pensasse em responder — pele arrepiando, respiração travando, coração batendo rápido. Mas mantive o sorriso, aquele que eu usava quando precisava ter o controle. — Atena. Ele arqueou uma sobrancelha, um sorriso lento surgindo no canto dos lábios. — Achei que fosse esculpida pelos deuses… mas pelo jeito é a própria deusa. — sussurrou, aproximando-se o bastante para o calor da sua respiração tocar minha orelha. Um arrepio subiu pelo meu pescoço, e o pior é que ele percebeu. O maldito percebeu. — Tenho certeza de que Afrodite invejaria sua beleza — completou, com uma calma quase c***l. Senti meu rosto aquecer, mas não me permiti recuar. — E posso saber o seu nome? — perguntei, disfarçando minha vulnerabilidade com o mesmo veneno no olhar. Ele sorriu, um sorriso perigoso, lento, calculado. — Vicente Fernández. — pegou minha mão com firmeza e a levou aos lábios, demorando o suficiente para que meu pulso acelerasse sob sua pele quente. — Um prazer em conhecê-la. — Prazer o meu. — retribuí, com a voz mais baixa do que o normal. O olhar dele se aprofundou no meu. Um olhar que não pedia, tomava. — Gostaria de lhe pagar uma bebida. E à sua amiga também, se me permitir. — murmurou, desviando o olhar brevemente para Elena. Ela conversava com outro homem, mas o sorriso malicioso dela quando me viu foi resposta o suficiente. Fui até ela. — Ele quer pagar bebida pra nós duas. — contei. — Ótimo. Estou precisando de algo forte — ela disse, rindo, e veio comigo. Quando passamos pelo meio da pista lotada, senti mãos firmes tocarem minha cintura, o toque dele. Não era invasivo. Era uma marca de domínio disfarçada de gentileza. A respiração dele roçou meu pescoço. — Não posso perder uma deusa grega de vista. — sussurrou, e o som da voz grave fez meu corpo reagir antes que eu conseguisse disfarçar. “Esse homem vai ser um problema”, pensei. E parte de mim queria ter um problema. Ficamos lado a lado no bar. A música era alta, as luzes piscavam, mas o mundo pareceu diminuir até caber apenas naquele espaço entre nós dois. — Tenho a leve impressão de que você não é daqui. — disse ele, observando cada movimento meu. — Sou do Brasil. — respondi, com naturalidade ensaiada. — Estou aqui a trabalho. Ele inclinou a cabeça, como se analisasse uma peça rara. — Então é graças ao seu trabalho que estou tendo uma noite interessante. — A forma como disse “interessante” soou como um convite e uma ameaça ao mesmo tempo. O sorriso dele era uma armadilha. A voz, um labirinto. E eu estava entrando de olhos abertos. Dei um gole na bebida, mas o gosto do vinho parecia mais doce agora. Meus olhos se demoraram nos dele por um segundo a mais do que deveriam, e ele percebeu. O maxilar dele travou, os músculos tensionados sob a camisa preta. — Se continuar me olhando assim… — ele disse, com um meio sorriso, voz rouca. — Vou ser obrigado a tirar você daqui, nem que seja nos meus ombros. Soltei um riso baixo, provocante, deixando meus lábios se curvarem num desafio. — E se eu quiser continuar olhando? — retruquei. A mão dele pousou em minha coxa, firme, quente. — Então acho que o problema é todo meu. — respondeu, com um olhar que poderia incendiar a cidade inteira. Por um instante, esqueci completamente quem eu era. Esqueci que estava ali com uma missão. Que aquele tipo de homem, poderoso; confiante; perigoso, era exatamente o tipo que eu devia odiar e evitar. Mas a forma como ele me olhava... Não era como quem via uma mulher. Era como quem via um território prestes a ser conquistado. E talvez, por uma noite, eu quisesse ser conquistada.
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