Renata.
- Rio de Janeiro, 13 de fevereiro, Complexo da Maré.
Despertei sentindo minha cabeça latejando por causa da coronhada que levei, ainda estava meio desnorteada e sentindo meu corpo chacoalhando enquanto ouvia no fundo a voz de Kauã e uma segunda voz grave e totalmente desconhecida.
Abri os olhos, olhando ao redor procurando algo familiar, mas a primeira coisa que vi foram olhos castanhos penetrantes e intensos — nada familiares pra mim. Quando percebi que era um homem desconhecido, pulei de seu colo, sentindo minha cabeça latejar mais ainda. Analisei o cara na minha frente, vendo que ele estava com uma arma enorme atravessada nas costas.
— Falcão... — Ele se apresentou e tirou o tecido do rosto, me dando uma visão total de seu rosto bronzeado e bonito.
— O que aconteceu? — Coloquei Kauã atrás de mim, mas ele passou para frente pra falar com o homem. — Quem é você?
— Mamãe, ele ajudou a gente. — Meu filho defendeu o tal Falcão, e eu olhei pra ele. — Aqui, tio, o seu radinho. — Kauã entregou o objeto na mão dele, que pegou e fechou a mão na altura do meu pequeno. Kauã entendeu que era pra dar um soquinho e assim fez.
— Ahn... obrigada. — Falei, e o homem olhou pra mim assentindo.
— Tem bronca não, princesa. — Sua voz era grossa e me deixou meio desestabilizada. — Vou indo lá. Fé aí! — Ele falou e deu as costas, indo pra rua onde estávamos antes.
— Vamos entrar, filho. — Abri a porta e ele passou correndo. Já eram dez da noite e eu estava cheia de adrenalina no corpo ainda; acredito que Kauã estava da mesma forma. — Vai tomar um banho pra tirar o suor, depois vem pra sala pra gente assistir um filme.
— Tá bom, mamãe! — Ele foi tomar um banho e eu fui fazer pipoca enquanto pensava no que acabou de acontecer.
E quando eu menos esperei, aqueles braços musculosos e tatuados, e seus olhos marcantes estavam na minha mente. Olhei pro nada enquanto lembrava das suas características marcantes: a pele escura, as tatuagens, o olhar que deixaria qualquer mulher beijando seus pés. Me perguntava de onde esse cara tinha saído — eu nunca o tinha visto antes. Não que eu saísse muito de casa, mas conhecia de vista algumas pessoas, mas ele nunca.
Sair dos meus pensamentos com o celular vibrando.
Mensagem on
"Você tá bem? Tá em casa?" — era Tamires mandando mensagem.
"Estou bem, acabei de chegar em casa, estava na rua quando tudo começou."
"p**a merda amiga, mas que bom que chegaram em segurança."
"E vocês estão bem?"
"Estamos sim, está tudo certo." — suspirei e ela continuou digitando.
"Amanhã nos vemos, vou dormir. Boa noite, te amo!"
"Boa noite, também amo vocês!"
Mensagem off
Coloquei a pipoca em um balde como os do cinema e vi Kauã vindo — como sempre vinha — com a toalha em volta do corpo e roupas nas mãos. Ele ainda não sabia se vestir sozinho e sempre pedia ajuda. O ajudei e ele se sentou no sofá pra assistir o desenho que eu tinha escolhido.
Me sentei ao seu lado e coloquei o balde de pipoca entre nós dois. Ele ia comendo enquanto o filme rolava, e eu também fui comendo.
Quando percebi, ele já estava em sono pesado ao meu lado. Eu o puxei pro meu colo pra que ficasse mais confortável — meu colo nunca ficaria pequeno demais pra ele. Meu filho era a coisa mais importante na minha vida; ele é a minha luz.
Acariciei seus cabelos, abracei mais seu corpo e me levantei, levando-o pro meu quarto pra dormir comigo naquela noite.
(...)
As meninas chegaram no domingo por volta das onze horas. Elas trouxeram carne pra fazer churrasco, e eu já tinha preparado as guarnições. Kauã pediu pra que eu colocasse sua piscina na rua pra brincar com as outras crianças, e assim fiz. A rua era sem saída, por isso eu deixava ele brincar, impus o limite de até onde poderia ir e ele sempre obedecia — Kauã nunca foi desobediente.
Dei uma olhada nele e voltei pra dentro de casa pra começarmos a luta de acender a churrasqueira. Eu amava esses momentos, em família e com pessoas que amo e que me fazem sentir amada.
— Vocês sabem o porque da invasão de ontem? — Maria começou a falar como se fosse contar a maior fofoca de todos os tempos.
— Não sei, diz aí. — Tamires falou, e eu encarei ela.
— Estavam dizendo que o Falcão saiu da cadeia ontem e já veio pegar o morro de volta. Me sinto até mais aliviada.
— Falcão? — Perguntei prestando atenção na conversa. — Vocês conhecem ele?
— Todo morador antigo conhece ele. Era o antigo dono daqui, quando o tráfico comandava. — Tamires falou, e eu pisquei algumas vezes.
— Tráfico? — Perguntei meio desesperada. — O tráfico assumiu de novo?
— Sim, amiga. E pra ser bem sincera, nós moradores preferimos. Pode parecer loucura ouvir isso, mas assim a gente se sente mais seguro — eles respeitam todos os moradores.
— Vocês preferem o tráfico do que a polícia? — Perguntei ainda desacreditada.
— Você sabe como eram aqueles policiais, Rê. Eles humilhavam os moradores todos os dias. — Tamires falou, e eu assenti. — Além de que toda vez que você passava lá, eles te comiam com os olhos, você nem percebia.
— Nunca percebi mesmo. — Falei dando de ombros e fui temperar as carnes pra colocar na brasa.
— Quer uma cervejinha? — Maria ofereceu, e eu neguei com a cabeça.
— Vocês sabem que eu não bebo com Kauã por perto. — Falei, e elas concordaram. — Mas aceito uma dessa coca aí.
Ela jogou uma lata de coca pra mim, e eu abri tomando um gole.
— Mamãe, o tio Gavião veio brincar comigo, olha lá. — Kauã apareceu na sala todo molhado, e eu procurei na minha mente quem diabos era "tio Gavião". Pelo visto Maria e Tamires também não sabiam, já que me olharam sem entender nada.
— Quem, filho? — Segurei sua mão e fui pro lado de fora da casa, onde vi Falcão brincando de bola com umas crianças.
Ele não parece um traficante — não entra na minha cabeça que ele é envolvido.
Ele me viu e chutou a bola pra uma das crianças antes de vir pra perto de mim.
— E aí, princesa. — Ele cumprimentou e botou o boné pra trás, me dando uma visão mais clara do seu rosto.
— Ah, você é o Gavião! — Afirmei, e ele riu.
— O menor ainda não aprendeu meu vulgo certo. — O sotaque carioca dele era forte e deixava tudo ainda melhor.
— O que quer? — Perguntei direta, e ele me olhou com uma cara fechada.
— Nada não, vizinha. Só vim ver a casa aqui da frente, e acabei parando pra brincar com os moleques. — Cruzei os braços, e seu olhar foi bem pro meu peito.
— Vai morar aí? — Perguntei surpresa, fazendo ele olhar pro meu rosto de novo, alternando o olhar entre meus olhos e minha boca.
— Desde que eu cheguei aqui, ninguém mora nessa casa. — Ele falou, e eu assenti. — E essa daí já era minha casa antes de eu ir em cana. — Ele falou, e eu assenti. — Tem problema eu ser seu vizinho? Ou é tentação demais? — Ele brincou, e eu gargalhei irônica.
— Tentação pra você, né? Porque você quase não olhou no meu olho desde que chegou perto de mim.
— Detalhes, princesa. Amanhã tem baile, tu é minha convidada. — Ele piscou e saiu em direção à moto estacionada do outro lado da rua. Entrei de novo pra dentro de casa e as duas irmãs me olharam com interrogação na testa.
— Pelo amor de Deus, Renata, o que foi isso? — Maria foi a primeira a falar.
— Não sei o que foi pior: ele descaradamente dando em cima de você ou você dando fora nele como se ele fosse nada. — Foi a vez de Tamires falar.
— Eu não tenho nenhum interesse em caras como ele, e não me sinto culpada em dar foras.
— E em que cara você tem interesse, Rê? — Maria rebateu. — Em um baixinho de menos de um metro que ainda pede pra você colocar roupas nele?
— Kauã é o único homem na minha vida. E vai permanecer assim! — Afirmei, e elas se olharam.
— Faz quanto tempo que você não transa? — Tamires perguntou.
— Sei lá, não me importo. Isso não é uma prioridade pra mim.
— Por isso que tá toda tensa. Relaxa e goza, Rêzinha, tenho certeza que esse cara aí daria tudo pra te pegar. Tu é toda gostosa com esses peitões e essa bundona.
— Tá maluca, Tamires? Capaz de eu pegar uma DST se ficar com um desses bandidinhos. E não é nem uma questão a se discutir — eu não quero ninguém.
— Tá, tá. Você que sabe. Mas se quiser umas dicas pra hora H, só chamar a gente. — Gargalhamos, e Kauã entrou em casa de novo alegando que estava com muita fome.
Ri do drama dele porque o pequeno tomou um café reforçado antes de ir pra rua. Me levantei, pegando as comidas e as carnes cortadas, e coloquei tudo na mesa. Servi meu bebê e me servi logo em seguida. Eu amo churrasco com todas as minhas forças — morreria se tivesse que viver sem uma carne assada na brasa. Comemos rindo das graças de Kauã, e ele comia feliz da vida bebendo coca.