cap 02 Recomeçar

1191 Words
Renata. - Rio de Janeiro, 13 de fevereiro. Complexo da Maré. Dias atuais. Subi o morro cheia de sacolas e Kauã estava do meu lado, segurando minha camisa já que minha mão estava ocupada. Tamires hoje não pôde ficar com ele por ter um compromisso, então eu não fui trabalhar e fiquei com o menino. Por ser sábado, ele não tinha aula, e eu não conhecia ninguém de confiança por aqui que pudesse deixá-lo — e nem queria que alguém desconhecido cuidasse dele. Kauã é calmo, mas como qualquer criança, é uma grande responsabilidade. — Mamãe, quero colo. — Ele resmungou. — Já estamos chegando em casa, meu amor. Aguenta só mais um pouquinho. — Ele franziu a testa, mas continuou andando cansado. Assim que chegamos, coloquei as sacolas na cozinha e comecei a preparar o almoço para mim e para meu bebê, enquanto ele estava entretido pintando um desenho. Eu me mudei para o Complexo da Maré por ser um local que parecia mais seguro, com baixa criminalidade e que caberia no meu orçamento baixíssimo. Obviamente, se eu tivesse dinheiro de sobra, iria para outro estado e começaria do zero. Mas só de mudar de bairro já me sentia aliviada. O morro estava sob posse da polícia. Era bom, mas ao mesmo tempo r**m: eles mantinham a segurança dos moradores, mas sempre batiam nos meninos jovens que passavam, simplesmente porque os olharam ou por motivos sem sentido — era um abuso de autoridade sem limites. Quando cheguei aqui, um dos policiais fez com que eu jogasse todas as minhas roupas no chão; as roupas na bolsa do meu filho também foram espalhadas para verificar se eu não estava trazendo drogas. Eu já tinha pago o primeiro aluguel, então a única opção foi engolir aquela atitude e seguir em frente. — Mamãe, o Lucas perguntou se eu posso ir no aniversário dele amanhã. Eu posso? — Meu filho chegou de banho, enrolado na toalha e com as roupas na mão para que eu o ajudasse a trocar. Ele estava enorme, prestes a fazer cinco anos. Meu maior orgulho. — Vou ver certinho, filho. — Respondi, e ele assentiu compreendendo. Passei a roupa pelo seu corpo pequeno e ele se sentou na mesa para aguardar o almoço. Coloquei no prato dele a comida fresca que acabara de fazer, uma colher e um copo de suco também recém-preparado. Logo depois servi o meu prato e me sentei à sua frente, comendo enquanto via Kauã enchendo a barriga — não havia sensação melhor do que essa. — Você tá com sono, amor? — Perguntei, vendo que ele estava com os olhinhos meio pesados, e passei a mão pelos seus cabelos. Tive que acordá-lo muito cedo para levá-lo comigo enquanto resolvia assuntos da escola dele. Faltei ao trabalho por causa dele, mesmo sabendo que estava colocando o emprego em risco. Expliquei os motivos para a minha chefe, torcendo para que ela não me mandasse embora. — Tô, mãe. — Ele respondeu e tomou o último gole do suco. — Vai pro quarto logo então. Daqui a pouco eu te acordo para fazer o dever de casa. Ele assentiu, se levantou e veio até mim, beijando minha bochecha como sempre fazia. — Te amo, minha vida. — Falei carinhosamente. — Te amo, mãe. — Ele foi para o quarto e eu cuidei de lavar as louças sujas, além de dar uma arrumada geral na casa enquanto ouvia pagode baixo para não incomodar o sono de Kauã. Meu filho era a minha cara. A única coisa que puxou do pai foram os olhos verdes; de resto, toda a aparência e personalidade eram minhas. Ele pouco se lembra do pai, me perguntou algumas vezes e chegou a chorar poucos dias depois da morte de Dan. Mesmo que eu me sentisse m*l por ter que explicar que o pai dele não estaria mais conosco, ao mesmo tempo me sentia aliviada por não viver mais aquele inferno — e por Kauã não crescer em um ambiente familiar como aquele, se é que aquilo poderia se chamar família. Família, pra mim, somos eu, Kauã, Tamires e Maria Eduarda. Elas duas foram as únicas que se aproximaram de mim; são irmãs e minhas vizinhas, e sei que com elas posso contar. Sabem uma parte da minha história: que vivi um relacionamento conturbado antes de vir para cá e que Dan está morto. Maria foi quem me ajudou a conseguir um emprego na mesma loja onde ela trabalha aqui no complexo. Tamires é a mais nova das duas, tem dezesseis anos e cuida de Kauã quando eu vou para o trabalho ou preciso resolver algo que não posso levá-lo junto. Terminei a arrumação da casa, pausei a música e fui em silêncio para o banho. Aproveitei para lavar os cabelos e fazer uma hidratação que estava precisando. Assim que saí do banheiro, coloquei uma roupa fresca — pois fazia quase quarenta graus no Rio naquele dia. Fui para a sala e liguei a TV para assistir algum filme. Aproveito esses momentos enquanto Kauã dorme. São raros, mas acontecem algumas vezes. O tempo passou voando e, quando percebi, eram quase cinco da tarde. Acordei Kauã, mesmo ele resmungando que estava cansado — mas se eu não o acordasse, ele não dormiria à noite. Cerca de meia hora depois, Maria e Tamires chegaram. As duas trouxeram pão fresquinho e eu já fui preparando café para comermos juntas. — Como a Fabrícia estava? — Perguntei pela minha chefe. — Acho que ela estava de boa. Na segunda você vai saber direito, mas você é uma das melhores vendedoras — acho que não vai te mandar embora por uma falta. — Maria respondeu, e eu suspirei aliviada. Elas ficaram ali até anoitecer, conversando comigo e com Kauã. Ele parecia um adulto no meio de nós, falava tão sério que parecia realmente entender do que a gente estava falando. Quando deu mais ou menos oito horas, decidi levá-lo para a praça que ficava perto de casa. Ele não dormiria naquele momento, e eu precisava cansá-lo — nada melhor do que deixar ele correr por toda a praça enquanto eu como algo das barraquinhas que vendem lá. Arrumei ele, passei um perfume, descemos e avisei as meninas que estávamos ali, caso quisessem vir. Assim que chegamos, me sentei em um banco e deixei ele correr. Logo Kauã fez um amiguinho, e os dois estavam brincando no balanço sob o meu olhar atento. Eu observava meu filho correndo e pensava o quão rápido ele estava crescendo. No próximo mês ele faria cinco anos, e eu estava tão nostálgica: lembro exatamente como foi quando ele nasceu, quando falou a primeira palavra — que foi "mamãe" — e quando deu os primeiros passos. Ele acenou para mim de longe e fez uma careta engraçada, mostrando que estava bem depois de ter levado um tombo. Sorri e acenei de volta. Me congelei quando ouvi um barulho muito conhecido: eram tiros. Uma rajada de tiros, vindo de todos os lados. Me desesperei e meu primeiro reflexo foi correr até onde Kauã estava. Peguei ele no colo e corri até um beco onde estaríamos protegidos.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD