Eric Ramos não era do tipo de pessoa que acreditava no amor, para si isso era algo fictício, mas quando o alfa dizia algo assim para seus amigos eles riam como se estivesse contando alguma piada muito engraçada, porém o Ramos levava aquilo muito a sério. Em um mundo onde o conceito de almas gêmeas era real e todos sonhavam em encontrar as suas, mesmo que as chances sejam quase nulas, talvez as palavras de Eric não fizessem sentido, mas para ele, aquela era a única verdade.
Essa sua "percepção" veio dos anos que passou presenciando as brigas de seus pais. Eric lembrava dos gritos, das palavras de ódio e até mesmo das agressões que seus pais cometeram um contra o outro, seu pai estava sempre com raiva de sua mãe por qualquer motivo que fosse e a ômega estava sempre gritando com o homem e arremessando qualquer coisa que visse pela frente em sua direção, e em meio a isso estava o pequeno alfa lúpus ouvindo cada xingamento, cada choro e se sentindo culpado dia após dia por não conseguir fazer nada. Mas o que poderia fazer? Ele era uma criança.
Sempre que tinha uma oportunidade, a mãe do Ramos fazia questão de ter longas conversas com o garoto sobre como odiava tudo aquilo e que preferia morrer sozinha a continuar naquela casa junto com seu pai ou com ele, pois segundo a mulher Eric era irritantemente igual ao progenitor, com as mesmas manias e defeitos e ela o odiava por isso. O pequeno alfa nunca dizia nada sobre aquilo, nunca se lamentava pelas palavras crueis de sua mãe, ele apenas ficava lá sentado ouvindo a mulher enquanto guardava tudo que sentia para si. Do outro lado, seu pai fazia questão de dizer o quanto o garoto era inútil, sempre tão sensível e fazendo coisas "imbecis" de criança, ele não entendia quando o outro alfa falava coisas assim, afinal o Ramos era uma criança, então porque não poderia agir como uma? O lúpus sempre estava triste com tudo aquilo, mas nunca reclamava ou demonstrava nada, sempre aguentando firme enquanto se afundava junto com os mais velhos.
Seus pais sempre estavam lá descontando a raiva que tinham um do outro em si, mas ele nunca dizia nada, eles ainda eram seus pais, ainda os amava e ainda acreditava que os progenitores lhe amavam apesar de tudo que diziam e faziam. Eric era uma criança em meio ao caos e em sua cabeça jovem e ainda ingênua só lhe restavam duas opções, ou se juntava aquela loucura, ou fechava os olhos e ignorava tudo ao seu redor esperando a tempestade passar. Na época ele preferiu a segunda opção, afinal ainda era uma criança que só queria viver sua vida normalmente e em paz sem se preocupar com qual seria o motivo da próxima briga que faria seus pais gritarem um com o outro enquanto ele tapava os ouvidos e tentava dormir.
Em meio aquilo tudo, o que o Ramos mais ouvia era que nunca houve amor entre os mais velhos, seus pais se casaram porque sua mãe estava grávida de si e seu avô materno obrigou o alfa a se casar com a ômega então todos faziam questão de lhe lembrar o quanto tudo aquilo era culpa sua e Eric realmente acreditava naquilo, mas com sua ingenuidade ainda acreditava que pudesse haver um pouco de amor para ele.
Não demorou muito para que aquela situação chegasse ao limite, sua mãe fugiu e o deixou para trás, a mulher não foi muito longe, se mudou para a casa do amante que morava na esquina, porém era como se a ômega tivesse se mudado para outro país já que o garoto nunca mais viu a mãe. "O amor é como um placebo, você toma pensando que é um remédio ou a cura para seus problemas, no fim você pode até se sentir melhor, mas a verdade é que ele não passa de algo inativo e inexistente, que te dá esperanças e as roubá logo em seguida, não há algo mais mentiroso do que o amor, então nunca espere por ele Eric, nem de mim nem de ninguém, como posso amar uma criança que nunca quis que nascesse?" Foi o que ouviu de sua mãe no dia em que ela foi embora, seu pai nunca o quis e fez questão de lhe abandonar quando teve a chance, nenhum dos seus avós tinham tempo para lidar com uma criança, então Eric foi para um internato, ele ficou sozinho, se sentia sozinho, amargurado e completamente desacreditado de todo tipo de amor que alguém pudesse dizer sentir por si, porque no fundo ele sabia que a mãe tinha razão.
Seu lobo também se afetou com tudo aquilo, se tornando cada vez mais irritado e instável fazendo o alfa perder o controle algumas vezes, mas com o tempo ele aprendeu a lidar com isso.
Com muito esforço, Eric conseguiu uma vida que muitos invejavam, ele tinha negócios bem sucedidos, dinheiro, um nome importante e vivia a vida como bem entendia. No mundo do Ramos, a coisa mais importante era ele próprio e o quanto ele podia aproveitar tudo o que tinha agora para esquecer o passado, seu mundo era escuro e frio, mas ele gostava disso, em seu mundo não existia amor ou toda aquela idiotice sobre almas gêmeas, só existia proteção. Eric era reservado, "frio" e, como muitos gostavam de dizer, inalcançável.
Por muito tempo o Ramos tentou curar seu passado com uma ou duas garrafas de whisky e alguns corpos quentes e de certa forma funcionava, mesmo que no outro dia ele acordasse se sentindo pior. Seu lobo, por outro lado, sempre se irritava com aquilo, sempre desprezando o cheiro de qualquer ômega com quem o alfa se envolvia, sempre rosnando para cada toque que recebia e fazendo com que Eric se sentisse estranhamente angustiado com suas ações, os lúpus eram muito influenciados por seus lobos e o Ramos odiava isso, por isso passou a preferir a companhia dos betas em sua cama na maioria das vezes. Porém, depois de um tempo, Eric percebeu o quanto aquelas atitudes apenas o deixavam mais vazio e fechado dentro do seu próprio mundo, ele sempre estava magoando alguém na manhã seguinte.
-Espero que já esteja pronto-Bernardo Almeida, o alfa, melhor amigo e sócio do Jeon, falou entrando no quarto do lúpus sem sequer bater, afinal eles sempre tiveram essa i********e-Não podemos chegar atrasados.
Eric e Bernardo se conheceram no internato onde estudaram desde crianças, se tornaram quase como irmãos e quando finalmente conseguiram se formar os dois se juntaram para abrir sua primeira empresa, a primeira de muitas, atualmente ambos têm 32 anos e já tinham ganhado mais dinheiro do que poderiam gastar nessa vida.
O Almeida e o Ramos lutaram muito para chegar onde estavam, sempre sendo responsáveis e esforçados e sempre ajudando um ao outro.
-Nós nunca chegamos atrasados, Bernardo-Eric falou enquanto arrumava sua gravata em frente ao espelho mantendo uma expressão calma em seu rosto, o que já era característico do alfa, ele sempre estava calmo por fora, acreditava que assim era mais fácil de manter o seu interior com a mesma serenidade-Ainda não entendo porque você fica nervoso, já fizemos isso tantas vezes, é só mais um hotel que vamos comprar.
-Não sei, eu só fico nervoso-O Almeida suspirou enquanto andava pelo quarto esperando o amigo terminar de se arrumar.
-Sério? Não será porque foi nesse hotel que você conheceu a Sophia?-O Ramos perguntou em um tom divertido vendo o amigo lhe olhar envergonhado.
-C-Claro que não-Jacob se amaldiçoou por ter gaguejando pois agora o amigo sabia que sua insinuação era verdade.
-Sei-O lúpus sorriu minimamente pela vergonha do amigo-Vamos logo, antes que você abra um buraco no chão do meu quarto.
Bernardo era uma das poucas pessoas com quem Eric ainda se permitia mostrar um lado mais extrovertido, sem muitas barreiras ou desconfiança.
-Você deveria ser simpático assim com as pessoas com quem fazemos negócios-O Almeida falou vendo o outro caminhar para fora do quarto e logo o seguindo.
-Para isso eu tenho você, o cara simpático.
-Você resumiu muito bem minha função na nossa sociedade, obrigado-Bernado falou em um tom de deboche enquanto revirava os olhos.
Eles iriam comprar o Hotel Claire de Lune, que como o Ramos falou, foi o lugar onde Bernardo conheceu sua atual namorada, Sophia. Nos últimos meses o Almeida Insistiu para que comprassem o prédio e Eric acabou cedendo, afinal confiava muito no amigo.
Os dois sócios saíram da mansão do lúpus rumo a mais um dia cheio de trabalho, agora era nisso que o Ramos descontava todo o seu remorso e sua frustração, no trabalho, talvez por isso ele fosse o melhor.