Saulo Prado
Observei a chuva incessante enquanto esperava quarenta minutos passarem. Pelo menos serviria como um tempo para descansar.
A minha mente girava em tudo que havia lido até então, o que seria aqueles acordos? E porque sempre buscavam transferir os casos para os mesmos tribunais?
Prometi a mim mesmo que não deixaria Angelina desconcertada novamente. Meu lado cafajeste precisava ser ignorado, ainda que o desejo de apertar suas nádegas, sentir meus dedos afundando em sua carne até deixarem marcas, fosse quase incontrolável.
Um curto grunhido escapou da garganta enquanto visava as gotas caindo.
Apoiei ambas as mãos espalmadas na tela do parapeito, afastando a ideia. Fazia apenas vinte minutos que eu havia conhecido aquela secretária. Como já podia estar tendo pensamentos insanos com ela?
Olhei para o relógio e um lampejo desconfortável cruzou minha mente. Trabalhando ali, certamente já tinha ido para a cama com um dos Prados. Teria ido?
Evidente que sim. Qual mulher não faria isso por um privilégio qualquer? E um pensamento ainda pior me veio à mente: poderia até ter um filho bastardo como eu, em casa.
Mulheres... todas iguais. Não podem ver dinheiro e luxo.
Respirei fundo e decidi subir para aquele andar. Entrei no elevador lotado e, como resultado de uma luta travada há séculos, me vi cercado por figuras femininas.
A empresa ganhava vida por mulheres.
Uma batalha interminável de perfumes tomava o ar. Olhares curiosos me analisavam. Ali, todos pareciam saber quem era quem.
Pelas cutucadas discretas, percebi que minha presença estranha chamava atenção. Ou talvez fosse a semelhança com os Prados. Algo que, pelo visto, eu não poderia esconder.
Ser um desconhecido não parecia vantajoso e um Prado também não.
Ao chegar ao andar presidencial, vi Angelina ao telefone. Ouvi cada palavra da ligação, sem dificuldade. Para mim, nenhuma novidade. Meus ouvidos atentos sempre fora um dom.
Débora também não me parecia confiável. Mas, pelo visto, contratar um ator para fingir ser advogado saía mais caro do que usar um bastardo. Finalmente, encontraram alguma utilidade para mim na família.
Palhaço.
E minha mãe ainda sonhava com uma redenção dessa gente.
Pensei nisso enquanto confrontei Angelina na sala, a sós. Nada naquele lugar me parecia confiável.
Não me sentia à vontade. E, sem que ela soubesse, eu já tivera acesso a alguns daqueles documentos que tentava esconder de mim. Muitos casos haviam sido encerrados com acordos que beneficiaram mais aos clientes do que os reclamantes.
Aquilo cheirava a uma operação criminosa gigantesca. Mas ainda era cedo para concluir qualquer coisa.
E o que eu poderia fazer? Quem era eu diante daquilo tudo? O que valia um pequeno advogado sem nome e sem recursos?
— Você concorda com isso? — perguntei à mulher sentada à minha frente.
Angelina ergueu os olhos, parecendo um pouco distraída.
— Não deveria ter ouvido o que ela disse. Débora não é assim, ela apenas não lhe…
Já havia notado a relação próxima entre as duas, mas isso não me interessava.
Eu me tornei advogado para fazer justiça. Ainda acreditava nisso. Ganhar dinheiro e estar bem financeiramente era importante, mas a ideia de um mundo justo não saía da minha mente.
Era um oásis. Uma ilusão que se despedaçava com a lembrança dolorosa de minha infância. Como o filho de um homem tão rico podia receber uma pensão tão pequena?
Era evidente que até nisso eles haviam burlado.
As noites intermináveis em que minha mãe costurava, remendava roupas, vendia tapetes… tudo veio à mente. Eles nunca se importaram comigo. Ou melhor, com ninguém.
*****
— O senhor não vai almoçar? — Angelina perguntou, olhando para o relógio no pulso.
A olhei, cético. Como ela podia defender esse tipo de gente? Mas talvez ela fosse igual a eles.
Olhei meu próprio relógio. 13h42. As horas haviam passado sem que eu notasse. Angelina se levantou, deixando a cadeira no mesmo lugar.
Fernando me garantiu que ela era de confiança.
Deles!
— Há quanto tempo você trabalha aqui?
Angelina suspirou, apoiando as mãos nas costas da cadeira.
— Vinte e cinco anos. E não, não tenho interesse em me aposentar. Se não estiver satisfeito com meu trabalho…
Havia insatisfação em cada palavra.
— Não é isso — retruquei. — Só queria entender como você consegue dormir sabendo que pessoas estão sendo prejudicadas. Você sabe que, se não fosse a propina por trás de tudo isso…
Ela suspirou. Uma onda de impotência a envolveu. Como eu poderia cobrar dela uma atitude, se nem eu podia fazer nada?
— E o que você quer que eu faça? — Sua voz veio carregada de exaustão. — Tenho dois filhos. Sou assessora, secretária, faz-tudo aqui, se possível. O mundo é cheio de injustiças. Se eu não trabalho, não como. Se não levo dinheiro para casa, quem paga os estudos dos meus filhos?
Ela me deu as costas, e eu fiquei paralisado.
Ela sabia de tudo. De fato.
Meu olhar desceu para suas nádegas, que rebolavam dentro da saia verde escura. Seus fios vermelhos lisos estavam presos em um r**o de cavalo, a altura do meio das costas.
Ao passar pela enorme porta de madeira, ela se virou. Empurrou a armação dos óculos dourados com o dedo indicador e me avaliou com olhos verdes escuros… intrigantes.
Fui pego no ato.
A encarei, mas ela não demonstrou reação alguma ao perceber que eu olhava seu traseiro. Considerando que vê-lo sem aquele tecido verde seria ainda melhor.
— Precisa de algo, doutor? — perguntou, movendo os lábios rosados, sem batom.
Neguei com a cabeça. Era preciso ser realista. E ela era.
Voltou para trás de sua mesa e, com facilidade, empurrou a poltrona com as pernas. Não desviava os olhos dos meus.
Uma onda crescente subia dentro de mim. Até que desisti e desviei o olhar.
Não importava com quem ela já havia se deitado. Se foi com o avô, o pai ou o tio. Nada disso diminuía o desejo que eu sentia naquele momento.
Sua voz era provocadora. Seu jeito de andar, nada inocente.
— Estou saindo para almoçar. Terei que seguir o horário habitual ou haverá alguma mudança? — perguntou, trazendo a bolsa para o ombro.
— Onde você almoça? — Olhei o relógio rapidamente. Provavelmente, os restaurantes estavam fechando. — Posso usá-la como minha guia?
Sem dizer uma palavra, Angelina assentiu.
Esperou-me próximo ao elevador, que parecia levar uma eternidade para chegar.
— Alguns funcionários voltam agora. Você não mora aqui, não é?
A neguei com a cabeça. Tudo na empresa seguia normalmente. Quem suspeitaria que algo criminoso pudesse estar acontecendo ali?
— Não. Será que ainda encontraremos um lugar para almoçar, Angelina?
— Lina — corrigiu. — Pode me chamar de Lina. Sim, às vezes temos reuniões por perto.
Havia algo na voz dela.
Talvez a ideia de convivência começasse a ser aceita.