Não confio nele

1031 Words
Pov: Saulo Prado A chuva batia no vidro como dedos impacientes. Quarenta minutos. Era o tempo que eu tinha para domar meus instintos antes de enfrentar Angelina outra vez. Engolindo um café morno, doce ou não, talvez disputasse salgado. Mas como ignorar a imagem dela na minha cabeça? Seus quadris balançando sob o tecido verde, a carne das coxas marcando a saia justa... Meus dedos coçaram para afundar naquela pele, deixar minha mão impressa nela como um aviso: esta aqui é minha. Um grunhido escapou da minha garganta. Merda! Fazia vinte minutos que eu a conhecia. Vinte minutos e já imaginava como seria arrancar aquela compostura profissional com os dentes. Curioso para saber como ela seria fora de tudo aquilo. O elevador lotado me espremeu entre corpos femininos. Perfumes caros, olhares curiosos. Cutucadas disfarçadas. Todos sabiam quem eu era — ou melhor, o que eu sou: o bastardo dos Prado ou se perguntavam? Nenhuma mulher interessante, não tão quanto ela. E Angelina? Quantos Prados ela já tinha servido na cama? A imagem dela de pernas abertas para algum dos meus "parentes" me fez cerrar os punhos. Todas iguais. Dinheiro as corrompia, sem exceção. Escutei toda a conversa, e não era nenhuma novidade, aliás era, é, que algo fosse oferecido dos Prados. — Você concorda com isso? — perguntei enquanto Angelina ainda ruborizada fitava a tela, ela ergueu os olhos, lentamente, como se eu fosse um animal perigoso, e para ela, talvez fosse. Ela se afastou e saiu devagar até a sua mesa. — Débora não é assim. Ela só não... — Poupe-me. — Avancei até a mesa dela, invadindo seu espaço. O cheiro dela era um misto de baunilha e algo ácido, como pólvora disfarçada. — Você sabe que estão roubando os mais humildes com este esquema, Angelina? — Angelina não, pode me chamar de Lina — levantou de um salto. A saia agarrou nos quadris antes de escorregar de volta, um convite ao crime. — O que você quer que eu faça? — Perguntou quase retórica. — Tenho dois filhos para criar — ela cuspiu, os olhos verdes queimando. — Quer que eu faça o quê? Lute contra o sistema com um cartaz? A raiva dela era quase... sexy. Meu olhar desceu, traidor, até o decote que respirava rápido. Até as coxas que eu queria morder. Ela percebeu. — Precisa de algo, doutor? — sussurrou, arrastando os dedos na borda da mesa. — Estou saindo para almoçar? Você. De quatro. Gemendo meu nome em cima desta mesa agora. — Onde você almoça? — perguntei, ao invez do que o pensei. O sorriso dela foi lento, perigoso, como se me dissesse: Lugares que homens como você não frequentam. Desafio aceito! Eu teria aquela mulher e qualquer lugar, ou não me chamaria Saulo Ribeiro Prado! Pov: Angelina Garcia ANGELINA GARCIA O Dr. Saulo tinha aquele ar de homem que mudaria tudo. A postura de quem acreditava em justiça, os olhos azuis que queimavam com um fogo interno. Mas eu já tinha visto essa história antes. Homens chegando cheios de ideais. Homens se corrompendo. Homens como os Prado. O elevador demorava, como sempre. O ar condicionado soprava meu r**o de cavalo contra o pescoço, mas eu não tirava os olhos dele. A maneira como seus dedos tamborilavam na coxa, impacientes. A mandíbula tensionada. Quantos minutos até ele se tornar igual aos outros? Ketlyn, a assistente do Martinez, apareceu como um furacão de perfume barato e sorriso fácil. — Nós nos encontramos de novo! — Ela tilintou, os dedos roçando no braço dele como se já tivesse direitos. Meu estômago revirou. Já? Mas Saulo apenas deu um passo para trás — para o meu lado. Seu ombro quente pressionou o meu no canto apertado. — Pois é, a Senhora Lina e eu, vamos almoçar — disse quase para mim, só para mim, enquanto Ketlyn falava sem parar. Seu hálito quente no meu ouvido fez meus joelhos tremerem. Merda. O que eu estava sentindo? O carro dele cheirava a luxo e ambição. Couro novo, madeira polida. Um mundo distante do meu Corsa velho com cheiro de leite derramado. — Depois eu conserto o seu carro — ele disse, abrindo a porta para mim como se eu fosse uma dama, não a secretária de meia-idade com manchas de caneta na blusa. Seus olhos azuis escureceram quando me viram ajustar a saia ao sentar. Ele está olhando. Ele sabe que eu sei. No restaurante, entre garfadas na salada de salmão, ele me interrogou sem fazer perguntas: — Quase vinte anos trabalhando na Prado... — Os dedos dele traçaram o fio da taça de vinho. — Nunca pensou em denunciar? Minha garganta apertou. — Tenho dois filhos para criar. Ele sorriu, amargo. — E quantos Prado já passaram pela sua cama para garantir isso? O copo d'água na minha mão tremeu. De raiva. Pelo desrespeito, pela ofensa direta. — Nenhum. — Disse seca engolindo a ofensa goela abaixo, não que já o tivessem feito, era muito comum pensarem isto! — Você é tão rápido em julgar quanto é bonito, doutor? Seus olhos faiscaram nos meus, até que desviei lentamente, olhando em volta. Era perigoso, esse tipo de dança. Mas eu já tinha vivido o suficiente para saber que homens como ele só queriam uma coisa: Ser provados errados. De volta ao escritório, tirei a foto sem e le perceber. Mandei para Débora: "O substituto chegou. Bonito. Inteligente. Com uma lingua afiada,, muito cuidado." Ela respondeu em segundos: "Até você está impressionada?" Olhei para ele, curvado sobre os documentos, a língua passando nos lábios enquanto lia. Meu coração acelerou. Sim. Mais do que deveria. Ele percebeu o esquema muito rápido, não parecia ter controle no que faria depois dali. Quando bati na porta no fim do dia, ele me olhou como se lesse meus pensamentos mais sujos. — Angelina... — meu nome na boca dele soou como um convite. Eu sequer me lembrava do quanto era tão lindo. — Doutor Saulo — corrigi, segurando minha pasta como um escudo. Ele riu, baixo, rouco. — Tudo bem, senhora Lina. — O olhar dele desceu até meus sapatos práticos e voltou, lento como mel. — Chame como quiser.
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