Capítulo 16

1131 Words
Noah caminhava lentamente pelo cais, sentindo cada tábua de madeira ranger sob seus pés. O cheiro intenso de sal misturado ao aroma de peixe fresco preenchia o ar, mas ele m*l conseguia notar. Sua mente estava ocupada com imagens de Íris, seu rosto, os olhos cheios de intensidade e mistério, a memória de suas mãos se tocando pela última vez. Cada lembrança que tinha dela era agora amplificada pelo silêncio da manhã, pelo ritmo das ondas, pelo vento que sussurrava entre os mastros dos barcos atracados. Ele sentia como se cada elemento do mar estivesse lembrando-o de sua missão impossível: proteger Íris, entender seu mundo e, acima de tudo, não se perder na própria emoção. — Noah! — a voz veio de repente, cortando o silêncio como uma lâmina. Ele olhou para cima e viu seu pai caminhando em sua direção. A postura firme, os ombros largos e a expressão intensa deixavam claro que aquela conversa não seria casual. — Precisamos conversar. Agora. O coração de Noah acelerou. Ele sentiu uma pontada de inquietação, como se o mundo humano estivesse tentando alcançá-lo antes mesmo de ele conseguir agir pelo mundo submerso. — Pai… — começou, hesitante — você… está bem? — Bem? — o homem replicou, a voz grave e carregada de autoridade — Bem? Não, filho, não estou “bem”. Ouvi rumores, Noah. Pessoas falando sobre o que você anda fazendo perto do mar, sobre essa… garota misteriosa que ninguém deveria sequer conhecer. Quero respostas. Agora. Noah engoliu em seco, sentindo a pressão no peito. Cada rumor humano que chegava ao pai parecia pesar como uma rocha, empurrando-o para a beira do desespero. — Rumores? — disse, tentando manter a voz calma —, eu… não sei do que está falando. O pai parou à sua frente, cruzando os braços e fixando nele um olhar penetrante. — Não minta para mim — disse, firme, cada palavra carregada de gravidade —. Ouvi histórias de que você encontrou algo… alguém. Uma criatura do mar, algo que não deveria existir para nós. Que tipo de loucura é essa, Noah? Noah sentiu o peito apertar. Ele sabia que não poderia revelar tudo, não ainda. O mundo humano jamais compreenderia a verdadeira natureza de Íris e do povo submerso, e qualquer explicação parcial poderia gerar problemas irreversíveis. — Pai, não é o que você imagina — disse, as mãos levemente trêmulas —. Ela… ela é diferente, sim. Mas não é perigosa. Eu só… estou tentando compreender, aprender, entender… — Compreender? — a voz do pai subiu levemente, misturando preocupação, frustração e raiva — Noah, você chama isso de compreender? Andar com algo que pode… pode ameaçar você e todos nós? Está brincando com fogo, meu filho! Você não tem ideia do que está se envolvendo. Noah respirou fundo, tentando controlar a ansiedade que se espalhava pelo corpo. — Pai, eu sei do risco — disse, olhando para o mar, que se estendia em tons profundos e misteriosos —. Mas não posso simplesmente me afastar. Não quando sei que posso ajudá-la. Não quando sei que ela precisa de mim. O pai deu um passo mais próximo, o olhar penetrante, carregado de advertência e raiva contida. — Precisa de você? — disse, quase desafiador —. Noah, escute bem: você não entende o que está se envolvendo. Este não é apenas um capricho, uma curiosidade juvenil. Isso é algo maior, algo que pode destruir você, ou pior, colocar outras pessoas em perigo. Noah sentiu a urgência da situação em cada fibra do corpo. Cada palavra do pai era um aviso e um desafio, uma mistura de amor e controle, preocupação e frustração. Ele sabia que o humano jamais poderia compreender completamente o mundo submerso de Íris, mas sentia que a ligação que tinham era mais profunda do que qualquer regra ou barreira. — Pai… — disse finalmente, a voz carregada de emoção — eu entendo seus avisos. Eu sei que quer me proteger. Mas há coisas que só eu posso decidir. Há escolhas que só eu posso fazer. O pai permaneceu imóvel, observando Noah com um silêncio pesado. O vento soprava através dos mastros, fazendo os cordames rangerem, o cheiro de maresia e madeira molhada preenchia o ar, e o pai parecia pesar cada palavra, cada gesto do filho. — Só espero que você saiba o que está fazendo — disse finalmente, a voz baixa, carregada de advertência —. Quando você enfrentar as consequências, espero que tenha coragem para enfrentá-las de frente. Noah respirou fundo, sentindo o peso da responsabilidade esmagá-lo por um instante, mas também uma centelha de determinação. — Eu sei — disse, a voz firme —. E eu vou proteger quem precisa de mim. Sempre. Não importa o que aconteça. O pai deu um passo para trás, os olhos ainda fixos em Noah, o silêncio entre eles se prolongando, pesado e tenso. Noah sentiu cada palavra reverberar dentro de si, misturando medo, urgência, amor e determinação. Sabia que o mundo humano estava começando a perceber fragmentos de algo maior, e cada rumor poderia chegar a pessoas que nem imaginava, pessoas que poderiam interferir e causar problemas impossíveis de controlar. Enquanto observava o horizonte, onde o mar se fundia com o céu, Noah sentiu uma onda de determinação percorrer seu corpo. Cada passo que daria a seguir seria calculado, cada movimento pensado, cada impulso contido. — Eu não posso falhar — murmurou, a voz carregada de promessa —. Nada vai me impedir de encontrá-la, de protegê-la, de estarmos juntos novamente. As ondas batiam contra o cais, o reflexo da luz do sol na água criava padrões hipnotizantes, e Noah sentiu que o oceano, de alguma forma, estava respondendo à sua determinação, como se cada corrente, cada cardume, cada reflexo de luz estivesse preparando o caminho para o que ainda viria: a aproximação da câmara de reflexão, a comunicação com Íris e, finalmente, o encontro que poderia quebrar barreiras entre mundos. O pai de Noah, ainda observando o horizonte, parecia ponderar sobre os riscos que não compreendia completamente. Mas também havia algo na postura do filho, na firmeza de sua voz e na intensidade de seus olhos, que transmitia coragem e certeza. E mesmo sem entender tudo, o pai sabia que algo grande estava em jogo — algo que ultrapassava o que qualquer humano poderia compreender. Noah deu mais um passo para frente, sentindo o vento, as correntes do mar, a proximidade da presença de Íris invisível, e sabia que cada decisão, cada gesto, cada respiração contaria na jornada que estava prestes a começar. Ele não podia falhar, não podia hesitar, e mesmo com todos os avisos, medos e barreiras, sentia a força que vinha de dentro, aquela força que o guiaria até ela, custasse o que custasse.
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