Capítulo 17

1041 Words
O céu estava tingido de tons laranja e violeta, reflexo de um pôr do sol que parecia suspender o tempo sobre o oceano. Noah pairava na superfície, os olhos fixos no ponto exato onde a câmara de reflexão estava escondida, profunda e isolada, protegida pelas correntes que giravam como barreiras invisíveis. Cada respiração era medida, cada batida do coração amplificada pelo silêncio do mar. Ele sabia que qualquer erro seria percebido pelo Conselho — qualquer movimento fora de lugar poderia alertar Íris de que estava sendo vigiada ou, pior, colocar a própria vida dela em risco. — Eu preciso ser cuidadoso — murmurou Noah, sussurrando para si mesmo —. Cada passo, cada gesto, cada impulso conta. Ela está lá dentro… e eu… eu preciso chegar perto. O ar fresco da superfície misturava-se com a maresia e o cheiro salgado da água. Noah sentiu a corrente bater levemente contra o corpo, um lembrete de que o oceano não apenas observava, mas participava, testando sua determinação. Ele fechou os olhos por um instante, tentando sentir a presença de Íris através da água. Como antes, uma vibração tênue percorreu seu peito, quase imperceptível, mas suficiente para dar-lhe esperança. — Íris… — murmurou, a voz carregada de emoção contida — estou aqui. Sinta-me, se puder. Do fundo da câmara, Íris percebeu novamente a presença dele. Era mais intensa que antes, como se as correntes ao redor estivessem tremendo com a chegada de alguém ousado, alguém que não temia o poder do oceano. Ela sentiu a urgência dele, a determinação e o cuidado que atravessavam barreiras invisíveis. — Noah… — disse, a voz trêmula — está tentando chegar… eu posso sentir. Noah começou a descer, a água envolvendo-o em densidade crescente, cada metro tornando a aproximação mais arriscada. Ele contornava as barreiras naturais do oceano, correntes que se entrelaçavam como serpentes vivas, ajustando seu corpo, a respiração e os movimentos, quase como uma dança silenciosa com a própria água. Cada corrente que ele atravessava parecia sussurrar advertências, cada ondulação testava seu equilíbrio, e cada cardume desviava de forma quase consciente, como se o oceano estivesse observando seus movimentos. Ele precisava se aproximar da câmara sem que os sensores de energia do Conselho detectassem sua presença. Cada gesto era calculado: movimentos lentos, quase imperceptíveis, pulsos de energia controlados para imitar a corrente natural ao redor, tentando enganar o oceano em seu estado de alerta. — Quase lá… — murmurou, sentindo o coração disparar —. Não posso falhar agora. Enquanto isso, Íris se movia na câmara, sentindo cada alteração nas correntes, cada sutil pressão que indicava a presença dele. Seu corpo reagia automaticamente, flutuando com a água, ajustando-se à pressão, ao ritmo da energia que atravessava a barreira. Cada sensação era intensa, quase palpável, como se pudesse tocá-lo sem realmente vê-lo. — Noah… — sussurrou, os olhos marejados — eu posso sentir você tão perto… mas eles podem perceber. O Conselho começou a notar mudanças na energia da câmara. Pequenas ondulações de alerta percorriam a água, correntes que se reforçavam, tentando bloquear qualquer presença intrusa. Karla sentiu a energia externa, a determinação de Noah, e franziu o cenho. — Ele está se aproximando — disse, firme, o olhar penetrante —. Precisamos alertar Íris e reforçar as barreiras. Noah sentiu a resistência aumentar. Correntes mais densas tentavam desviá-lo, formando uma espécie de labirinto de água que parecia viva. Mas a determinação dele era maior. Cada memória de Íris atravessava sua mente: o toque delicado, os sorrisos, a conexão que os unia, e isso lhe dava força para continuar, mesmo quando a pressão das barreiras ameaçava empurrá-lo para trás. — Eu não posso desistir — disse ele, a voz firme, cada palavra ecoando na água —. Nada vai me impedir de chegar até você. Enquanto se aproximava, Íris começou a responder, enviando pulsos de energia sutis de volta, sinais quase imperceptíveis que poderiam ajudá-lo a encontrar o caminho. Cada gesto era uma comunicação silenciosa, uma dança entre medo e coragem, entre dever e desejo. — Eu estou aqui, Noah — disse ela, tentando manter o ritmo da energia —. Mas se eles perceberem… pode ser perigoso. Noah sentiu cada vibração e ajustou os movimentos, calculando os caminhos de menor resistência, aproveitando cada falha nas barreiras naturais. Cada segundo era intenso, cada metro percorrido carregado de tensão e emoção. O oceano parecia testar a força deles, cada corrente mais forte, cada cardume mais próximo, cada reflexo nos corais mais desafiador. — Eu sei, Íris — disse ele, concentrando-se —. Eu sei do risco. Mas não posso me afastar. Eu não vou permitir que o medo nos separe. A barreira final estava à frente. Noah podia sentir a energia da câmara vibrando, a resistência máxima do Conselho. Ele precisava calcular cada movimento com perfeição, como se a própria vida dela dependesse disso — e, de certa forma, dependia. Íris sentiu o ponto crítico. A barreira parecia quase palpável, um muro invisível que pressionava contra cada tentativa de contato. O coração dela disparou, o corpo reagiu instintivamente, e uma mistura de medo e esperança percorreu cada fibra de seu ser. — Por favor… — sussurrou —. Chegue até mim… Noah deu o último impulso, cada músculo tenso, cada respiração sincronizada com a energia que ela enviava. Ele não podia errar. Se ultrapassasse a barreira, se tocasse nem que fosse levemente, a conexão se tornaria concreta. Cada movimento era calculado, cada corrente manipulada de forma a enganar o oceano, cada gesto carregado de desejo e cuidado. O momento estava chegando. Noah sentiu o toque invisível de Íris como um guia, e ela sentiu a presença dele tão próxima que seu coração quase explodiu de emoção. A câmara de reflexão, o Conselho, as barreiras e o perigo momentâneo desapareceram por um instante, substituídos por uma única certeza: eles estavam conectados, mesmo que por segundos, mesmo que de forma indireta. O oceano, testemunha silenciosa, parecia suspender o tempo, permitindo que aquela aproximação proibida se transformasse em um diálogo de almas, feito de energia, emoção e pura determinação. E naquele instante, Noah e Íris compreenderam algo fundamental: mesmo separados, mesmo sob risco, mesmo cercados por barreiras e tradições milenares, havia uma ponte entre eles forte, resistente e impossível de ignorar.
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