Capítulo 5

1344 Words
Íris soube que havia sido descoberta antes mesmo de ver Karla. O oceano denunciava tensões de forma diferente dos humanos. Não eram passos audíveis ou portas se abrindo abruptamente. Era a mudança sutil na direção das correntes. A forma como pequenos cardumes alteravam o curso, como se evitassem uma presença que impunha respeito e medo ao mesmo tempo. Ela ainda sentia o calor residual do toque de Noah na ponta dos dedos quando a primeira vibração atravessou a água. Firme. Direta. Inequívoca. Karla. Diferente de Kael, cuja autoridade era marcada pela força bruta e postura militar, Karla exercia poder com silêncio e precisão. Sua presença não precisava de volume. Bastava o olhar. Íris estava a meio caminho das regiões profundas quando viu a silhueta se formar entre colunas de coral escuro. A luz bioluminescente refletia na cauda prateada de Karla, que se movia com elegância controlada. Ela não parecia furiosa. O que era pior. — Você demorou — disse Karla, a voz calma demais. Íris manteve a postura ereta. — Não estava me escondendo. — Não? — Karla inclinou levemente a cabeça. — As correntes contam outra história. O silêncio que se instalou era mais pesado que qualquer grito. Íris sabia que mentir seria inútil. Karla tinha a habilidade rara de sentir alterações energéticas na água — e o contato entre ela e Noah havia sido como uma pedra lançada em superfície calma. — Eu precisava confirmar algo — respondeu Íris, escolhendo cada palavra. — Confirmar ou alimentar? O tom não era acusatório. Era analítico. Karla aproximou-se, diminuindo o espaço entre elas. Seus olhos eram de um cinza profundo, quase translúcido, como céu antes da tempestade. — Você o tocou novamente. Não era pergunta. Íris sustentou o olhar. — Sim. A admissão não veio acompanhada de arrependimento. Karla percebeu. — Você entende o que isso significa? — Entendo o que dizem que significa. — Não distorça. — A voz de Karla endureceu pela primeira vez. — O contato reiterado cria vínculo. Vínculos alteram marés. Marés alteram destinos. Íris sentiu o coração acelerar. — Talvez o destino já estivesse alterado. Karla respirou fundo, contendo algo que poderia facilmente se transformar em repreensão mais severa. — Desde pequena você escuta coisas que não deveria, Íris. Sempre foi inquieta. Sempre questionou as histórias que mantêm nosso povo seguro. — Seguro ou preso? A pergunta saiu antes que pudesse ser suavizada. O olhar de Karla escureceu levemente. — Cuidado. Íris não recuou. — Quantos séculos vamos continuar escondidos por medo? Humanos evoluíram. O mundo mudou. — Humanos continuam explorando, perfurando, destruindo o que encontram — rebateu Karla com firmeza. — Você viu os equipamentos que desceram após o acidente? A curiosidade deles não é inocente. — Ele não é assim. O nome não precisou ser dito. Karla observou o modo como Íris pronunciou “ele”. Ali estava o centro do problema. — Você não o conhece. — Conheço o suficiente. — Três encontros não são conhecimento. — Não foram três encontros — Íris respondeu, e havia algo diferente na voz dela agora. — Foi algo que começou antes da tempestade. Karla estreitou os olhos. — Explique. Íris hesitou. Não sabia se deveria revelar tudo, mas guardar aquilo parecia mais perigoso do que compartilhar. — As marés estavam inquietas antes do navio sequer se aproximar. Eu ouvi. Era diferente de qualquer outra vibração que já senti. — E você concluiu que ele fazia parte disso? — Não conclui. Senti. Karla permaneceu em silêncio por alguns segundos, avaliando. — Sentir não é suficiente para colocar nosso povo em risco. Íris aproximou-se um pouco mais, diminuindo a distância entre elas. — E se o risco já estiver acontecendo independentemente de mim? E se ele não for ameaça… mas ponte? A palavra ecoou entre as colunas de coral. Ponte. Karla desviou brevemente o olhar, como se considerasse a hipótese — não porque acreditasse, mas porque precisava medir o alcance daquela ideia. — Pontes são construídas quando há dois lados dispostos — respondeu ela finalmente. — Não quando um lado desconhece a existência do outro. — Ele não desconhece mais. — Exatamente. O peso da resposta caiu sobre Íris. — O Conselho já sabe que você subiu novamente — continuou Karla. — Kael exigiu medidas imediatas. — Que tipo de medidas? — Intervenção direta no humano. O sangue de Íris pareceu gelar sob a pele. — Não. — Não é decisão sua. — Ele não fez nada além de esperar. — Esperar é o primeiro passo da investigação. Íris sentiu a raiva surgir, mas manteve a voz controlada. — Você realmente acredita que ele vai revelar nossa existência? Que vai sair gritando para o mundo? — Humanos registram. Filmam. Publicam. Transformam mistério em espetáculo. — Ele não faria isso. — Você tem certeza? — Karla perguntou, e agora havia algo mais pessoal na pergunta. Íris hesitou pela primeira vez. Não porque duvidasse de Noah. Mas porque sabia que não podia prever todas as ações humanas. Karla percebeu a hesitação. — Viu? — murmurou. — Eu confio nele. — Confiança exige tempo. — Então me dê tempo. O pedido foi direto. Karla a encarou longamente. — Você está pedindo que eu enfrente o Conselho por causa de um humano. — Estou pedindo que você considere que talvez estejamos interpretando a história errada. O silêncio se prolongou. Cardumes pequenos passaram entre elas, nervosos, como se sentissem a tensão no diálogo. Karla finalmente suspirou. — Há algo que você não sabe — disse ela, a voz mais baixa agora. Íris franziu a testa. — O que? — Não é a primeira vez que uma de nós se aproxima de um humano. O coração de Íris disparou. — Minha mãe — sussurrou, quase sem perceber. Karla não confirmou verbalmente, mas o olhar foi suficiente. — O que realmente aconteceu? — perguntou Íris, a voz agora carregada de algo que ia além da curiosidade. — O que aconteceu foi caos — respondeu Karla. — O humano prometeu silêncio. Prometeu p******o. Prometeu amor. A palavra ficou suspensa. — E depois? — insistiu Íris. — Depois vieram navios. Redes. Armas. Não contra ela diretamente… mas contra tudo ao redor. Íris sentiu o peito apertar. — Ele a traiu? — Humanos nem sempre precisam trair com intenção. Às vezes basta confiar na pessoa errada. O peso da história atingiu Íris como uma corrente fria. — Você está dizendo que eu vou repetir o erro dela. — Estou dizendo que você precisa ter certeza de que não está sendo levada pela mesma maré. Íris ficou em silêncio. Não porque não tivesse argumentos. Mas porque a história da mãe sempre fora um vazio cheio de suposições. E agora havia contornos. — Eu não sou ela — disse finalmente. — Não. — Karla concordou. — Você é mais forte. Mas também mais impulsiva. Íris cruzou os braços. — O que você vai fazer? Karla a observou por longos segundos antes de responder. — Eu vou atrasar qualquer ação direta do Conselho por enquanto. O coração de Íris quase falhou. — Por quanto tempo? — Pouco. Dias, talvez. — É o suficiente. — Não se engane — Karla continuou. — Se ele se aproximar demais da verdade, eu mesma intervirei. Não era ameaça vazia. Era promessa. Íris assentiu lentamente. — Então me deixe provar que ele não é ameaça. — Prove rápido. Karla começou a se afastar, mas parou por um instante. — E Íris… Ela virou o rosto. — Não confunda intensidade com eternidade. Humanos vivem pouco. Sentem rápido. Prometem muito. Íris sustentou o olhar. — Talvez o pouco seja justamente o que dá valor. Karla não respondeu. Apenas desapareceu entre as colunas, deixando atrás de si um rastro de silêncio pesado. Íris permaneceu imóvel por vários minutos. Sabia que o tempo agora era inimigo. Sabia que cada encontro com Noah poderia ser o último. E, pela primeira vez desde que o conhecera, sentiu medo real. Não do Conselho. Não do oceano. Mas da possibilidade de que, mesmo confiando nele, o mundo humano fosse maior e mais imprevisível do que qualquer maré.
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