Íris nunca tinha sentido o oceano tão pesado.
Não fisicamente as águas ainda a acolhiam como sempre, mas havia uma densidade diferente nas correntes, como se cada movimento seu estivesse sendo observado. Como se as próprias marés hesitassem antes de abrir caminho.
O Conselho havia sido claro.
Afastada da superfície.
Monitorada.
E, acima de tudo, advertida.
Ela tentara obedecer.
Nas primeiras horas após a convocação, manteve-se nas regiões mais profundas, ajudando em tarefas rotineiras, evitando qualquer direção que a levasse para cima. Mas a inquietação não diminuía. Pelo contrário, crescia como uma vibração constante sob sua pele.
Era como se algo a puxasse.
Não apenas curiosidade.
Não apenas culpa.
Chamado.
Íris fechou os olhos, deixando o corpo flutuar entre colunas de coral antigo. Tentou concentrar-se nos sons comuns: cardumes mudando de direção, correntes encontrando rochas, o eco distante de criaturas noturnas.
Mas, por baixo disso tudo, havia outra frequência.
Ela.
E ele.
Na superfície.
Esperando.
Quando abriu os olhos novamente, a decisão já estava tomada.
Ela nadou lentamente, evitando as áreas onde Kael costumava patrulhar. Conhecia os caminhos menos vigiados — passagens estreitas entre formações rochosas, corredores naturais onde a luz quase não penetrava.
Não estava fugindo.
Estava escolhendo.
À medida que subia, a água mudava de temperatura. Tornava-se mais leve, mais instável. Pequenas partículas refletiam a luz da lua que já tocava as camadas superiores.
Quando finalmente alcançou a região próxima à costa, manteve-se parcialmente escondida atrás de um conjunto de rochas escuras.
E lá estava ele.
Noah.
Sentado na areia, não na beira da água desta vez, mas um pouco mais afastado, como se tivesse aprendido a respeitar a distância que não compreendia.
Os joelhos dobrados, os braços apoiados sobre eles. A cabeça levemente baixa.
Ele parecia cansado.
Mas determinado.
Íris observou por alguns minutos. Ele não falava. Não chamava. Não implorava.
Apenas esperava.
E aquela espera silenciosa foi o que a fez emergir.
Primeiro, apenas os olhos acima da água.
Depois, lentamente, o rosto.
A lua refletiu-se na superfície, e por um breve segundo o brilho nos olhos dela se confundiu com o brilho do mar.
Noah levantou a cabeça como se tivesse sentido.
Seus olhos percorreram a linha da água.
Pararam.
E não se moveram mais.
Ele não piscou.
Não respirou por um instante.
— Eu sabia — a voz dele saiu baixa, mas firme, quebrando o silêncio da praia.
Íris sentiu o coração acelerar. Aquela era a primeira vez que ele falava diretamente para ela com plena consciência.
Ela não respondeu imediatamente.
Apenas manteve o olhar.
Ele levantou-se devagar, sem movimentos bruscos.
— Eu não estava louco — continuou ele, aproximando-se alguns passos, mas parando antes que a água alcançasse seus pés. — Eu vi você.
O vento soprou, movendo os cabelos dele e ondulando levemente a superfície onde ela estava.
Íris inspirou fundo.
— Você deveria ter esquecido.
A voz dela era exatamente como ele lembrava.
Suave.
Clara.
Real.
Noah soltou um riso nervoso, quase incrédulo.
— Eu tentei.
Ela inclinou levemente a cabeça, analisando cada expressão dele.
Não havia medo.
Havia admiração.
E uma intensidade que a deixou desconfortável de uma maneira nova.
— O que você é? — perguntou ele, finalmente.
A pergunta pairou no ar.
Íris poderia mentir.
Poderia desaparecer.
Poderia cumprir a ordem do Conselho e encerrar ali.
Mas estava cansada de fugir do que sentia.
— Eu sou parte do que você chama de lenda — respondeu, sem desviar o olhar.
Noah engoliu em seco.
— Sereias não existem.
— E ainda assim você está falando com uma.
O silêncio que se seguiu foi longo.
Ele passou a mão pelo rosto, processando.
— Eu quase morri — disse ele, a voz mais baixa agora. — E você me puxou para fora. Por quê?
A pergunta tinha peso.
Íris deixou que a água a sustentasse enquanto pensava.
— Porque você não deveria morrer naquele dia.
Ele franziu a testa.
— Isso não responde.
Ela aproximou-se um pouco mais da borda da água, revelando parte dos ombros.
— Nem tudo precisa de explicação imediata.
— Para mim, precisa.
Havia frustração na voz dele.
Íris percebeu que, diferente dos humanos descritos pelo Conselho, ele não reagia com pânico. Reagia com necessidade de entender.
— Eu ouvi algo antes da tempestade — disse ela finalmente. — Um aviso nas marés. Quando você caiu… não foi acaso.
— Então foi destino? — ele perguntou, com um leve traço de ironia.
Ela sustentou o olhar dele.
— Talvez.
Noah deu mais um passo à frente. A água tocou seus pés.
Íris não recuou.
— Eu tenho procurado você todos os dias — confessou ele. — Não porque acho que você vai me machucar. Mas porque… — ele hesitou, buscando as palavras certas — …porque desde aquele dia, nada parece completo.
O coração dela bateu com força.
— Você não deveria sentir isso.
— Mas sinto.
O vento soprou mais forte, levantando pequenas ondas ao redor dela.
Íris sabia que cada segundo ali era risco.
— O meu povo não permite contato com humanos.
— Seu povo? — ele repetiu, absorvendo a informação.
Ela assentiu.
— Existe um mundo sob o seu que você desconhece.
Ele respirou fundo, olhando brevemente para o horizonte antes de voltar os olhos para ela.
— Eu não quero explorar seu mundo. Eu só quero entender por que você me salvou… e por que não consigo tirar seus olhos da minha cabeça.
A sinceridade crua da frase a desarmou.
Ela não estava acostumada com aquilo.
Com alguém falando sem medo.
Sem cálculo.
— Você deveria voltar para casa — disse ela, mas a voz saiu menos firme do que pretendia.
Ele deu um meio sorriso.
— Você está aqui.
Era simples.
Direto.
Perigoso.
Íris aproximou-se ainda mais, até que a água agora tocava os pés dele enquanto ela permanecia parcialmente submersa a poucos metros de distância.
A proximidade mudou o ar entre eles.
Noah podia ver melhor os detalhes do rosto dela. A pele parecia refletir a lua de maneira sutil. Os cabelos escuros flutuavam como se a gravidade não tivesse autoridade sobre eles.
— Posso tocar você? — ele perguntou, inesperadamente.
A pergunta fez o coração dela falhar um compasso.
Nenhum humano jamais havia pedido.
A maioria que, segundo as histórias, avistara sereias reagira com medo ou ganância.
Ele pedia permissão.
Íris hesitou.
Sabia o que aquele contato provocara da primeira vez.
Sabia que o Conselho perceberia qualquer vibração incomum nas correntes.
Mas também sabia que negar naquele momento seria mentir para si mesma.
— Apenas uma vez — disse ela, quase em sussurro.
Noah ajoelhou-se lentamente na areia molhada, estendendo a mão.
Ela aproximou-se o suficiente para que seus dedos se tocassem.
O contato foi diferente da tempestade.
Não havia desespero.
Havia consciência.
Os dedos dele eram quentes.
Humanos.
Vivos.
Quando a mão dele envolveu a dela com delicadeza, uma corrente elétrica percorreu o corpo de ambos.
Íris sentiu o oceano reagir.
Pequenas ondas se formaram ao redor, não violentas, mas alertas.
Noah fechou os olhos por um segundo, absorvendo o momento.
— Você é real — murmurou ele.
— Eu nunca fui imaginação sua.
Ele abriu os olhos novamente.
— Então não desapareça.
A frase foi simples.
Mas carregava algo que ultrapassava curiosidade.
Íris sabia que não poderia prometer.
Sabia que estava sendo imprudente.
Mas naquele instante, sob a lua, com a mão dele segurando a sua como se fosse a coisa mais natural do mundo, o oceano não parecia ameaçador.
Parecia atento.
Observando.
Esperando o próximo movimento.
E, nas profundezas, correntes começaram a mudar de direção.
O Conselho sentiria.
Era apenas questão de tempo.