Capítulo 3

1417 Words
A superfície estava tranquila naquela noite, mas Íris sabia que tranquilidade nunca significava ausência de perigo. O mar respirava em movimentos longos e calculados, como se observasse cada detalhe antes de agir. Ela mantinha apenas os olhos e parte do rosto acima da água, escondida entre sombras formadas por rochas costeiras. A lua cheia iluminava o contorno da praia, desenhando em prata o corpo do homem que permanecia parado na linha onde a água encontrava a areia. Noah. Ela repetia o nome mentalmente, como se temesse esquecê-lo caso o deixasse escapar uma única vez. Ele havia voltado. Não por acaso. Não por coincidência. Ele estava ali porque procurava respostas. Íris o observava com uma atenção que beirava a imprudência. Cada movimento dele parecia mais lento do que deveria, como se carregasse o peso de algo invisível. Ele não tinha mais o olhar confuso da tempestade. Agora havia intenção. Determinação. Ele sabia que não fora salvo pelo acaso. E isso tornava tudo mais perigoso. A água tocava os pés dele, avançava até os tornozelos, recuava. Ele permanecia imóvel, encarando o horizonte como se esperasse que algo emergisse. Não gritava. Não chamava por socorro. Apenas observava. Íris sentiu um aperto estranho no peito. Uma mistura de curiosidade, culpa e algo que crescia sem que ela tivesse pedido permissão. Ela sabia que não deveria estar ali. Sabia que, ao salvá-lo, já havia cruzado uma linha que jamais deveria ser tocada. Mas voltar para vê-lo… aquilo era escolha. E escolhas tinham consequências no fundo do mar. — Você está fazendo de novo. A voz surgiu atrás dela, firme, mais grave do que a de Lys. Íris não precisou se virar para reconhecer. General Kael, m****o do Conselho do Oceano. Ela girou lentamente o corpo, mantendo-se submersa até os ombros. Kael tinha presença que alterava a própria corrente ao redor. Sua cauda escura era marcada por cicatrizes antigas, sinais de confrontos que não eram mais mencionados nas histórias contadas às jovens sereias. Seus olhos, de um verde profundo quase n***o, não carregavam gentileza. Carregavam vigilância. — Observando — respondeu Íris, controlando o tom. — Interferindo. — Não estou interferindo em nada. Kael aproximou-se mais, e a água pareceu se contrair levemente ao redor dele. — O humano voltou — disse ele, sem desviar o olhar. — Ele permanece na mesma área há três noites consecutivas. Íris sustentou o silêncio. — Isso não é comportamento comum — continuou Kael. — Humanos esquecem. Eles seguem. Eles substituem. — Talvez ele seja diferente. A resposta escapou antes que ela pudesse filtrar. Kael inclinou levemente a cabeça. — Diferente como? Ela sabia que qualquer palavra m*l colocada poderia ser usada contra ela. — Ele viu demais — disse, escolhendo cada sílaba. — A mente dele pode estar tentando compreender. — Ou pode estar tentando confirmar. A tensão se espalhou entre eles como uma corrente fria. Kael virou o olhar brevemente na direção da praia. Mesmo à distância, era possível ver Noah caminhando agora paralelamente à água, os passos lentos, o olhar atento. — O Conselho está ciente — disse Kael. — A movimentação humana aumentou após o acidente. Equipamentos foram enviados. Sons metálicos voltaram a ecoar nas profundezas. Íris sentiu o estômago se contrair. — Isso não é culpa dele. — Não subestime o efeito de um único humano obcecado, Íris Marella Nymphaea. O uso do nome completo não era casual. Era advertência. Kael aproximou-se ainda mais, diminuindo o espaço entre eles. — Você o tocou. Não era pergunta. Era acusação. Íris manteve o olhar firme. — Eu o salvei. — Não lhe cabia salvar. — Ele teria morrido. — Humanos morrem todos os dias. A resposta foi fria. Objetiva. Mas Íris não recuou. — Não sob minhas marés. O silêncio que se seguiu foi denso. Kael a analisava como se tentasse medir algo além de palavras. — Você sempre foi inquieta — disse ele finalmente. — Desde pequena, ouvindo aquilo que não deveria. Ela sentiu o sangue ferver sob a pele. — Eu ouço o que o oceano permite que eu ouça. — O oceano permite muitas coisas. Nem todas devem ser seguidas. A praia ficou silenciosa de repente. Noah havia parado novamente, olhando fixamente para o ponto onde Íris estava parcialmente escondida. Ela sentiu o olhar dele mesmo antes de confirmar. Havia algo naquela conexão que escapava à lógica do Conselho. — Ele sente — murmurou ela, quase para si mesma. Kael ouviu. — E é exatamente isso que preocupa o Conselho. Sem aviso, ele segurou o braço dela com firmeza. Não machucava, mas deixava claro que não era um gesto afetuoso. — Você foi convocada. O coração dela acelerou. — Agora? — Agora. Antes de mergulhar, Íris lançou um último olhar para a superfície. Noah ainda estava lá. O vento bagunçava os cabelos dele. A lua refletia no rosto concentrado. Ele não parecia louco. Parecia determinado. E essa diferença poderia mudar tudo. --- O salão do Conselho ficava nas regiões mais antigas do oceano, onde a luz jamais chegava e a bioluminescência das criaturas era a única forma de iluminação. Colunas naturais de pedra marinha sustentavam uma estrutura formada por corais rígidos e conchas gigantescas que se entrelaçavam como arquitetura viva. Cinco membros compunham o núcleo central. Kael ocupava um dos assentos laterais. No centro, acima de todos, estava Alta Seraphyne. Seraphyne era antiga. Tão antiga que sua idade real era desconhecida até mesmo pelos registros mais preservados. Seus cabelos prateados flutuavam como fios de luar permanente. Seus olhos eram de um azul pálido que parecia enxergar através de qualquer pensamento oculto. Íris aproximou-se devagar, mantendo postura ereta. — Íris Marella Nymphaea — ecoou a voz de Seraphyne, suave mas carregada de autoridade. — Você sabe por que foi chamada? — Imagino que sim. — O humano voltou. Não havia espaço para fingimento. — Sim. — E você voltou também. O silêncio se estendeu por segundos que pareceram minutos. — Eu apenas observei. Um dos conselheiros à esquerda inclinou-se para frente. — A observação precede o envolvimento. Seraphyne ergueu levemente a mão, pedindo silêncio. — O vínculo estabelecido durante o resgate foi imprudente — disse ela. — Humanos não devem lembrar. — Ele não lembra completamente — respondeu Íris. — Apenas fragmentos. — Fragmentos são suficientes para despertar busca. Íris sentiu o peso daquilo. — E se essa busca for necessária? As palavras escaparam antes que pudesse contê-las. Todos os olhares voltaram-se para ela. — Explique-se — disse Seraphyne. Íris respirou fundo. — As marés estavam inquietas antes do acidente. Eu ouvi algo diferente. Como se… como se aquilo fosse mais do que uma tempestade comum. Kael cruzou os braços. — Tempestades não escolhem vítimas. — Talvez não — insistiu ela. — Mas talvez aquele encontro não tenha sido aleatório. Seraphyne a observava com atenção renovada. — Você acredita em destino? — Eu acredito que o oceano não desperdiça energia à toa. A sala mergulhou em silêncio. Seraphyne desceu lentamente de sua posição elevada, aproximando-se de Íris até ficarem frente a frente. — O destino é uma palavra perigosa quando usada para justificar desobediência. — Eu não estou desobedecendo. — Está questionando. — Questionar não é trair. Kael moveu-se, claramente desconfortável com o rumo da conversa. Seraphyne ergueu novamente a mão. — O humano será monitorado — declarou ela. — Caso se aproxime demais da verdade, medidas serão tomadas. O coração de Íris disparou. — Que tipo de medidas? Seraphyne sustentou o olhar dela. — As necessárias para proteger nosso povo. A ameaça não precisava ser detalhada. Íris sentiu o sangue gelar. — Ele não representa ameaça. — Ainda. A palavra caiu como pedra. — E você, Íris… — continuou Seraphyne — será afastada da superfície por tempo indeterminado. O impacto foi imediato. — O quê? — Suas habilidades precisam ser controladas. Seu vínculo emocional compromete seu julgamento. — Eu não estou emocionalmente comprometida. Kael a encarou com uma expressão que dizia o contrário. Seraphyne inclinou levemente a cabeça. — Então isso não será difícil para você. A reunião foi encerrada com um gesto simples. Mas as correntes ao redor de Íris pareciam mais pesadas do que qualquer punição física. Ela havia cruzado uma linha. E agora o oceano inteiro observava. Enquanto isso, na superfície, Noah permanecia na praia até a madrugada. O frio não o afastava. O cansaço não o convencia a ir embora. Ele sentia que estava sendo observado. E, pela primeira vez na vida, não temia o que não conseguia ver. Porque, no fundo, ele sabia. Ela também havia voltado.
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