Capítulo 2

1154 Words
Noah Valentim Duarte acordou com o som de um monitor cardíaco marcando um ritmo que não combinava com o caos que ainda sentia dentro do peito. O primeiro pensamento que lhe atravessou a mente foi simples e confuso: Ele estava vivo. O segundo pensamento veio como um sussurro, quase uma lembrança líquida: Ela também era real. A luz branca do quarto de hospital embaçava sua visão. O cheiro de antisséptico substituía o sal do mar. O corpo estava pesado, como se ainda estivesse submerso, como se a água ainda pressionasse seus pulmões. Ele tentou mover o braço direito e uma fisgada o fez fechar os olhos com força. — Calma. Não se mova tão rápido. A voz era masculina, firme. Noah piscou algumas vezes até conseguir focar o rosto à sua frente. Um médico. — Você sofreu uma concussão leve e quase se afogou. Seu corpo ainda está se recuperando. Quase. A palavra ficou ecoando. Quase. Ele lembrava da madeira partindo sob seus pés. Do impacto contra a água. Do frio. Da escuridão puxando-o para baixo. E então… Os olhos. Azuis. Não o azul comum do oceano sob sol aberto. Era um azul que parecia conter luz própria, como se a lua tivesse decidido morar ali. Noah engoliu em seco. — Quanto tempo? — sua voz saiu rouca, arranhando a garganta. — Três dias — respondeu o médico. — Você ficou inconsciente quase vinte e quatro horas. Depois alternou entre lucidez e delírio. Delírio. O médico continuou falando sobre exames, sobre repouso, sobre sorte. Mas Noah já não escutava mais. Sua mente voltava repetidamente ao mesmo instante: o fundo escuro do mar, o peso do próprio corpo afundando… e aquela mão segurando a dele. Não havia sido sonho. Ele tinha certeza. Sentiu. O toque fora quente. Real. — Ele acordou? A voz feminina na porta fez Noah virar lentamente o rosto. Seu pai. E sua irmã mais nova. O pai entrou primeiro, passos firmes, postura rígida que parecia nunca se curvar a nada — nem mesmo a um quase desastre. — Você nos deu um susto — disse, a voz controlada demais para quem quase perdeu o filho. Noah tentou sorrir, mas o gesto não completou. — O navio? — Perda parcial. Poderia ter sido pior. — A resposta foi rápida, prática. — O importante é que a tripulação sobreviveu. Sobreviveu. Ele quase riu. Não teriam sobrevivido. Ele sabia disso. Houve um momento em que tudo já estava perdido. Mas alguém interveio. Alguém que não fazia parte da tripulação. A irmã aproximou-se da cama, segurando sua mão com cuidado. — Você estava chamando por alguém — ela disse baixinho. O olhar de Noah encontrou o dela. — Chamando? — Sim. Repetia que precisava encontrá-la. Que ela não podia desaparecer. O coração dele bateu mais forte. — Eu disse isso? — Várias vezes. O pai cruzou os braços. — Trauma faz a mente criar imagens para sobreviver, Noah. Não se apegue a isso. Ele virou o rosto lentamente para o pai. — Eu não criei. O silêncio que se seguiu foi mais pesado do que qualquer onda. O pai suspirou. — Você quase morreu. É natural que seu cérebro construa alguma figura heroica. Um mecanismo de defesa. Heroica. A palavra ficou presa no ar. Não. Ela não era uma criação. Noah fechou os olhos, ignorando o peso da conversa. Ele lembrava da voz dela. Baixa. Suave. “Você vai viver.” Nenhum sonho tinha som tão claro. Nenhuma alucinação deixaria aquela sensação nos dedos, como se ainda pudesse sentir a pele dela sob os seus. Quando voltou a abrir os olhos, o pai já falava sobre investigações, relatórios, falhas estruturais. Noah interrompeu: — Alguém me puxou da água? O pai fez uma pausa. — Um dos homens do bote disse que você já estava flutuando quando chegaram até você. — Flutuando como? — Apoiado em um pedaço grande da estrutura. Provavelmente a corrente o levou até lá. Provavelmente. Ele sabia como a corrente estava. Caótica. Violenta. Não havia probabilidade naquele momento. — E ninguém viu… ninguém diferente? — insistiu. A irmã franziu a testa. — Diferente como? Ele hesitou. Se dissesse, soaria louco. Uma mulher no meio da tempestade, intacta, sem barco, sem colete, com olhos que brilhavam sob relâmpagos. — Nada — murmurou. O pai assentiu como se tivesse confirmado algo internamente. — Descanse. Depois conversamos sobre seu retorno ao trabalho. Quando ficaram sozinhos novamente, Noah virou o rosto para a janela do quarto. O mar estava distante dali. Mas ele conseguia senti-lo. Não como antes. Diferente. Chamando. Não nos dias seguintes. Nas semanas seguintes. A alta veio, mas o repouso não trouxe paz. Noah passava horas encarando o oceano da varanda de casa, em silêncio. Não contou a ninguém que, às vezes, acordava no meio da madrugada com a sensação de estar sendo observado. Não por algo ameaçador. Mas por algo… atento. Ele tentou racionalizar. Hipóxia. Estresse pós-trauma. Construções mentais. Mas então, numa tarde nublada, enquanto revisava as fotografias tiradas antes do acidente — imagens da superfície do mar pouco antes da tempestade — ele viu algo. Uma fotografia capturada por acaso. No canto inferior da imagem, perto da borda da água, havia um brilho. Ele ampliou. O coração acelerou. Entre a espuma e a sombra do casco, havia uma forma. Não totalmente visível. Mas havia olhos. Mesmo distorcidos pela água e pelo pixel, ele reconheceria em qualquer lugar. Azuis. Impossivelmente azuis. Noah ficou imóvel por longos segundos. A fotografia não mentia. Aquilo estava ali antes do navio partir. Antes do caos. Ela já estava observando. — Isso é impossível… — murmurou para si mesmo. Mas a impossibilidade já não o assustava. O que o assustava era outra coisa. Ele não sentia medo dela. Sentia necessidade. Como se tivesse deixado algo inacabado naquele mar. Como se ela tivesse deixado algo nele. Naquela noite, ele voltou à praia onde fora resgatado. O céu estava limpo, a lua cheia refletida na água calma. Nenhuma tempestade. Nenhum navio em chamas. Apenas o som constante das ondas. Ele caminhou até onde a água tocava seus pés. — Eu sei que você estava lá — disse, a voz quase engolida pelo vento. Sentiu-se ridículo. Mas continuou. — Eu sei que você é real. Silêncio. O mar avançou e recuou, como sempre. Noah fechou os olhos por um momento. E então, quase imperceptível, sentiu algo tocar seu tornozelo sob a água. Não como uma onda. Não como uma alga. Um toque. Leve. Intencional. Ele abriu os olhos abruptamente. Nada. Apenas água escura refletindo a lua. Mas seu coração disparava como se tivesse ouvido o próprio nome sendo chamado das profundezas. Ela estava ali. Observando. E, pela primeira vez desde o acidente, Noah sorriu. Não um sorriso tranquilo, um sorriso de quem aceita o impossível. Ele não estava obcecado por uma ilusão, estava sendo chamado. E dessa vez, não era o mar que pretendia salvá-lo. Era ele quem pretendia voltar.
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