O oceano nunca estava realmente em silêncio.
Mesmo nas profundezas onde a luz m*l ousava tocar, havia movimento. Correntes invisíveis serpenteavam entre formações de corais antigos, cardumes cintilavam como constelações líquidas e criaturas ancestrais deslizavam como sombras conscientes. Ali, sob toneladas de água e segredos, o mundo respirava em outro ritmo.
Íris Marella Nymphaea sentia cada batida desse ritmo.
Ela estava imóvel entre duas colunas naturais de pedra marinha, os longos cabelos escuros flutuando ao redor do rosto como um véu vivo. Seus dedos finos tocavam levemente a superfície áspera de uma rocha coberta por algas luminosas, mas sua mente estava distante.
Ela escutava.
Não sons comuns — não o estalo distante de um crustáceo ou o roçar de uma corrente contra os corais.
Ela escutava as marés.
E naquela noite, as marés estavam inquietas.
— Você está fazendo de novo — disse uma voz atrás dela.
Íris não se virou de imediato. Sabia quem era. A cadência leve, a forma como as palavras se misturavam com pequenas bolhas de ar — Lys, sua única amiga de infância.
— Ouvindo o que não deve? — completou Lys, aproximando-se.
Íris finalmente virou o rosto. Seus olhos azulados tinham um brilho diferente naquela noite. Não era apenas reflexo das algas.
— Elas estão falando mais alto hoje — respondeu, em tom baixo. — Como se algo estivesse prestes a acontecer.
Lys cruzou os braços, a cauda dourada ondulando impaciente.
— As marés não falam, Íris. Isso é coisa da sua imaginação inquieta.
Íris sustentou o olhar da amiga por alguns segundos.
— Não. Não é.
Um silêncio se instalou entre elas. Ao longe, um grupo de sereias mais jovens nadava em círculos, rindo. Acima, muito acima, a superfície cintilava como um teto distante de prata líquida.
Íris sempre sentia algo puxando-a naquela direção.
Desde pequena.
Desde antes de entender que não deveria.
— O Conselho está reunido — Lys murmurou, mudando de assunto. — Estão preocupados com a superfície. Dizem que os humanos estão se aproximando demais do território.
O coração de Íris acelerou discretamente.
— Aproximando como?
— Navios. Equipamentos estranhos. Sons metálicos que descem até aqui. Meu pai disse que isso nunca é bom sinal.
Íris voltou o olhar para cima. A superfície parecia tranquila àquela distância, mas ela sabia que o oceano nunca mostrava tudo.
— Talvez eles estejam apenas explorando — disse, embora nem ela acreditasse totalmente nisso.
Lys a encarou com firmeza.
— Você sempre tenta defendê-los.
— Eu não os defendo. Eu só… — Íris hesitou. — Eu não acredito que todos sejam monstros.
A palavra ficou suspensa entre elas.
Monstros.
Era assim que os humanos eram chamados nas histórias antigas contadas pelo Conselho do Oceano. Criaturas imprevisíveis, gananciosas, destruidoras.
Mas as marés nunca sussurravam “monstros” quando falavam deles.
Sussurravam outra coisa.
Algo mais complexo.
Antes que Lys pudesse responder, uma vibração diferente atravessou a água. Não era natural. Era profunda, irregular.
Íris sentiu primeiro.
Depois ouviu.
Um estrondo distante.
O oceano pareceu prender a respiração.
— O que foi isso? — Lys perguntou, agora alarmada.
Íris não respondeu. Seu corpo já se movia.
Ela nadou em direção à superfície com rapidez surpreendente, ignorando o chamado da amiga atrás de si. Quanto mais subia, mais a água mudava de temperatura. Mais clara. Mais agitada.
E então ela ouviu.
Gritos.
Humanos.
O coração bateu com força no peito.
Quando rompeu a última camada antes da superfície, a cena diante dela fez o ar — ou o equivalente que respirava — pesar.
Um navio.
Grande. Antigo. Inclinado perigosamente.
Chamas dançavam em uma das laterais, refletindo-se nas ondas agitadas. Madeira estalava. Pessoas corriam, gritavam, caíam na água.
Uma tempestade começava a se formar sem aviso.
Relâmpagos cortaram o céu.
O oceano não estava inquieto por acaso.
Íris permaneceu parcialmente submersa, observando. O Conselho sempre fora claro: nunca interferir.
Nunca ser vista.
Nunca se envolver.
Mas então ela o viu.
Ele estava na beira do convés, ajudando alguém a descer para um bote menor. Seus movimentos eram rápidos, mas não desesperados. Havia firmeza nele.
Um homem.
Cabelos escuros encharcados pela chuva que começava a cair. O rosto iluminado intermitentemente pelos relâmpagos.
E então o chão sob ele cedeu.
Um estalo alto.
A madeira partiu.
Ele desapareceu na água.
Íris não pensou.
Seu corpo reagiu antes da mente.
Ela mergulhou.
A água estava caótica. Detritos afundavam ao redor. Cordas, pedaços de madeira, barris. Ela desviava com agilidade natural, procurando.
E então o encontrou.
Ele afundava rapidamente.
Os olhos fechados. O corpo pesado. Sangue misturando-se discretamente à água perto da testa.
Por um segundo, Íris ficou imóvel.
Ele era real.
Não um monstro das histórias.
Apenas… humano.
Ela segurou seu braço.
A pele era quente mesmo ali, no frio crescente da profundidade.
Ao tocá-lo, algo estranho percorreu seu corpo. Como se as marés gritassem ao mesmo tempo.
Não.
Não gritassem.
Reconhecessem.
Os olhos dele se abriram subitamente.
Verdes.
Confusos.
E encontraram os dela.
O mundo pareceu parar.
Ele tentou reagir, lutar, mas estava fraco. Bolhas escaparam de sua boca. O pânico começou a surgir em seu olhar — até que focou nela novamente.
Não havia medo ali.
Havia surpresa.
E algo que ela não soube nomear.
Íris aproximou-se mais, segurando-o com firmeza.
Ela não deveria.
Ela sabia.
Mas o oceano não a estava impedindo.
Pelo contrário.
As correntes, estranhamente, pareciam facilitar sua subida.
Ela o puxou para cima.
Quando romperam a superfície, a tempestade rugia. Ela o levou até um pedaço grande de madeira flutuante, apoiando seu corpo ali.
Ele tossiu violentamente, tentando respirar.
Íris manteve-se parcialmente escondida pela água, observando.
Ele respirava com dificuldade, mas estava vivo.
Os olhos dele procuraram ao redor em desorientação… até que encontraram os dela novamente.
Desta vez, ele a viu melhor.
O brilho incomum dos olhos.
Os cabelos flutuando apesar das ondas.
A pele que parecia refletir a própria lua escondida entre nuvens.
Ele piscou.
— Você… — a voz saiu rouca, quase inaudível.
Íris sentiu o coração acelerar de uma forma que nunca havia sentido.
Ela deveria ir embora.
Agora.
Mas não se movia.
— Eu… — ele tentou novamente, erguendo levemente a mão como se quisesse tocá-la.
O gesto era fraco, mas intencional.
E foi ali, sob chuva e relâmpagos, com o navio partindo-se ao fundo e o mundo humano desmoronando ao redor, que Íris tomou a primeira decisão que mudaria tudo.
Ela se aproximou.
Apenas o suficiente para que ele ouvisse.
— Você vai viver — disse, a voz suave misturando-se ao som da chuva.
Os olhos dele se arregalaram levemente.
— Eu estou… sonhando?
Ela quase sorriu.
— Não.
Um trovão ecoou.
Voices humanas se aproximavam em botes.
Íris sabia que o tempo havia acabado.
Ele ainda a encarava, lutando para manter a consciência.
Antes de mergulhar, ela fez algo que não estava nos livros antigos.
Algo que nenhuma sereia deveria fazer.
Ela tocou o rosto dele.
Apenas por um segundo.
E naquele toque, sentiu outra vez aquela vibração estranha.
Como se o oceano estivesse prendendo a respiração.
Como se aquele encontro não fosse acaso.
Ela desapareceu sob as ondas.
Noah Valentim Duarte perdeu a consciência segundos depois, com a última imagem gravada na mente: olhos impossivelmente azuis… e uma voz que não parecia pertencer ao mundo dos homens.
E nas profundezas, enquanto Íris nadava de volta com o coração em desordem, as marés não sussurravam mais.
Elas murmuravam uma única palavra repetidamente.
Destino.